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O Brasil ressentido e o voto contra a igualdade

A disputa eleitoral expõe a força política de uma sociedade que ainda trata direitos como privilégios O post O Brasil ressentido e o voto contra a igualdade apareceu primeiro em Mídia NINJA.

O ressentimento contra a igualdade ajuda a compreender a força eleitoral do bolsonarismo.

Uma parte do Brasil aceita que a vida melhore, desde que as distâncias sociais sejam preservadas. Quando negros, pobres, mulheres e pessoas LGBT+ reivindicam autoridade, renda e reconhecimento, essa melhora passa a ser percebida como ameaça. O incômodo aparece justamente quando quem começou embaixo deixa de aceitar o lugar que lhe reservaram.

O primeiro turno de 2026 exige enfrentar essa contradição. Flávio Bolsonaro recebeu 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula obteve 45,16%. A troca de candidato preservou uma identificação que ultrapassa a figura de Jair Bolsonaro e se alimenta de conflitos sobre quem pode governar, pertencer e ascender. As urnas não revelam, sozinhas, a motivação de cada eleitor. Antipetismo, insegurança, condições materiais e vínculos religiosos também atravessam o voto.

Ainda assim, seria uma análise incompleta ignorar a reação à ampliação de direitos. O brasileiro médio não constitui um sujeito homogêneo: interessa compreender a circulação de valores que fazem da distância em relação aos grupos subalternizados uma medida de sucesso.

A escravidão oferece uma chave histórica. Estudos sobre a estrutura da posse de pessoas escravizadas mostram que o sistema envolvia muitos proprietários de pequenos plantéis, além dos grandes senhores. Fontella e Matheus¹ identificam essa disseminação na província do Rio Grande de São Pedro, correspondente ao atual estado do Rio Grande do Sul, e sua contribuição para a legitimidade social do escravismo. Possuir uma ou poucas pessoas não tornava alguém integrante da elite, mas permitia participar da ordem que convertia seres humanos em propriedade.

A partir dessa história, podemos pensar na força de uma identificação com o poder sustentada pela possibilidade de exercer domínio sobre alguém. Isso não denota uma equivalência automática entre o pequeno escravista e o eleitor contemporâneo, mas ajuda a interrogar a permanência de relações nas quais a dignidade de uns depende do rebaixamento dos direitos de outros. A promessa de ascensão pode conviver com o desejo de que o vizinho permaneça subordinado.

A linguagem das “minorias” também merece exame. Pretos e pardos somam 55,5% da população brasileira, segundo o Censo de 2022. Sua subordinação em termos de linguagem — o uso do termo “minorias” — resulta de relações de poder, e não de inferioridade numérica. Quando uma mulher negra chega à universidade, assume um cargo ou disputa a definição das políticas públicas, ela confronta expectativas sobre quem deve servir e quem pode decidir. O avanço dos direitos altera essas expectativas e encontra resistência em classes historicamente dominantes.

Há ainda uma disputa pelo desejo. O entregador de aplicativo e a mulher que mantém um pequeno negócio, por exemplo, querem renda, tempo, segurança e perspectivas. A promessa de enriquecimento individual encontra terreno em uma sociedade que associa sucesso à saída da condição popular. A esquerda perde capacidade de diálogo quando oferece proteção sem comunicar um horizonte de prosperidade ou quando trata essas aspirações como falha moral. Direitos trabalhistas precisam conversar com a vida de quem enfrenta jornadas extensas e rendimentos incertos.

No Rio de Janeiro, essa disputa assume uma expressão territorial. Flávio recebeu 53,01% dos votos válidos, contra 39,41% de Lula. O estado reúne desigualdades que permitem discutir como o discurso da ordem convive com a distribuição desigual da proteção pública. Para pensarmos: na Maré, a Redes da Maré registrou 37 dias de 2024 com uma ou mais escolas públicas fechadas em decorrência de operações policiais. A continuidade da educação fica submetida à política de segurança. Favelas e periferias produzem pensamento e organização; seus moradores fazem escolhas diversas. Reduzi-los a uma massa manipulada impede compreender tanto a adesão à direita quanto as experiências de resistência construídas nesses territórios.

A extrema direita oferece uma explicação conveniente para a frustração social: o problema seria quem conquistou direitos. A cota vira privilégio; a proteção social, favorecimento; a igualdade de gênero, ameaça à família. A disputa pela distribuição da riqueza é deslocada para o combate a grupos historicamente subordinados. O ressentimento ganha direção política e preserva os interesses de quem concentra renda e poder.

A esquerda precisa examinar seus limites de organização e governabilidade, sem responsabilizar a luta antirracista ou os direitos LGBT+ pela reação conservadora. A tarefa inclui disputar prosperidade, segurança e futuro enquanto enfrenta a hierarquia que transforma a igualdade em ofensa pessoal.

Fonte: Mídia Ninja.

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