Por Anna-Beatriz Aflalo – Cobertura Colaborativa Círio de Nazaré 2026
Na manhã desta quinta-feira (8), a três dias do Círio de Nazaré, técnicos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) percorreram o trajeto das procissões em Belém. Com eles estavam a Prefeitura de Belém, a Defesa Civil, o Corpo de Bombeiros e a Diretoria da Festa de Nazaré (DFN).
O objetivo foi checar se arquibancadas, caixas de som e outras estruturas montadas no percurso respeitam as regras de proteção do centro histórico e entorno. A vistoria faz parte do Grupo de Trabalho de Salvaguarda do Círio, segundo o IPHAN.
Foto: ASCOM da DFN
A ação é necessária, mas mostra só metade da história. O Círio não é um prédio, é uma festa, e proteger uma festa exige mais do que conferir possíveis depredações materiais de fachadas e calçadas.
Registro não é tombamento
Há dois tipos de proteção em jogo no domingo (11). O primeiro é o tombamento, que protege bens materiais, como casarões, igrejas e praças. Parte do trajeto passa por áreas e bens tombados. Foi esse tipo de patrimônio (material) que foi alvo da vistoria há alguns dias.
O segundo é o registro, que protege práticas, saberes e celebrações, como o Círio, que foi inscrito no Livro de Registro das Celebrações do IPHAN em 2004, a partir do pedido da Arquidiocese de Belém feito em 2001. Em 2013, o Círio entrou na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, da UNESCO, o que também faz parte do resultado das ações de preservação da festa enquanto celebração.
Um bem registrado não se protege com cercas, muros, nem com fiscalização de obra. Ele se protege por meio de planos e ações de salvaguarda, que garantem que as pessoas que fazem a festa possam continuar fazendo-a acontecer, do seu jeito, mas sem descaracterizar os ritos, símbolos e narrativas.
O que o parecer de 2021 revela
Em 2021, o Conselho Consultivo do IPHAN revalidou por unanimidade o título de Patrimônio Imaterial do Círio. A revalidação é uma espécie de “check-up” obrigatório, em que se verifica se o bem segue vivo e como mudou desde o registro. O parecer técnico desse processo é público e traz um retrato pouco festivo de alguns aspectos.
A multidão cresceu, a rua não. O documento registra que o Círio chega a cerca de 2 milhões de pessoas no mesmo trajeto de 3,6 km de sempre.
A festa virou espetáculo pago. O parecer usa o termo “turistificação” para descrever as arquibancadas com ingressos vendidos pela DFN. Em 2019, eram 5 mil lugares por procissão, a R$ 60 e R$ 110, sem meia-entrada.
O espaço popular foi “higienizado”. Citando pesquisadoras da UFPA, o documento lembra a demolição dos bares do arraial em 2010 e a troca de espaços profanos por estruturas religiosas fixas no entorno da Basílica.
Os patrocinadores pagam metade da conta. Segundo o parecer, cotas de patrocínio garantem cerca de metade do orçamento da festa oficial. Já manifestações como a Festa da Chiquita, o Auto do Círio e o Arrastão do Pavulagem contam com apoios menores e enfrentam outra realidade.
Foto: @nunesfineart
Quem faz o Círio e quem decide sobre ele
O ponto central do debate é sobre quem são os detentores do Círio? A resposta oficial é ampla, já que o próprio registro reconhece como parte da celebração a corda, a berlinda, o almoço do Círio, os brinquedos de miriti, o Auto do Círio, o Arrastão do Pavulagem e a Festa das Filhas da Chiquita. A UNESCO destacou a diversidade de crenças e grupos sociais envolvidos em seu parecer de registro, trazendo essa perspectiva como recurso de alto valor patrimonial e cultural do Círio.
Mas o parecer também mostra que essa diversidade convive com conflito. O organizador da Festa da Chiquita, Eloi Iglesias, relata, ano após ano, dificuldades para obter licenças, além de sucessivas tentativas de invisibilização do movimento. Por outro lado, mães e pais de santo contam que a participação e presença de comunidades de religiões de matriz africana, que participavam à sua forma do natal dos paraenses, diminuíram consideravelmente diante da intolerância religiosa de alguns conservadores.
Foto: Divulgação
Os artesãos de miriti de Abaetetuba ganharam estandes climatizados, mas seguem trabalhando em casa, na cozinha, em condições precárias. O documento do IPHAN alerta ainda para o acesso à matéria-prima, muito pressionado pela indústria da mineração, por hidrelétricas e pelo agronegócio na região.
Foto: Fabrício Queiroz
“A gente fica nessa sombrinha do Círio”, disse ao IPHAN o artesão Valdeli Costa, presidente da Miritong, ao defender um reconhecimento próprio para o miriti.
A festa não corre risco. A diversidade, sim!
O argumento mais comum contra essa preocupação é simples: o Círio não vai acabar. O próprio IPHAN concorda que a celebração devocional está profundamente enraizada e não apresenta risco de continuidade, mas salvaguardar a festa não é só evitar que ela desapareça, mas também garantir que ela continue sendo de muitos, mantendo como agentes aqueles que de fato compõem fatias importantes desse patrimônio.
O risco do Círio não é sumir, mas encolher e se transformar em um evento cada vez mais controlado por poucos, com a cidade como cenário e a população como plateia de arquibancada.
Os próximos passos
Em 2021, o parecer propôs criar um Comitê Gestor Interinstitucional, coordenado pelo IPHAN, e um plano integrado com função equivalente a um Plano de Salvaguarda. Também recomendou mais segurança para a Festa da Chiquita, melhores condições para os artesãos de miriti e a reabertura do Museu do Círio.
O Grupo de Trabalho de Salvaguarda do Círio de Nossa Senhora de Nazaré foi formado por recomendação do IPHAN em 2021, e tem participação direta da DFN, que é a detentora do Círio perante o IPHAN. Os grupos detentores, segundo a legislação do patrimônio, são “os responsáveis pela prática, transmissão e continuidade dos bens culturais registrados [e] participam ativamente do planejamento e da execução das ações de salvaguarda do patrimônio cultural imaterial”. Por isso, desde 2021, o referido GT vem seguindo processos de pesquisa, consultas e escutas públicas e institucionais, com a intenção de elaborar um Plano de Salvaguarda para a preservação do Círio, considerando demandas contemporâneas, sobretudo populares.
Foto: Toninho Castro / @toninhocastro.art
Neste domingo, milhões vão caminhar entre a Sé e a Basílica, em frente a fachadas, sobre calçadas e outros pavimentos que foram vistoriados. A pergunta que fica é se quem puxa a corda, quem talha o miriti e quem dança na Praça da República também está sendo ouvido quando se decide o futuro da festa.
Fonte: Mídia Ninja.
