Por Gustavo Guterman
Chove há dias sobre a favela do Canindé, à beira do rio Tietê, em São Paulo. É 27 de maio de 1958, e Carolina Maria de Jesus sai do barraco sem tomar café. Na véspera, tinha quatro cruzeiros e uns ossos para ferver numa sopa para os três filhos, e passou pela vizinha lavando feijão com uma inveja que anotou sem vergonha no caderno. Agora caminha com o saco de papel nas costas e a boca amarga. O estômago tem só ar. No caminho, sente o cheiro de creolina, um desinfetante forte que o frigorífico joga no lixo para que ninguém da favela cate a carne. A cabeça roda. A tontura do álcool faz a gente cantar, ela escreve, e a da fome faz tremer. Vende o papel por seis cruzeiros, pensa em guardar para o feijão, e o estômago não deixa. Compra um pão e um café com leite e, só depois do primeiro gole, percebe o que a fome vinha fazendo com seus olhos: o céu, as árvores e as aves estavam amarelos, e agora voltam à cor de sempre. O corpo deixa de pesar. Carolina sorri sozinha na rua. À noite, pergunta ao caderno: “E haverá espetáculo mais lindo do que ter o que comer?”
Aquela cor ela conhecia desde menina. Em Sacramento, no interior de Minas Gerais, onde nasceu em 1914, Carolina achava o mundo feio e triste quando estava com fome, e belo depois do almoço. A mãe cozinhava com lenha, e como não havia dinheiro para comprá-la, as mulheres do bairro saíam às sete da manhã com um machado para procurar pau seco no mato. Cada galho era festa, “como se encontrássemos um filão de ouro”. A menina comia jatobá, pitanga e gabiroba pelo caminho e voltava ao meio-dia com um feixe de lenha que lhe esmagava as pernas. Nas noites quentes de agosto, sentava com os outros netos em volta do avô, um homem que tinha saído da senzala e que contava como, depois da abolição, a família foi expulsa das fazendas e onde quer que parasse para viver, aquele canto “tinha dono”. De dia, Carolina via as mulheres negras da cidade saírem antes das seis da manhã para acender o fogo na casa das patroas e voltarem às onze da noite com as sobras, enquanto os filhos esperavam acordados. Via a tia Jerônima, tão pobre que tinha uma única panela: acordava às três da manhã, cozinhava o feijão e despejava numa gamela de madeira, depois o arroz, depois a carne, sempre na mesma panela, rezando para que ela não quebrasse. Estudou cerca de um ano e meio. Saiu da escola chorando, quando a família foi trabalhar numa fazenda, e levou para a vida inteira a paixão pelas letras e pelas professoras.
Trinta anos depois, no interior do Nordeste, outro menino aprendia a mesma lição. Nasceu em 1945, um mês depois de o pai partir para São Paulo, e tinha sete anos quando a mãe vendeu a terra e subiu com os filhos num pau de arara, caminhão que levava gente sentada em tábuas na carroceria. Eram 50 ou 60 passageiros e treze dias de estrada, as crianças agarradas à saia da mãe. No litoral paulista, o menino fez o que Carolina tinha feito em Minas: catou lenha, e também mariscos no mangue. Acompanhava o irmão mais velho até o cais do porto para vender amendoim, laranja e as tapiocas e os bijus que a mãe fazia. Ela juntava do chão os grãos de café caídos nos armazéns e revendia aos donos. Em 1956, a família subiu a serra até um bairro operário de São Paulo, onde a comida de quase todo dia era sopa de feijão com macarrão, feita num fogão a querosene. Arroz e feijão puro, ele lembraria, nem contava como refeição sem um pedacinho de carne. No dia em que entrou em casa um fogão a gás de duas bocas, foi festa. Aos catorze anos, o menino levou para a mãe o primeiro salário de aprendiz numa fábrica, meio salário-mínimo.
A essa altura, Carolina já tinha feito do fogão um ofício. Moça, foi cozinheira em casas de família. No primeiro emprego, matou uma galinha e não abriu a moela, o estômago da ave, que precisa ser cortado e limpo porque guarda areia, pedrinhas e uma pele amarga. Para a patroa, era a prova de que a moça não sabia cozinhar, e Carolina saiu expulsa aos gritos de “Cadela, nojenta!”. Prometeu a si mesma que seria boa no ofício e cumpriu. Na cozinha da Santa Casa de Franca, servia primeiro a enfermaria dos pobres, lia à noite o livro de receitas do hospital e, num dia de alegria, saiu dançando com a vassoura entre as panelas. Anos depois, escreveria a frase que resume o lugar das mulheres negras desde o tempo da casa-grande: “Eu não entrei no mundo pela sala de visitas. Entrei pelo quintal.” Esse saber foi com ela para o Canindé e virou ferramenta de sobrevivência. Na véspera do Dia das Mães de 1958, ganhou meia cabeça de porco no frigorífico. A família comeu a carne, e ela guardou os ossos para, no dia seguinte, cozinhar batatas no caldo. Dias depois, achou no lixo um cará, uma batata-doce e uma batata salsa, catou tomates na porta de uma fábrica e fez uma sopa com o macarrão que os filhos trouxeram da rua. Quem nunca cozinhou vê ali resto. Uma cozinheira enxerga caldo, liga e sustança. Anos mais tarde, no Pará, uma médica chamada Clara Brandão chegaria a esse mesmo saber por outro caminho, ao misturar farelos, folhas, sementes e cascas de ovo num pó, a multimistura, para reforçar o prato das crianças nas creches de Santarém. Esse saber depende de fogo e de tempo. A menina da lenha continuava catando a lenha que queimava no barraco, buscava a água na torneira da favela e escrevia enquanto as panelas ferviam. Um feijão pede horas no fogo, e o fogo custa caro. Hoje, quem trabalha o dia inteiro e passa horas no ônibus chega em casa sem tempo e sem gás para isso, e o macarrão instantâneo, pronto em três minutos, vence a panela de feijão. Combater a fome passa por pôr comida na mão das pessoas. Passa também pelo saber de quem cozinha e pelo tempo para cozinhar.
Em 13 de maio de 1958, dia em que o país comemorava a libertação dos escravizados, amanheceu chovendo no Canindé. Em casa, só feijão e sal. A mulher que tinha cozinhado para patrões e para os doentes de um hospital não tinha gordura para a sopa dos filhos. Quando os meninos viam comida, gritavam “Viva a mamãe!”, e ela escreveu que já tinha perdido o hábito de sorrir. Mandou o filho João pedir gordura a uma vizinha, que não tinha. Quando Vera Eunice, a caçula de cinco anos, começou a pedir comida, outra vizinha emprestou banha e arroz, e só comeram às nove da noite. Do outro lado da cidade, o menino do pau de arara, agora com doze anos, tomava a sopa de feijão com macarrão da mãe. Nas casas pobres, quem serve a comida costuma ser a última a comer. No mundo inteiro é assim: quase 60% das pessoas em fome grave são mulheres e meninas. Antes de dormir, Carolina fechou o dia: “E assim no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravatura atual, a fome!”
Dois anos depois, os cadernos viraram livro. Quarto de Despejo vendeu 10 mil exemplares em uma semana e foi traduzido para 13 línguas, e o país leu, pela voz de uma cozinheira, a fome contada por quem a sentia. Carolina saiu da favela, comprou uma casa de alvenaria e publicou outros livros, que nunca tiveram a mesma acolhida. Aos poucos, o país que a tinha celebrado a esqueceu. Ela morreu em 13 de fevereiro de 1977, aos 62 anos, num pequeno sítio em Parelheiros, no extremo sul de São Paulo. No dia seguinte à morte, a família leu uma carta que ela tinha deixado. Entre os pedidos, estava o de que Vera, aquela menina que pedia comida no 13 de maio, fosse professora. Vera ensinava a mãe a escrever melhor e costuma dizer que Carolina foi a sua primeira aluna. Virou professora de português em escolas de periferia.
Enquanto Carolina era esquecida, eram as mães das periferias que mantinham a fome em pauta. Em 1973, em plena ditadura, mulheres reunidas em clubes de mães e comunidades da Igreja na zona sul de São Paulo criaram o Movimento do Custo de Vida e, em 1978, levaram à Praça da Sé mais de 20 mil pessoas e um abaixo-assinado com 1,3 milhão de assinaturas contra a carestia, a alta dos preços da comida. Em 1983, a médica Zilda Arns fundou a Pastoral da Criança, e suas voluntárias passaram a ensinar o soro caseiro de porta em porta. No Rio, uma ex-empregada doméstica do morro Chapéu Mangueira, Benedita da Silva, elegeu-se vereadora como “mulher, negra e favelada” e chegou à Assembleia Constituinte, entrando pela porta da frente num lugar onde as mulheres como Carolina só entravam pelo quintal. Quando a democracia voltou, essa pressa ganhou também o rosto de um homem frágil, o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho. Portador do HIV, contraído numa transfusão de sangue, ele espalhou em 1993 comitês da Ação da Cidadania contra a Fome pelo país e deixou um lema que qualquer mãe da Sé assinaria: quem tem fome tem pressa. A pressa vinha de um diagnóstico antigo. Em 1946, o médico Josué de Castro já tinha mostrado que a fome brasileira tinha causas humanas, a começar pela terra concentrada nas mãos de poucos. Carolina tinha escrito a mesma coisa sem precisar de estatística.
E o menino do pau de arara? Virou operário, depois líder sindical, e na tarde de 1º de janeiro de 2003 atravessou de carro aberto a Esplanada dos Ministérios, em Brasília, entre dezenas de milhares de pessoas. Antes de subir a rampa do Palácio do Planalto, leu no Congresso um discurso que repassava a história do país como quem abre a despensa e confere o que falta. O Brasil tinha conhecido a riqueza dos engenhos, “mas não venceu a fome”; tinha abolido a escravidão, “mas não venceu a fome”; tinha tirado ouro de Minas Gerais e erguido fábricas, “mas não venceu a fome”. Depois falou da própria “vida de retirante nordestino, de menino que vendia amendoim e laranja no cais de Santos”. A mãe das tapiocas e dos bijus se chamava Eurídice, dona Lindu. O filho dela se chama Luiz Inácio Lula da Silva. Naquela tarde, ele fez uma promessa medida em pratos: se, ao fim do mandato, todo brasileiro puder tomar café da manhã, almoçar e jantar, terá cumprido “a missão da minha vida”.
Vieram o Fome Zero, a compra da colheita de pequenos agricultores para alimentar quem tinha fome e o Bolsa Família, pago de preferência às mulheres, as mesmas que, como dona Lindu e Carolina, tantas vezes não tiveram o que pôr no fogo. Em 2010, a alimentação entrou na Constituição como direito de todos, e em 2014, no governo de Dilma Rousseff, o Brasil saiu pela primeira vez do Mapa da Fome da ONU. Direito escrito, contudo, precisa de orçamento e vigilância. Em 2019, o conselho que discutia a fome com a sociedade foi extinto, veio a pandemia, e em 2022 mais de 21 milhões de brasileiros passavam fome, com a fome chegando a 22% dos lares chefiados por mulheres negras. Na escola de periferia onde Vera dá aula, um aluno de cinco anos gritava que estava com fome, e os professores sabiam que ele não tinha jantado. Na pandemia, quando a escola distribuiu cestas de comida, famílias chegavam às seis da manhã para esperar a entrega das nove. Ao ver aquelas famílias na fila, Vera resumiu: “ali eu vi a minha mãe”. Em janeiro de 2023, de volta ao Planalto, o menino do pau de arara recomeçou, com o Plano Brasil Sem Fome e uma merenda comprada cada vez mais da agricultura familiar, e em 2025 o Brasil saiu de novo do Mapa da Fome. A ferida segue aberta. Em 2024, quase três em cada quatro lares com fome eram chefiados por pessoas pretas ou pardas. A fome de Carolina ainda tem a mesma cor. Num daqueles cadernos, Carolina tinha deixado um pedido que, em 1958, parecia impossível: “O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora. Quem passa fome aprende a pensar no próximo, e nas crianças.” Ela morreu antes da resposta. O país respondeu com muita gente junto, das mães da Sé às voluntárias da Pastoral, das cozinhas solidárias que seguraram as panelas na pandemia aos agricultores que plantam a merenda e às merendeiras que a transformam em prato, no mesmo ofício que Carolina exerceu na Santa Casa.
A resposta é dada todos os dias, às dez da manhã, numa escola pública como aquelas em que Vera ensina. O cheiro chega antes do sinal do recreio e escapa pelo corredor: alho dourando no óleo, feijão com louro, às vezes um mingau ou uma farofa. Na cozinha, a merendeira prova o caldo na palma da mão e olha pelo vidro da porta, procurando a menina que chegou na segunda-feira de barriga vazia e passou a manhã quieta, com a cabeça apoiada no braço. A merendeira conhece aquele silêncio. Serve arroz, feijão e frango, enche o prato até a borda e não pergunta nada. A menina come devagar, de cabeça baixa, segurando a colher com força, como quem ainda não tem certeza de que pode. Depois come mais rápido. Raspa o prato, sente o corpo esquentar e, pela primeira vez na semana, ri de alguma coisa que a colega falou. Sessenta e oito anos atrás, numa manhã de fome no Canindé, Carolina viu o céu amarelo. Quando terminar, aquela menina vai correr para o pátio com o corpo leve, olhar para cima e ver o céu da cor que ele tem.
REFERÊNCIAS
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Fonte: Mídia Ninja.
