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Lucas Guerra questiona a ideia DE normalidade e propõe novo olhar SOBRE gênero em “Manual DE Monstrologia”

Psicanalista, psicólogo e professor lança livro que discute cisgeneridade, padrões sociais e exclusão. Evento acontece em 31 de outubro, na Universidade de Cuiabá, com entrada gratuita.

Quem define o que é normal quando o assunto é identidade de gênero? Porque algumas pessoas podem viver sem precisar explicar quem são, enquanto outras enfrentam questionamentos constantes sobre seus corpos, suas identidades e suas escolhas?

Essas perguntas orientam Manual de Monstrologia: psicanálise e cisgeneridade (e uma monstrotopia possível), novo livro de Lucas Guerra, psicanalista, psicólogo, professor e pesquisador. Publicada pela Editora Appris, a obra propõe deslocar o olhar tradicional sobre gênero e investigar como determinados padrões sociais são tratados como naturais, enquanto experiências que fogem dessas expectativas são frequentemente associadas à estranheza e à inadequação.

O lançamento acontece no sábado, 31 de outubro, às 9h, durante a Jornada de Psicanálise da Liga Acadêmica de Psicanálise da Universidade de Cuiabá (Unic), em Mato Grosso. A programação inclui a participação do autor na mesa “Corpos que não cabem: violência, exclusão e resistência”, seguida de sessão de autógrafos. A entrada é gratuita.

E SE A NORMALIDADE TAMBÉM PRECISASSE SER EXPLICADA?

Uma das provocações centrais do livro é inverter uma pergunta frequentemente direcionada às pessoas trans: em vez de exigir que elas expliquem suas identidades, por que não questionar os padrões que fazem da cisgeneridade uma condição presumida como universal?

Pessoas cisgêneras são aquelas cuja identidade de gênero corresponde ao sexo que lhes foi atribuído ao nascer. Na perspectiva apresentada por Guerra, a cisgeneridade também pode ser investigada como uma posição social, com normas e expectativas que influenciam a maneira como corpos e comportamentos são interpretados.

“Se você não é trans, então você é o que?”, questiona o autor. Segundo ele, a resposta “normal” aparece como expressão de uma lógica que transforma uma experiência particular em referência para todas as outras.

A discussão não se limita às definições de gênero. Ela alcança expectativas sobre masculinidade e feminilidade, formas de vestir, relacionamentos afetivos e comportamentos ensinados desde a infância. O livro convida o leitor a perceber que aquilo que parece natural também pode ser resultado de processos culturais e sociais.

DA PSICANÁLISE AOS DISCURSOS SOBRE PESSOAS TRANS

Para desenvolver sua reflexão, Guerra analisou comentários publicados em grandes portais de notícias brasileiros, especialmente em matérias relacionadas à população trans. Entre os discursos observados estavam argumentos sobre diferenças biológicas, referências religiosas, questionamentos sobre o uso de banheiros e confusões entre identidade de gênero e orientação sexual.

O material serve de ponto de partida para investigar como as pessoas constroem interpretações sobre experiências que nem sempre conhecem diretamente. Na internet, esses discursos podem reforçar estereótipos e transformar a existência de pessoas trans em tema permanente de julgamento público.

O autor também reconhece sua própria posição como homem cisgênero diante do assunto. Essa reflexão é importante para a proposta da obra: não basta falar sobre diversidade; é necessário considerar de onde se fala, quais experiências são tomadas como referência e quais vozes costumam ser deixadas de lado.

“Devemos falar menos, usando nossa linguagem centrada em nós, para ouvir mais o que outras pessoas estão dizendo delas. Isso é um respeito altamente ético em primeiro lugar”, afirma Guerra.

A defesa da escuta, nesse contexto, não significa abandonar a produção de conhecimento, mas reconhecer que experiências de vida não devem ser reduzidas a interpretações construídas exclusivamente por quem as observa de fora.

MONSTROS, DIFERENÇAS E POSSIBILIDADES DE EXISTÊNCIA

O conceito de “monstrotopia” ocupa lugar importante na proposta do livro. A partir da figura simbólica do monstro, Guerra investiga como aquilo que escapa às normas estabelecidas pode ser apresentado socialmente como estranho, ameaçador ou inadequado.

A metáfora permite questionar os mecanismos pelos quais determinadas diferenças são transformadas em motivo de exclusão. Quando uma sociedade estabelece um modelo considerado correto de corpo, gênero ou comportamento, quem não corresponde a esse padrão pode ser pressionado a justificar sua existência.

Ao aproximar psicanálise, pesquisa acadêmica e elementos de ficção, o autor propõe imaginar outras formas de convivência, nas quais a diferença não seja automaticamente associada à inferioridade ou à ameaça.

A reflexão dialoga com áreas como educação, cultura, comunicação e saúde, nas quais práticas profissionais e representações sociais podem contribuir tanto para reproduzir estigmas quanto para ampliar o respeito às diferentes experiências de gênero.

TRANSFORMAÇÕES QUE EXIGEM TEMPO E ESCUTA

Lucas Guerra não apresenta a mudança social como um processo imediato. Para o pesquisador, transformar a maneira como as identidades de gênero são compreendidas exige mudanças culturais, históricas e individuais que ultrapassam uma única geração.

“Não me dou o direito de sustentar a fantasia de que seremos nós das nossas gerações que veremos uma mudança significativa na forma de respeito às identidades de gênero diversas”, observa.

Ainda assim, o autor aponta a produção de conhecimento, a educação e a prática clínica como caminhos para ampliar a compreensão sobre gênero e contribuir para reduzir situações de violência e exclusão.

Doutor em Estudos de Cultura Contemporânea pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), mestre em Políticas Sociais e Dinâmicas Regionais pela Unochapecó e especialista em Psicoterapia de Orientação Psicanalítica, Sexologia Humana e Terapia Sexual, Guerra desenvolve pesquisas relacionadas à psicanálise, gênero, sexualidade e política.

Com Manual de Monstrologia, sua proposta é ampliar o debate para além das definições de identidade e estimular uma reflexão sobre os padrões usados para organizar a vida em sociedade.

A pergunta que permanece é também a que sustenta a provocação do livro: aquilo que chamamos de normal é realmente natural ou se tornou regra porque aprendemos a reconhecê-lo dessa maneira?

SERVIÇO

Lançamento: Manual de Monstrologia: psicanálise e cisgeneridade (e uma monstrotopia possível), de Lucas Guerra.

Data: sábado, 31 de outubro de 2026.

Horário: 9h.

Local: Universidade de Cuiabá (Unic), Avenida Manoel José de Arruda, 3100, Jardim Europa, Cuiabá (MT).

Programação: participação do autor na mesa “Corpos que não cabem: violência, exclusão e resistência” e sessão de autógrafos.

Entrada: gratuita.

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Andre Schiavette

Andre Schiavette

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