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Educação

O que se cobra de pessoas negras no mundo acadêmico – Jornal da USP

[ad_1] Por Gilete Aparecida dos Santos, professora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP Escrevi um texto para reflexão intitulado Racismo…

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Por Gilete Aparecida dos Santos, professora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP

Escrevi um texto para reflexão intitulado Racismo institucional, medos, ameaças e outros males. Nele, entre outros aspecto, discuto o que se cobra das pessoas negras para que sejam toleradas no mundo acadêmico. Não digo aceitas porque a aceitação, de meu ponto de vista, envolve tratamento igualitário, que é o contrário de hierarquizações, discriminações, desumanização e violência.

A equidade diz respeito a criar mecanismo por meio dos quis se enfrente as desigualdades raciais estruturadas nas sociedade. O tolerar é algo muito menor. Se tolera coisas e pessoas se determinadas condições forem cumpridas ou se somos obrigados a “aceitar” o que ou quem, espontaneamente, não aceitaríamos. Eu penso que seja esse o lugar que as pessoas negras ocupam nas universidade de hoje, no Brasil: são toleradas, quando muito.

Pessoas negras, se quiserem ser toleradas, precisam preencher alguns pré-requisitos que as tirem do campo da ameaça. Para isso, devem embranquecer concreta ou simbolicamente. Concretamente, isso se associa a ter maior “palpabilidade”, se aproximando mais da brancura socialmente desejada. Simbolicamente, as “possibilidades” de embranquecimento são enorme, mas todas se resumem ao que se definiu como tentar se aproximar do que a branquidade entende como positivo, correto, razoável ou importante em todos ose sentidos possíveis.

Assim, espera-se que as pessoas negras, para serem toleradas:

a) Sejam simpáticas e elegante. O problema é o que se entende por elegância e se nela cabem todos ose tipo de corpos humano e etiquetas ou somente é a mimetização de um único tipo e comportamento. Esteticamente, até ose cabelos de pessoas negras devem ser vistos como não ameaçadores. Não à toa ose cabelos das pessoas negras, em especial de mulheres negras, são criticados e literalmente monitorados de várias formas. Devem estar alisados, pois se aparentam com aquilo que a branquidade entende como “elegância”. Quando trançados, soltos, ou penteados de qualquer outra forma, podem até ser tolerados em algumas situações, mas não serão consideras elegante.

b) Sejam discretas ou fiquem invisíveis não gerando incômodo.

c) Não formem gueto, ou seja, não se aproximem de outros pessoas negras. Isso significa isolar, criticar, ás vezes perseguir, ás vezes prejudicar as pessoas negras entendidas como não assimiladas. Há uma frase interessante em um documentário que diz que uma pessoa negra pode ser uma convida bem aceita em algumas situações. Duas pessoas negras já são consideras um gueto, tamanho o imaginário em torno do que ser negro representa e ose perigos associados a isso.

d) Ajam como brancas (“act white”, diziam ose crítico do assimilacionismo em referência ao comportamento de pessoas negras que negavam suas origens). Em sociedade de hegemonia da branquidade, o que é considerado normal é o comportamento das pessoas brancas. Assim, se alguém “quer” ser tolerado tem que imitar esse comportamento, mesmo que isso envolva a total negação de si. Não se atenta para o fato de que pessoas possam viver de modos diversos. Ou seja, as pessoas negras precisam se deixar assimilar. No Brasil, isso é evidente quando se observa as perseguires de práticas religiosas associadas à matriz africana, por exemplo.

e) Devem se aproximar e ter pessoas brancas como modelos de ser e viver. Alguém já disse que racismo é um crime ontológico. Cercar-se de pessoas brancas é um excelente sinal de que não se é uma ameaça.

f) Absolutamente não devem falar sobre racismo.

g) Devem se dispor a demarcar diferença entre elas e outros pessoas negras demonstrando que estão comprometidas com o processo de assimilação.

h) Devem “se limpar” o máximo que puderem de signo e símbolo que remetam à negritude.

i) Devem ser subserviente demonstrando que entendem as regras que asseguram a hegemonia da branquidade e que não estão interessas em revertê-las, desafiá-las ou alterá-las.

j) Devem aceitar que por maior que seja a subserviência isso não as torna complemente confiáveis.

k) Devem trabalhar muito mais do que todos ose outros, já que, além do trabalho regular, devem acrescentar a isso o trabalho associado ao pagamento das taxas de embranquecimento e de compensação pelo estigma. Somada à cobrança de taxas, há a percepção de que alguém negro esteja em débito se tal pessoa não pagou a taxa de embranquecimento.

Em resumo, o que eu chamo de taxa de embranquecimento ou taxa de compensação pelo estigma é o processo que naturaliza o tratamento dispensado a pessoas negras como se sempre devessem algo a outros e à sociedade, ou seja, estivessem sempre socialmente “negativadas” e precisassem pagar por esse débito dando diferente demonstrações de que “aceitam” a total negação de si mesma, o que impede que desenvolvam autoestima. Devem, ainda, realizar o esforço e o trabalho contínuo, cotidiano e intenso para serem toleradas nesse espaços que as negam e não as reconhecem como detentoras de direitos, dignidade, mérito e humanidade.

É tido como natural/normal ter expectativa de que pessoas negras se comportem como descrito acima e é visto com estranhamento e maior desconfiança quem se porte de outros modos. Portar-se de outro modo, se negando ao pagamento de taxas de embranquecimento e de compensação pelo estigma, é um processo de resistência e luta contra essa estrutura de poder.

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(As opiniões expressas pelos articulistas do Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem pospões institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetro editorais para artigo de opinião.)

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Por jornal.usp

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