Por Lucas Porto
Apoiadores de Lula se reuniram na Aldeia Cabana, no bairro da Pedreira, em Belém, em um ato pela democracia, pela soberania nacional, pelas universidades públicas e pelos direitos sociais. Na véspera do segundo turno das eleições presidenciais, participantes de diferentes gerações levaram às ruas suas histórias, preocupações e expectativas sobre o futuro do país.
O ato, realizado neste sábado (24), recebeu também participantes de uma caminhada que saiu da Praça do Operário, em São Brás. A mobilização integrou uma série de atos realizados em mais de 200 cidades na véspera da votação. Lula encerrou a campanha em São Paulo, na Avenida Paulista. No mesmo dia, apoiadores de Flávio Bolsonaro fizeram uma carreata em Belém.
Neste domingo (25), Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) disputam a Presidência. No primeiro turno, Flávio terminou à frente no país, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. No Pará, o resultado se inverteu: Lula venceu com 49,91%, contra 44,50% do adversário. Em Belém, o petista teve 48% dos votos válidos, e Flávio, 43,74%.
Aos 58 anos, a professora Rosani Oliveira destacou a alegria de estar na manifestação ao lado da juventude e a importância da mobilização para o resultado eleitoral. “É linda, é maravilhosa. Eu sou uma mulher de 58 anos e estar vivendo para ver isso junto com a juventude, com a explosão de alegria, de vivência, de amor, é fundamental para a virada”, disse.
Para ela, a participação dos jovens nas redes sociais precisa estar acompanhada da ocupação dos espaços públicos. “Vocês jovens estão ensinando pra nossa geração a mobilizar as redes sociais, mas a rua é importante, a rua é a vida. É sair do quarto, sair de casa. Bora pra rua, bora viver, bora fazer história.”
A defesa dos direitos dos trabalhadores também esteve entre as motivações de Antônia de Castro, trabalhadora doméstica aposentada. Ela contou que vota em partidos de esquerda desde que começou a participar das eleições e relacionou sua escolha às políticas sociais e às conquistas da categoria. Antônia recordou a mobilização das trabalhadoras domésticas em Brasília pela ampliação dos direitos trabalhistas, aprovada pelo Congresso em 2013. “É por isso que nós temos nossos direitos”, afirmou.
Antônia também falou sobre a importância da universidade pública para sua família. Uma sobrinha cursou graduação, mestrado e doutorado na Universidade Federal do Pará (UFPA) e se tornou professora, apesar das dificuldades financeiras enfrentadas pela família. “O pai dela era simplesmente um torneiro de cerâmica, de salário mínimo, e eles passavam muito”, contou. Ao explicar sua identificação com Lula, ela recordou a própria experiência com a fome e a trajetória da mãe, que criou quatro filhos trabalhando na roça. “O presidente Lula sentiu na pele o que é passar fome, assim como eu passei fome.”
A educação pública também marcou a trajetória do professor universitário Manoel Rufino. Para ele, as oportunidades que teve estão diretamente relacionadas ao investimento em educação durante os governos Lula e Dilma. “Eu sou a prova disso. Tudo o que eu tenho na minha vida eu devo à educação pública de qualidade que o governo Lula e o governo Dilma proporcionaram pros brasileiros”, disse.
Manoel participou das mobilizações ao longo do segundo turno e considera o ato na Aldeia Cabana uma oportunidade de reforçar o apoio à candidatura de Lula. “A gente pode lutar, sim, por um Brasil novo, de mudança, mas não a mudança que eles querem, que é uma mudança pro retrocesso. O Lula é uma mudança para um futuro melhor.”
O professor também defendeu a participação dos jovens na política e a busca por informações confiáveis. “Muitos jovens têm a ideia de que, por serem jovens, estão de fora da política, mas, pelo contrário, a juventude é política. É o momento em que a gente pode conhecer o mundo, discutir o mundo, criticar as instituições e usar toda essa energia para melhorar e reformar tudo que precisa ser reformado”, afirmou. Para Manoel, a democracia deve garantir a participação popular nas decisões. “Eu acredito numa política horizontal, uma política do povo para o povo. Se a gente não tem democracia, a gente tem uma política extremamente vertical, de cima para baixo, uma política de dominação, de opressão.”
O prefeito de Belém, Igor Normando (MDB), também participou da mobilização e destacou a relação de Lula com a cidade.
Segundo ele, foi na Aldeia Cabana que o petista fez um comício em 2002, antes de chegar à Presidência. “Hoje a população de Belém mostra a força que o povo cabano tem e que corre nas veias. Ninguém vai falar mal da nossa cidade sem saber os desafios que ela enfrenta, sem ter ajudado ela”, declarou.
O prefeito atribuiu ao governo federal ações importantes para a capital paraense e convocou os apoiadores a manterem a mobilização na votação. “O presidente Lula ajudou muito Belém, foi o que mais olhou pela nossa cidade. Vamos honrar amanhã com toda força, toda luta e todo coração. É 13, é Lula, vamos virar esse jogo.”
Entre os participantes estava também a agente comunitária de saúde Nayana Veras, que compareceu ao ato com a filha Fernanda, de 18 anos, estudante de Biologia. Nayana contou que vem de uma família com posicionamento político de esquerda e que a defesa dos direitos da filha, que é LGBTQIA+, faz parte de sua própria atuação política.
“Eu não teria como ter um posicionamento diferente daquele que reconhece a existência da minha filha, que consegue valorizá-la enquanto ser humano, que reconhece ela enquanto detentora dos direitos que pertencem a ela. Porque ela não é menos do que ninguém. Muito pelo contrário, pra mim ela é mais”, disse. Nayana também falou sobre sua atuação profissional no Sistema Único de Saúde (SUS) e sua ligação com a Umbanda, representada pelas guias que usava durante a manifestação. “Quando a gente vem pra rua, a gente não vem pra defender o individualismo. A gente vem para se manifestar pela coletividade.”
A mãe disse estar feliz por ver tantos jovens reunidos e por participar do ato ao lado da filha. Para ela, a educação dada às duas filhas, de 22 e 18 anos, é motivo de confiança no futuro. “Eu tenho certeza dos valores que transmiti pra elas.”
Fernanda relacionou sua presença na manifestação à experiência de ter atravessado a pandemia de Covid-19 ainda jovem e à defesa do direito de viver sem precisar justificar sua identidade. “Estar aqui hoje é uma reafirmação de que eu quero e tenho o direito de estar viva. Eu venho lutar pelas coisas em que acredito, mas também pelo simples fato de andar na rua, de entrar nos lugares e não precisar estar sempre me justificando por quem ou pelo que eu sou”, afirmou.
A estudante disse que deseja um futuro melhor para sua geração e para as que virão, com liberdade para fazer escolhas. Ao falar sobre o cenário eleitoral, contou que teme perder direitos fundamentais, como o de falar, votar e ocupar os espaços que desejar. “Às vezes eu acordo e fico pensando: será que hoje eu vou conseguir viver tranquilamente só por ser eu ou será que amanhã, após uma eleição como essa, eu vou precisar mentir, me encaixar pra poder sobreviver?”
Fonte: Mídia Ninja.
