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Influenciadores compartilham a Fé e a cultura do Círio Para além do Pará

Influenciadores e devotos compartilham nas redes diferentes vivências de fé e levam a cultura do Círio de Nazaré para além do Pará O post Influenciadores compartilham a fé e a cultura do Círio para além do Pará apareceu primeiro em Mídia NINJA.

Por Lucas Porto – Cobertura Colaborativa Círio de Nazaré 2026

Nas plataformas de redes sociais, criadores de conteúdo compartilham diferentes vivências da festa e aproximam de Nossa Senhora de Nazaré quem acompanha a celebração de longe.

Uma canoa pequena, a travessia difícil entre as ilhas e Belém, os perrengues da viagem até a Romaria Fluvial. Foi pela tela do smartphone, no ano passado, que o professor universitário e pesquisador de Redes e Cibercultura Mário Camarão acompanhou pela primeira vez o Círio narrado por um ribeirinho, em primeira pessoa. “Era o próprio ribeirinho contando sua história, mostrando o que vivia, com sua linguagem, seu olhar e sua emoção, sem depender da mediação dos grandes veículos de comunicação”, lembra.

Foto: Arquivo pessoal

Para o pesquisador, a cena mostra o que mudou na forma de viver e contar a fé. Experiências que quase não apareciam na cobertura tradicional agora circulam pelas redes, contadas por quem as vive. “O devoto deixa de ocupar exclusivamente a posição de receptor das narrativas produzidas pela imprensa e passa a construir, registrar e compartilhar sua própria experiência”, afirma. E esse relato viaja: sai das ilhas e chega a um paraense que mora na Europa ou a alguém que nunca veio a Belém.

Para quem nunca viu o Círio

É pensando em quem está longe que o publicitário e influenciador digital Caio Tavares produz seus vídeos. Ele participa do Círio desde criança, quando a mãe levava a família para ver a santa passar, e nunca passou a festa fora de Belém. Há dois anos publica ativamente sobre a celebração, sempre com alguma referência de alcance nacional, como memes e cultura pop, para atrair um público novo.

Foto: Arquivo pessoal

Caio avalia que os programas de televisão nacionais nem sempre conseguem transmitir com naturalidade a experiência do Círio para quem acompanha de fora. “Os influenciadores têm um papel muito importante ao compartilhar a celebração para além das imagens tradicionais, com um olhar mais próximo e pessoal”, afirma. Para ele, valorizar a festa é valorizar as tradições, os costumes e o povo paraense. “É uma oportunidade de mostrar pro Brasil um pouco da potência da região Norte”, diz.

A festa que ocupa a rua

Filha de Xangô, a arquiteta e urbanista Sâmyla Blois, que também é pesquisadora e influenciadora digital, cresceu no Círio, levada pela avó, pelas tias e pelas mais velhas da família. Há dois anos faz cobertura independente da festa nas redes para mostrar que ela acontece nas ruas, com o povo andando e ocupando a cidade. “As pessoas custam a acreditar que a Amazônia é urbana e, pra mim, o Círio é uma das maiores provas disso”, diz.

Foto: Arquivo pessoal

Seguir outra crença nunca a afastou de Nazinha, como ela chama a santa. Quando conversa com romeiros, Sâmyla conta que enxerga o poder transformador de Maria na vida deles e se reconhece em momentos de intimidade com as próprias entidades. “O Círio é do povo. Nazaré é do povo”, afirma. “Fé é energia, conexão e vulnerabilidades. Se tu tens fé em algo, tu entendes o outro”.

Foto: @marcelopraisphoto

Patrimônio e promessa

“Eu não lembro da minha vida sem o Círio”, conta a arquiteta, professora e pesquisadora Bia Aflalo, que divulga ciência e história nas redes. Ela fala da festa pelo viés do patrimônio e da cidade. “É uma festa que se apropria da rua, que se apropria dos espaços”, explica.

No ano passado, Bia e o influenciador Paulo André Marques criaram o projeto Procissão da Memória: dez vídeos em contagem regressiva, refazendo o trajeto da Catedral da Sé até a Basílica Santuário de Nazaré e contando a história do Círio e dos lugares por onde ele passa. Depois da série, uma seguidora escreveu para dizer que, pela primeira vez em mais de 40 anos, conseguiu observar por onde estava passando durante a procissão.

Foto: Crown Produções

Para o criador de conteúdo Paulo André, o Círio “significa tudo”. A devoção a Nossa Senhora de Nazaré o acompanha desde a infância e é ela que ele tenta levar aos seguidores. “Mesmo que seja pela tela do celular, eu espero passar um pouco da emoção e também informação”, afirma. Em troca, recebe relatos de cura e mensagens de pessoas que dizem ter voltado a crer em Maria depois dos vídeos. “É uma coisa que me emociona muito”, diz.

Entre a devoção e o engajamento

Tanta movimentação pede olhar crítico, pondera o professor e pesquisador Mário Camarão. As plataformas funcionam pela lógica da visibilidade, do engajamento e do alcance, e nem todo conteúdo nasce do mesmo lugar. “Existe uma diferença importante entre compartilhar uma experiência autêntica de fé e utilizar a religiosidade como estratégia de autopromoção”, alerta. A busca por audiência, segundo ele, não pode esvaziar o sentido cultural, coletivo e espiritual da celebração.

Foto: @marcelopraisphoto

Apesar da ressalva, o professor vê mais ganhos do que riscos. “As redes sociais estão permitindo que o Círio seja narrado por quem o vive, a partir de diferentes lugares, condições sociais e experiências de devoção”, afirma. Ele cita o ribeirinho que chega pelo rio, o promesseiro que acompanha a corda, a família que espera a imagem passar e o paraense que acompanha tudo de longe como partes de uma mesma narrativa coletiva.

Segundo o pesquisador, a festa segue paraense nas origens e nos símbolos, mas comunica sentimentos universais, como esperança, solidariedade, gratidão e pertencimento. Com os relatos que circulam nas redes, diz o pesquisador, o público passa a conhecer dimensões da própria cultura que estavam “tão próximas geograficamente e tão distantes da nossa percepção”.

Fonte: Mídia Ninja.

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