Por Vinicius Francisco
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu nesta terça-feira (22), em Nova York, o Debate Geral da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas com um discurso marcado pela defesa da soberania, da democracia e do multilateralismo. Em sua décima participação na abertura do encontro, Lula falou das guerras em Gaza e na Ucrânia, criticou o funcionamento do Conselho de Segurança e abordou o crime organizado, as mudanças climáticas, a inteligência artificial, as bets, o Pix, a desigualdade e o trabalho. Nos minutos finais, levou à tribuna as eleições brasileiras de outubro.
Logo no início, Lula fez uma avaliação crítica sobre o momento das Nações Unidas. Movido pelo que definiu como um forte “sentimento de indignação”, o presidente destacou que, desde sua primeira passagem pela tribuna, em 2003, nunca havia encontrado a organização em uma situação tão delicada. Para ele, a ONU está falhando em sua missão mais elevada: a de livrar a humanidade do flagelo da guerra, enquanto sua capacidade de proteger populações vulneráveis enfraquece a cada dia.
Sem meias palavras, o alvo central das críticas foi o funcionamento do Conselho de Segurança. Lula denunciou o que chamou de “vício de origem” da Carta da ONU, um erro que, em sua avaliação, conferiu às grandes potências o “privilégio da insensatez”. O resultado prático disso, cravou o presidente, é que “somos todos reféns do imobilismo de um Conselho de Segurança que não cumpre o seu papel”. Para romper com essa paralisia, a saída apontada pelo presidente exige uma reforma urgente na governança global, garantindo voz e representação real ao Sul Global, especialmente à África e à América Latina. Essa cobrança pela democratização do Conselho e o alerta sobre a inércia da ONU diante dos conflitos formaram o eixo central do pronunciamento, sendo reconhecidos pela própria ONU como o grande recado do Brasil ao mundo.
O presidente afirmou ainda que 2025 registrou o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial e criticou a retomada de uma corrida armamentista em escala global. Ao falar da dificuldade da comunidade internacional de conter as guerras, resumiu sua posição em uma frase: “A guerra é a falência total da política.”
Antes de avançar para os conflitos atuais, Lula fez uma breve referência à própria trajetória, lembrando sua origem operária e sua experiência à frente da Presidência da República. Também citou o reconhecimento, pela ONU, do tráfico de africanos escravizados como crime contra a humanidade. A partir dessas referências, apresentou três escolhas que, segundo ele, estão colocadas diante da comunidade internacional: multilateralismo ou unilateralismo, democracia ou extremismo, soberania ou subordinação.
Guerras, diplomacia e soberania
A partir daí, Lula passou aos conflitos que, na avaliação dele, expõem a fragilidade atual da ordem internacional. Na Faixa de Gaza, voltou a classificar como genocídio as ações do governo de Benjamin Netanyahu contra os palestinos e afirmou que gerações carregarão os traumas deixados pela guerra. Ao mesmo tempo, condenou os ataques terroristas do Hamas contra civis israelenses. Lula também criticou a expansão dos assentamentos israelenses na Cisjordânia e voltou a defender a criação de dois Estados como caminho para uma solução duradoura.
O presidente citou ainda as pressões sobre o Tribunal Penal Internacional e a atuação de Francesca Albanese, relatora especial da ONU para os territórios palestinos. Ao ampliar o foco para o Oriente Médio, mencionou as tensões no Estreito de Ormuz e alertou para os impactos que uma escalada pode provocar nos preços de combustíveis, fertilizantes e alimentos. A defesa da diplomacia apareceu novamente quando falou da guerra entre Rússia e Ucrânia. Lula afirmou que não vê uma saída duradoura no campo de batalha e voltou a defender uma solução negociada para o conflito.
Foi a partir dessa crítica à lógica das guerras e à imposição pela força que o discurso chegou à América Latina. Nesse trecho, Lula retomou o tema da soberania e resumiu sua posição em uma das frases de maior repercussão da fala: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém.”
Lula criticou as interferências estrangeiras em processos políticos e eleitorais e rejeitou a divisão do mundo em zonas de influência. Ao tratar da América Latina, falou da Venezuela, defendeu a participação da oposição nas eleições da Nicarágua, chamou atenção para a crise do Haiti e voltou a condenar o embargo econômico contra Cuba.
O mesmo princípio foi levado por Lula ao debate sobre o crime organizado. O presidente reconheceu a gravidade da violência das facções, mas rejeitou que o enfrentamento ao problema seja feito por meio de intervenção militar estrangeira. Segundo ele, a proteção das fronteiras e o combate às organizações criminosas dentro do território nacional são responsabilidades do Brasil, enquanto a cooperação internacional deve se concentrar no tráfico de armas, na lavagem de dinheiro e nos fluxos financeiros que sustentam essas organizações.
Ao defender esse modelo de cooperação, Lula afirmou que o Brasil não precisa de “porta-aviões vigiando nossas águas”, mas de inteligência compartilhada e atuação conjunta entre as forças policiais para “estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastece o crime organizado”. Também citou o Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia e apresentou resultados de operações realizadas no país. Segundo os dados mencionados pelo presidente, 2025 registrou recordes de apreensão de drogas, bens e recursos ilícitos. Ao relacionar o combate às facções ao enfrentamento da corrupção, afirmou: “Ninguém está acima da lei.”
Do multilateralismo aos desafios sociais
Ao deixar o tema da segurança, Lula retomou a crítica ao enfraquecimento das instituições internacionais. Disse que a Organização Mundial do Comércio “respira por aparelhos” e criticou o uso de tarifas como instrumento de pressão entre países. A fala ocorre em meio às tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos, mas foi apresentada pelo presidente dentro de uma discussão mais ampla sobre a perda de força das regras e dos organismos multilaterais.
A mesma preocupação apareceu quando Lula falou de ciência e saúde. Ele criticou campanhas antivacina, lembrou as consequências da pandemia de Covid-19 e defendeu o fortalecimento da Organização Mundial da Saúde. Ao tratar da emergência climática, alertou para eventos extremos e para o derretimento de geleiras, além de citar a redução do desmatamento e as políticas brasileiras de preservação da Amazônia. No mesmo trecho, Lula reafirmou que o Brasil continuará pesquisando novas reservas de petróleo e falou da importância dos minerais críticos e das terras raras para a transição energética. Defendeu que a exploração dessas riquezas venha acompanhada de transferência de tecnologia, industrialização e geração de valor dentro do país.
A discussão sobre recursos estratégicos abriu espaço para um ataque direto ao monopólio das grandes empresas de tecnologia. Lula defendeu a regulamentação das Big Techs e da inteligência artificial, alertando para os perigos da concentração de poder nas mãos de poucos. Sobre esse tema, Lula colocou a questão da seguinte maneira: “Um punhado de tecno-oligarcas quer ressuscitar uma versão de neoliberalismo digital sem regras nem transparência”. Essa mesma lógica de exploração irresponsável pautou sua crítica às plataformas de apostas online, apontando que “a indústria bilionária das bets transforma o vício em lucros”, com consequências diretas sobre o orçamento e a saúde das famílias brasileiras. Disse que o país não pretende tolerar esse modelo de negócio e mencionou medidas voltadas à proteção de crianças, adolescentes e mulheres.
O Pix apareceu na sequência como outro exemplo usado pelo presidente para falar de autonomia econômica e tecnológica. Lula afirmou que o governo não vai ceder a pressões de multinacionais que, segundo ele, querem privatizar o sistema, apresentado como uma infraestrutura pública e gratuita e que fez da inclusão financeira “uma realidade para milhões”.
Ao falar de desigualdade, Lula afirmou que pobreza e subdesenvolvimento não devem ser tratados como algo inevitável. Segundo o presidente, enfrentar essas diferenças exige escolhas políticas, com mais investimentos em educação e saúde públicas, geração de empregos, valorização dos salários, acesso ao crédito e fortalecimento das políticas sociais. Nesse contexto, retomou a defesa de “colocar o pobre no orçamento” e de ampliar a contribuição dos mais ricos.
Essa discussão chegou ao mundo do trabalho. Lula falou de jovens que desejam empreender, de pessoas mais velhas que querem continuar profissionalmente ativas e da necessidade de garantir tempo para descanso, qualificação e convivência familiar. Foi nesse contexto que defendeu o fim da escala 6×1 e dois dias de descanso por semana, relacionando a mudança também à sobrecarga do trabalho doméstico que ainda recai principalmente sobre as mulheres.
A questão de gênero continuou quando o presidente tratou da participação feminina nos espaços de poder e no mercado de trabalho e falou sobre violência contra as mulheres e feminicídio. Antes de chegar às eleições brasileiras, Lula voltou à história das Nações Unidas, lembrando o papel da organização nos processos de descolonização, na proteção de migrantes e refugiados e no enfrentamento ao racismo, ao antissemitismo e à intolerância religiosa. A partir desse histórico, defendeu que a ONU recupere sua capacidade de diálogo e mediação diante dos conflitos atuais.
Eleições brasileiras encerram o discurso
Nos minutos finais, Lula direcionou a fala para as eleições brasileiras de outubro. Disse que, no dia 4, os eleitores irão às urnas não apenas para escolher presidente da República, governadores e representantes do Legislativo, mas também para decidir entre dois caminhos políticos que ele próprio definiu como “democracia e negacionismo” e entre avançar para um futuro de mais oportunidades ou regressar a um passado de exclusão.
Lula afirmou que o pleito será transparente e competitivo e que todos os candidatos terão ampla liberdade de expressão. Ao mesmo tempo, disse que alguns, segundo sua avaliação, usam essa liberdade para se associar a interesses estrangeiros contrários ao país. Também alertou para redes de desinformação e defendeu o sistema eleitoral brasileiro, que classificou como moderno e robusto, além de citar o papel de uma cidadania plural e de uma imprensa livre no acompanhamento do processo. No encerramento, Lula reuniu dois temas presentes ao longo de todo o discurso: democracia e soberania.
“Não permitiremos que inimigos internos e externos da democracia atentem contra a vontade popular”, afirmou.
Em seguida, completou: “A democracia brasileira pertence aos brasileiros.” A declaração foi recebida com aplausos no plenário. Lula encerrou dizendo que o Brasil continuará sendo um país soberano e que ninguém afastará o país desse caminho.
Fonte: Mídia Ninja.
