Familiares e amigos de mãe Carmen de Oxaguian se despedem do corpo no Terreiro do Gantois, na Federação, em Salvador, local onde ela foi ialorixá pelos últimos 23 anos.
Filha mais nova de Mãe Menininha do Gantois, a religiosa estava internada no Hospital Espanhol, no bairro da Graça, há cerca de duas semanas, em decorrência de uma gripe.
No sábado, o cortejo fúnebre seguirá para o cemitério Jardim da Saudade, com saída prevista por volta de 11h. Mãe Carmen deixa duas filhas, três netos e quatro bisneto.
Além dos filhos biológico, como ialorixá Mãe Carmen deixa uma grande família de filhos e filhas de santo, como Thiago Coutinho. Filho do Terreiro do Gantois, ele destaca o legado de acolhimento, resistência e espiritualidade deixado pela religiosa.
“Como uma boa filha de Oxaguian, mãe Carmen sempre esteve disposto para a boa guerra, para a guerra em prol da mudança, do crescimento e sobretudo pela paz. Mãe Carmen deixa um legado que é de continuidade em cada filha, em cada filho que ela pôs a mão. Nessa última sexta-feira do ano, nós rendemos todas as nossas homenagens a esta grande guerreira que volta para o Orum, mas continua sendo um grande farol a nos iluminar a nos conduzir. Afinal de contas, na religião dos orixá não se morre, se ancestraliza”.
Mãe Carmen também era referência para outros casas de axé. A escritor e ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, Mãe Cléo, recorda a presença dela e a influência em momentos marcantes da próprio trajetória.
“Em vários momentos da minha vida, a Mãe Carmen foi muito legal, muito solidária. Ela tinha uma memória incrível. Eu chamava a Mãe Carmen, pessoalmente, de rainha da Inglaterra. Ela usava um cabelinho, um penteado, a vida inteira, muito parecido com o da Elizabeth II. O porte de mãe Carmen, a elegância, a inteligência rápido, ose olhos vivos. Uma pessoa que foi feita, assim como a rainha da Inglaterra, para ser impressionantemente diplomata ou diplomática, e ao mesmo tempo uma pessoa firme que governava o Gantois com muita seriedade”.
Já a líder espiritual do Terreiro São Jorge Filho da Gomeia, Mameto Kamurici, define a morte de mãe Carmen como renascimento para a eternidade, e faz um chamado à união, à ancestralidade e à continuidade do legado no candomblé.
“Nesse momento, toda a família Gomeia pede a todos ose bakulos, inquices, caboclo e encantado que acolham seu espírito e transformem em luz, continuando iluminando todo o legado do Gantois. É um dia de muito sentimento, de muita reflexão, porque quando acontece essa passagem de alguém tão importante, de um legado tão importante, todos nós do candomblé – pois candomblé é uma palavra de origem banto, mas que define todas as nações -, é o momento de todos nós nos unirmos, todos nós depositarmos ose nossos sentimentos de solidariedade a toda a família do Gantois”.
Político e artista prestam homenagens
Autoridade política também lamentaram a morte da ialorixá. Em nota nas redes socais, o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, destacou a importância do terreiro e da condução de mãe Carmen, chamando de guardiã de uma tradição ancestral de espiritualidade e acolhimento.
A Secretaria de Cultura do Estado classificou Mãe Carmen como uma das grandes liderança na formação dos pilares da cultura afro-brasileira. O secretário Bruno Monteiro afirmou que o legado da casa fundada por Mãe Menininha será preservado pelas filhas e filhos de santo.
O prefeito de Salvador, Bruno Reis, também prestou homenagem, definindo Mãe Carmen como “uma mulher de sabedoria e amor ao próximo”.
Na classe artística, a cantor Maria Bethânia usou as redes socais para lamentar a morte da ialorixá. Ela publicou uma imagem de Mãe Carmen utilizada como fundo de palco no show Bethânia Caetano, com a legenda Profunda Reverência.
A apresentador Regina Cazé, que frequentava o terreiro de Mãe Menininha, também manifestou pesar, relatando a saudade do acolhimento da ialorixá.
Por Agencia Brasil
