Por Evelyn Ludovina – Cobertura Colaborativa Círio de Nazaré 2026
Para muita gente, o Círio de Nazaré termina quando a procissão chega ao fim. Para os artesãos que vivem do miriti, porém, a festa começa muito antes de outubro e pode representar meses de trabalho, encomendas e uma das principais oportunidades de renda do ano. Em Abaetetuba, município conhecido pela produção de brinquedos e peças de miriti, famílias inteiras mantêm uma tradição que atravessa gerações e encontra no período do Círio um dos momentos de maior demanda.
O artesanato é produzido a partir da fibra da palmeira do miritizeiro (Mauritia flexuosa), abundante nas áreas ribeirinhas da região. A matéria-prima dá origem a peças que fazem parte do imaginário do Círio e da cultura amazônica, como miniaturas de berlindas, barcos, pássaros, botos, cobras e imagens de Nossa Senhora de Nazaré. Em Belém, os produtos podem ser encontrados durante o ano em espaços de comercialização, mas é no período da festa que a produção ganha outro ritmo.
Artesão há 49 anos, Manoel Miranda aprendeu o ofício com o pai, no interior de Abaetetuba. Hoje, o trabalho é a principal fonte de sustento de sua família. A esposa, duas filhas e um filho também participam da produção, além de outras pessoas contratadas para ajudar quando a demanda aumenta.
Manoel Miranda em seu local de trabalho. Foto: Evelyn Ludovina
“Eu sou abençoado por trabalhar com o brinquedo de miriti”, conta Manoel. Para ele, o artesanato não sustenta apenas uma família, mas uma cadeia de pessoas que depende da atividade: “não sou eu que dependo do brinquedo do miriti, é toda uma geração”, afirma.
Meses de preparação
Embora os artesãos trabalhem durante todo o ano, os meses que antecedem o Círio são marcados por uma produção mais intensa. Manoel Miranda conta que, cerca de três meses antes da festa, a rotina pode começar ainda de madrugada. Em períodos de maior demanda, ele chega a acordar às 3h para dar conta das encomendas.
Segundo o artesão, mesmo com o esforço, nem sempre é possível atender toda a procura. Algumas peças precisam ser produzidas com bastante antecedência e outras acabam sendo vendidas antes mesmo de chegar a Belém.
A produção também movimenta uma rede que vai além das vendas diretas durante a festa. De acordo com o mestre, uma parte importante das encomendas vem dos chamados promesseiros, que procuram os artesãos para reproduzir em miriti objetos relacionados às graças alcançadas ou aos pedidos feitos à Nossa Senhora de Nazaré. Casas, mãos e outros elementos podem ser transformados em peças para representar a promessa.
“Ele passa a encomenda, o estilo assim da casa, ou uma mão, ou alguma coisa que a pessoa quer conseguir”, explica.
O artesão Manoel Benedito, que trabalha há quase 40 anos com o miriti e também aprendeu o ofício com o pai, confirma a importância do período. Sua produção envolve uma equipe de cerca de oito pessoas, formada principalmente por familiares e pessoas próximas. Apesar de trabalhar durante o ano inteiro, ele afirma que a preparação para o Círio se intensifica aproximadamente seis meses antes.
Manoel Miranda em seu local de trabalho. Foto: Evelyn Ludovina
A atividade é, para ele, a única fonte de renda. Aos 63 anos, o artesão continua produzindo e comercializando as peças.
Do interior do estado para o Círio
Abaetetuba é um dos principais polos dessa produção. De lá, os artesãos levam as peças para Belém durante o Círio e também participam de eventos em outras regiões do país. Manoel Miranda cita viagens para Brasília, Recife, São Paulo e Minas Gerais, onde os brinquedos de miriti também encontram compradores.
Em Belém, a comercialização acontece ao longo do ano, inclusive aos domingos na Praça da República. Ainda assim, o Círio permanece como um dos períodos mais importantes para quem trabalha com a atividade.
A demanda aumenta justamente porque o miriti se conecta a diferentes públicos da festa: moradores de Belém, turistas, devotos e promesseiros. As peças podem ser levadas como lembrança do Círio, usadas na decoração ou adquiridas como representação de uma experiência de fé.
Fonte: Mídia Ninja.
