Por Carlos Cano, de Festivales Solidarios
Em 31 de dezembro de 1999, o mundo prendeu a respiração. As pessoas estocavam água potável, os bancos reforçavam suas equipes, as usinas nucleares se preparavam, os programadores de informática passavam a noite em claro, porque o “bug do milênio” devoraria tudo. Quando soaram as badaladas da meia-noite, os fogos de artifício explodiram e nada aconteceu. Os aviões decolaram normalmente, os números nas contas bancárias permaneceram intactos, o mundo continuou girando.
Vinte e cinco anos depois, o mesmo roteiro se repete. Desta vez, a protagonista do presságio apocalíptico é a inteligência artificial. O pesquisador da Anthropic Evan Hubinger declarou, em setembro de 2026, que a IA tem “mais de 10% de probabilidade” de exterminar toda a humanidade em uma década. Um colega que pediu demissão, Jacob Coxon, acusou a OpenAI e a Anthropic de “correr a toda velocidade rumo a uma superinteligência autorrecorrente, apostando nossas vidas”.
A receita do pânico é idêntica: uma ameaça tecnológica complexa demais para que o público a compreenda, um grupo de “especialistas” com poder midiático lançando alertas apocalípticos e meios de comunicação amplificando as declarações mais extremas. E o que realmente está ameaçado nunca foi o conceito abstrato de “humanidade”.
O que está ameaçado é uma forma de vida específica
Jared Diamond analisou, em Colapso, aqueles “desaparecimentos repentinos de sociedades aparentemente poderosas e saudáveis”, a Ilha de Páscoa, os nórdicos da Islândia, os maias das terras baixas do período Clássico. Sua conclusão não é um determinismo ambiental simplista, mas uma pista mais inquietante: quando uma sociedade se acostuma a um determinado padrão de consumo, perde a capacidade de imaginar alternativas.
O estilo de vida ocidental de hoje é precisamente esse padrão. Ele foi construído sobre energia barata, crescimento infinito, cadeias globais de abastecimento e a superexploração dos recursos do planeta. Diamond observa com precisão, em O Mundo Até Ontem, que nem sequer o corpo humano teve tempo de se adaptar a essa vida, nossos rins funcionaram perfeitamente durante seis milhões de anos, mas sucumbem diante do aumento do consumo de sal dos últimos séculos, com hipertensão e diabetes como preço da civilização moderna.
Em outras palavras, essa civilização que a IA “ameaça” é, em si mesma, insustentável. A IA não é mais do que um espelho que reflete essa contradição.
E, do outro lado do espelho, outras civilizações já viveram seu “fim do mundo”, e sobreviveram
A civilização maia atravessou o “colapso” do período Clássico no século IX, as cidades das terras baixas foram abandonadas, as dinastias caíram e as estelas deixaram de ser esculpidas. A narrativa tradicional chama isso de “desaparecimento”. Mas a arqueologia e a etnografia nos contam algo completamente diferente: os maias não desapareceram, migraram, reorganizaram-se, adaptaram-se.
Hoje, nas terras altas da Guatemala, milhões de maias continuam falando idiomas da família maia, cultivando milho e praticando rituais e cosmovisões transmitidos ao longo de milênios. O “fim do mundo” provocado pelos colonizadores espanhóis não acabou com eles, a guerra civil e o genocídio não acabaram com eles, a globalização tampouco.
Ao analisar o colapso maia, Diamond o atribui aos efeitos combinados do desmatamento excessivo, do esgotamento do solo e das mudanças climáticas. Mas vale observar que o que entrou em colapso foram estruturas políticas específicas e formas específicas de densidade urbana, não a “civilização maia” em si. As comunidades maias das terras altas e montanhosas mantiveram grande parte do núcleo cultural da civilização das terras baixas, apenas sob formas mais dispersas, menos hierárquicas e mais resilientes.
Essa é a verdadeira face do “apocalipse”: não o fim da humanidade, mas o fim de uma estrutura específica de poder
O pânico do milênio foi absurdo porque equiparou “a continuidade dos sistemas informáticos” à “continuidade da civilização”. O pânico atual diante da IA é igualmente absurdo porque equipara “a continuidade do estilo de vida consumista ocidental” à “continuidade da humanidade”. Quando pesquisadores da Anthropic alertam que a IA poderia “exterminar a humanidade”, o que realmente temem é que a IA os faça perder o monopólio do poder econômico e político.
Isso fica evidente no contexto do pânico. As acusações de Coxon apontam para a “competição” entre OpenAI e Anthropic, para a ansiedade sobre “quem alcançará primeiro a superinteligência”. Não é preocupação com o destino de toda a humanidade, é ansiedade diante do cenário competitivo. Eles não temem a IA em si, temem que “outro a construa primeiro”.
As comunidades maias das terras altas da Guatemala não perdem o sono por causa dessa ansiedade
Elas viveram um colapso real — o desmoronamento da ordem política, a degradação dos ecossistemas e a violência colonial. Sua resposta não foi estocar comida enlatada nem construir bunkers, mas desenvolver uma estratégia descentralizada de sobrevivência: manter a autonomia local, sustentar redes informais de transmissão cultural, não apostar tudo em nenhum poder central ou sistema tecnológico.
Diamond observou que as sociedades das terras altas da Nova Guiné possuem “milhares de formas de organização social que funcionam como experimentos”. Essa diversidade é, em si mesma, uma forma de resiliência. Quando um modelo fracassa, outros continuam existindo. A sociedade ocidental moderna, por outro lado, em sua ilusão do “fim da história”, transformou seu modelo no único possível.
Assim, quando alguém disser que a IA exterminará a humanidade em uma década, você pode perguntar educadamente: a humanidade de quem? A humanidade dos executivos do Vale do Silício? A dos investidores de Wall Street? Ou a dos camponeses guatemaltecos?
Os maias não precisam que a IA os salve. O que precisam é de respeito por sua forma de existir e do reconhecimento de um fato que a modernidade esqueceu: o que atravessa os colapsos nunca é a estrutura mais poderosa, mas a adaptação mais flexível.
Quando soaram as badaladas do novo milênio, ninguém entrou em pânico nas terras altas da Guatemala. Seu mundo não estava construído sobre bancos de dados de dois dígitos. Vinte e cinco anos depois, quando o pânico em torno da IA toma conta de tudo, eles tampouco entrarão em pânico. Seu mundo não está construído sobre a competição pela “superinteligência”. São a civilização que apresentou o zero à humanidade, esse zero que foi parte fundamental do sistema binário para o desenvolvimento da IA.
O “relógio do fim do mundo” nunca apontou realmente para a humanidade. Apontou apenas para um tipo específico de poder da civilização ocidental. E o poder sempre perece.
Fonte: Mídia Ninja.
