Nos últimos dias, a eleição de Eduarda Campopiano para a Assembleia Legislativa de São Paulo reacendeu nas redes uma comparação que muita gente fez quase por reflexo: a de que o Brasil começa a se parecer com Gilead, a república teocrática de O Conto da Aia. A relação entre a série e o momento político está sendo muito comentada, e não por acaso.
Imagine contar a alguém a pior coisa que já lhe aconteceu e descobrir, no meio da conversa, que você também terá de se defender de quem deveria ouvi-la.
“Sou antifeminista. E não vou dar para trás.” A frase é de Campopiano, eleita em 4 de outubro a deputada estadual mais votada de São Paulo, com quase 2 milhões de votos. Aos 23 anos, ela chega à Assembleia Legislativa fazendo da oposição ao feminismo sua principal bandeira. Entre as pautas que pretende combater está a tipificação do feminicídio.
Há algo particularmente incômodo na imagem de uma mulher que ocupa um lugar de poder para declarar-se antifeminista. Esse lugar não surgiu do nada. Foi só em 24 de fevereiro de 1932 que o Código Eleitoral reconheceu às mulheres brasileiras o direito de votar e de serem votadas. Avós e bisavós de muitas de nós nasceram num país em que participar das decisões políticas não era um direito delas. O direito que hoje permite a uma mulher se declarar antifeminista no plenário foi conquistado por outras mulheres.
A contradição fica ainda mais aguda quando Campopiano afirma: “Eu não acho que feminicídio seja algo que exista.”
O que significa, afinal, dizer que feminicídio não existe? Talvez seja preciso voltar ao começo.
Uma mulher morreu. Isso, por si só, não é necessariamente feminicídio. Mulheres morrem de acidentes, doenças, assaltos, guerras. A palavra não foi criada para transformar toda morte de mulher em feminicídio. Então, vamos por partes: como a morte aconteceu? Em que contexto? Quem a matou? Por quê?
Quando uma mulher é morta por razões da condição do sexo feminino, em contexto de violência doméstica e familiar ou de menosprezo e discriminação à condição de mulher, a lei brasileira dá a essa morte um nome específico. Não se trata de dizer que a vida de uma mulher vale mais do que a de um homem, nem de substituir os demais homicídios, nem de emitir opinião sobre o feminismo. É o reconhecimento de que há mulheres mortas justamente por serem mulheres, ou dentro de relações de violência marcadas por essa condição.
Desde 9 de outubro de 2024, o feminicídio é crime autônomo no Código Penal. A lei não diz que toda mulher assassinada foi vítima de feminicídio. Diz o contrário: que existem mortes com características específicas e que elas precisam ser reconhecidas.
Parece simples, talvez porque seja. E talvez essa seja uma das armadilhas mais eficientes: fazer-nos gastar tempo explicando o óbvio, para que a luta precise recomeçar do zero. O problema não é a existência da palavra, mas o que acontece quando se decide que a realidade que ela nomeia também não existe.
O debate, aliás, não acontece no vazio. Num país que acaba de eleger, com votação expressiva, uma parlamentar que nega a existência do feminicídio, a pergunta deixa de ser teórica: que mensagem isso envia a quem legisla, a quem julga e a quem atende uma mulher que denuncia? Uma lei só protege na medida em que é aplicada, e a aplicação depende de delegacias, promotorias e tribunais atentos a essa realidade. Quando o discurso público trata o crime como exagero, cresce a pressão para que a lei seja tratada da mesma forma.
Voltemos, então, à cena final da segunda temporada de O Conto da Aia. Serena Joy vai ao conselho de Gilead defender que as meninas também possam aprender a ler a Bíblia, acreditando agir pela própria filha. Ignorada pelos homens que governam o país, ela toma o livro e começa a lê-lo em voz alta. É retirada da sala, e o marido deixa que a levem. Em casa, descobre-se que perdeu um dedo: foi punida por ler.
Serena não é uma mulher sem poder. Ajudou a construir a ideologia de Gilead e ocupa uma posição privilegiada num sistema que controla o corpo, a voz e a autonomia de outras mulheres. Mas as regras dessa estrutura também podem alcançá-la.
A ficção ecoa o mundo real. No Afeganistão, desde que o Talibã retomou o poder, meninas e mulheres foram progressivamente afastadas da educação. Em 2026, o país segue como o único do mundo a proibir formalmente que elas frequentem a escola além do nível primário. Cerca de 2,4 milhões de meninas estão fora do ensino secundário e, em 2025, o Talibã chegou a banir das universidades afegãs cerca de 140 livros escritos por mulheres.
O que torna Serena tão perturbadora não é apenas vê-la punida por ler, mas lembrar que ela própria ajudou a erguer o mundo em que mulheres não podiam ler. É aí que encontra Campopiano. As duas lembram que mulheres também podem ocupar posições de poder dentro de estruturas que continuam produzindo desigualdade. Não basta perguntar quem ocupa os espaços; é preciso perguntar quais ideias essa presença fortalece. No caso de Campopiano, ela fortalece também a oposição às cotas raciais e aos direitos das pessoas trans.
Há uma diferença entre discordar de um movimento político e negar as condições materiais que deram origem a determinadas lutas. Para onde vão as violências quando deixamos de nomeá-las? Para onde vai a dor de uma mulher que precisa, antes de tudo, convencer alguém de que aquilo que viveu aconteceu?
O momento exige mais do que indignação. A tipificação autônoma do feminicídio tem apenas dois anos e já é posta em xeque antes de se consolidar. Votos legitimam mandatos, mas não revogam fatos: a violência contra a mulher não deixa de existir porque uma deputada, ainda que muito votada, afirma não enxergá-la.
Muitas vezes, o primeiro passo para apagar uma violência é dizer que ela não tem nome.
Jéssica Paola, 30 anos, é cineasta e escritora paraense radicada no Rio de Janeiro. Possui várias obras publicadas desde sua estreia, aos 15 anos, entre elas Seja o que flor e A mulher que morreu da linguagem (Editora Chiado, lançado na Bienal do Livro de São Paulo), Maria e, agora, Meu Nome é um Lugar Longe (Editora Urutau, selo Hecatombe), livro de contos protagonizados por mulheres que aborda memória, corpo, linguagem e violência.
Em 2026, integrou a programação da FLIP, em uma mesa sobre autoria, deslocamento e alteridade. Atua ainda no audiovisual como roteirista, produtora e assistente de direção. Entre seus trabalhos está o documentário ficcional Vidas Cinzas, que reúne nomes como Marielle Franco, Wagner Moura, Gregório Duvivier e Petra Costa. O filme passou por mais de 100 festivais e recebeu 36 prêmios. Descrito como um falso documentário sobre a crise social, política e econômica no Brasil, apresenta um cenário em que o governo retira as cores do Rio de Janeiro e deixa a cidade em preto e branco.
Filha de escritor e jornalista, Jéssica investiga, há 15 anos, trajetórias femininas marcadas pela violência, pelo trauma e pelo apagamento.
Fonte: Mídia Ninja.
