‘Homem-Aranha: Um Novo Dia’: Destin Daniel Cretton inaugura uma nova fase para o Cabeça de Teia

Portal Inhaí
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Por Hyader Epaminondas

Depois de quase uma década acompanhando Peter Parker, interpretado por Tom Holland, dentro do Universo Cinematográfico Marvel, “Homem-Aranha: Um Novo Dia” marca a primeira vez em que esta versão do personagem realmente tem espaço para existir por conta própria.

Desde sua estreia em “Capitão América: Guerra Civil”, a trajetória do herói sempre esteve condicionada a algo maior do que ele. Primeiro veio a influência quase paterna de Tony Stark, substituindo a figura do Tio Ben. Depois, a necessidade constante de justificar sua presença entre os Vingadores, invasões alienígenas e ameaças multiversais, transformando aquele que sempre foi o mais urbano dos heróis da Marvel em apenas uma peça dentro de um universo que raramente permitia que a cidade fosse o centro de sua história.

Não deixa de ser irônico que justamente “Homem-Aranha: Sem Volta para Casa”, um filme construído sobre o espetáculo da nostalgia e o encontro entre diferentes gerações do personagem, encontre sua conclusão ao apagar Peter Parker da memória do mundo. O sacrifício que encerra a trilogia de Jon Watts também libertava o herói de tudo aquilo que havia definido sua existência até então para tentar de novo, em um novo dia.

Uma nova visão criativa para o Cabeça de Teia

A responsabilidade de Destin Daniel Cretton como o novo regente está em inaugurar uma nova fase da franquia, enquanto busca reconstruir um protagonista cuja identidade foi completamente desmontada pelo capítulo anterior. Sem amigos, sem família, sem mentores e sem qualquer acolhimento, Peter retoma seu protagonismo como um dos personagens mais populares da cultura pop, e a diferença é que ele já não é um adolescente descobrindo seus poderes, mas um homem tentando compreender quem é quando todas as referências que sustentam sua vida deixam de existir.

Seu interesse não está em mostrar um herói tentando provar que merece vestir a máscara, mas em compreender quem resta quando a máscara se torna a única coisa que ele possui, devolvendo ao personagem autonomia e uma solidão que sempre esteve presente nos quadrinhos, permitindo que sua maior batalha deixe de ser contra ameaças externas para acontecer dentro de sua própria consciência.

Em vez de transformar o amadurecimento em mais uma sucessão de lições morais, o roteiro discute identidade. Peter já aprendeu, da maneira mais dolorosa possível, que grandes poderes trazem grandes responsabilidades. O conflito agora é outro: aceitar que essa responsabilidade não é uma prisão, mas parte inseparável de quem ele se tornou.

Durante boa parte da narrativa, o protagonista tenta deixar para trás tudo aquilo que a picada da aranha despertou anos atrás, não apenas seus poderes, mas a necessidade constante de agir e a incapacidade de permanecer indiferente ao sofrimento alheio. Quanto mais insiste em ignorar essa parte de si, maior se torna sua frustração, e a sequência transforma essa crise em uma espécie de puberdade tardia. Peter domina suas habilidades, o que ainda não aprendeu é conviver com o peso que elas impõem e com a pessoa que elas o obrigaram a se tornar.

Se a trilogia de Jon Watts era movida pela necessidade de provar que o herói estava pronto para integrar um universo maior, “Um Novo Dia” prefere perguntar se ele finalmente está disposto a aceitar o próprio universo. Afinal, ninguém amadurece tentando recuperar a pessoa que era antes das perdas que sofreu, e nisso, Cretton acerta em cheio.

A evolução encontra em Tom Holland, que vem surpreendendo como um intérprete que parece compreender todas as camadas acumuladas por Peter Parker ao longo dos anos. Quando assumiu o papel, o ator carregava a energia que aquela versão do personagem exigia: um adolescente fascinado pela possibilidade de dividir espaço com os maiores heróis da Terra.

Em “Um Novo Dia”, porém, essa empolgação dá lugar a um Peter marcado pelas consequências de suas escolhas, e isso faz com que as participações do elenco de apoio funcionem muito melhor, trazendo de volta a MJ de Zendaya e o Ned de Jacob Batalon para dar desfecho às consequências do arco do filme anterior, enquanto o Hulk de Mark Ruffalo injeta um fanservice bem colocado na narrativa, assim como as demais participações especiais.

Holland encontra espaço para um personagem mais habilidoso, porém mais silencioso, introspectivo e melancólico, fazendo com que boa parte de seu conflito exista menos nos diálogos e mais na maneira como ocupa os enquadramentos. Há uma diferença evidente entre interpretar alguém que está descobrindo o peso da responsabilidade e alguém que já conhece esse peso, mas precisa decidir se ainda consegue carregá-lo, e o ator consegue projetar isso em cena.

Existe uma influência impossível de ignorar durante toda a linguagem do filme na construção desse novo Homem-Aranha. Cretton parece beber profundamente da metodologia estabelecida por Marc Webb, que dirigiu a versão anterior do personagem em “O Espetacular Homem-Aranha”, principalmente na forma como explora a vulnerabilidade do protagonista e na fisicalidade que marcou a interpretação de Andrew Garfield. Dos movimentos mais soltos, que fazem o protagonista parecer guiado por um instinto aracnídeo, ao modo como o personagem oscila entre a insegurança e a confiança ao vestir a máscara, há momentos em que a inspiração ultrapassa a homenagem e caminha por uma linha tênue entre referência e reprodução.

O Peter de Holland ganha novas camadas, mas carrega gestos, expressões e uma melancolia que remetem diretamente à versão de Garfield. Longe de comprometer o resultado, essa aproximação evidencia o quanto aquela leitura ainda permanece como uma das mais relevantes do personagem no cinema, embora o filme nem sempre consiga construir uma identidade visual completamente própria. E isso se reflete em sua trilha sonora, que funciona em sinergia com os elementos inseridos na produção, mas mantém o mesmo tom esquecível da trilogia anterior.

É justamente nesse contexto que a presença do Justiceiro, interpretado por Jon Bernthal, funciona de maneira surpreendentemente eficiente. À primeira vista, a parceria parece improvável. De um lado está um herói que construiu sua identidade acreditando que sempre existe uma alternativa antes da violência; do outro, um homem que transformou a própria dor em uma guerra permanente contra aqueles que considera responsáveis pelo sofrimento alheio. Mas é exatamente esse contraste que torna a dinâmica tão interessante.

Frank Castle representa o caminho que Peter poderia seguir caso permitisse que suas perdas definissem completamente quem ele é. O Justiceiro abandonou qualquer esperança de redenção e encontrou na punição sua única forma de existir. A química entre Holland e Bernthal nasce justamente dessa oposição, quase como uma recriação de Riggs e Murtaugh, de “Máquina Mortífera”, e o roteiro se aproveita disso não suavizando a brutalidade do Justiceiro, entre momentos de tensão e um humor orgânico que surge naturalmente do choque entre suas personalidades. Castle se torna menos um parceiro de ação e mais um contraponto que deve ser desafiado pelo protagonista, o que funciona melhor do que sua participação na série do Demolidor.

Essa discussão também se reflete na construção visual do filme. Se a trilogia de Jon Watts frequentemente colocava Peter em cenários dominados por tecnologia, alienígenas e ameaças globais, Cretton devolve ao personagem aquilo que sempre foi uma de suas características mais importantes: a intimidade com Nova York. O Homem-Aranha sempre se projeta melhor na relação com as pessoas comuns, nos apartamentos apertados, nas ruas movimentadas e nos pequenos problemas que nenhum outro Vingador teria tempo para enxergar.

A cidade deixa de ser apenas um pano de fundo e volta a funcionar como uma extensão da identidade do protagonista. Nesse retorno a uma Nova York mais humana, a detetive Jean DeWolff, vivida por Liza Colón-Zayas, emerge como uma figura que assume a função de oferecer o amparo emocional que impede o personagem de sucumbir ao peso de suas próprias perdas.

Há um prazer evidente em vê-lo voltar a usar o ambiente a seu favor, cruzando ruas, prédios e becos de uma Nova York que finalmente volta a parecer sua casa. É reconfortante acompanhar um Homem-Aranha que volta a existir entre pessoas comuns como o amigão da vizinhança.

De volta aos quadrinhos: Um Espetacular Novo Dia

Apesar de o título ser inspirado na fase “Brand New Day”, escrita por Bob Gale, Marc Guggenheim e Dan Slott e publicada em 2008, o filme utiliza elementos da fase de J. Michael Straczynski, do início dos anos 2000, para discutir as subjetividades dos poderes do personagem como ponto de partida. Só então entra, de fato, na história adaptada livremente do arco, apresentando um herói obrigado a reconstruir a própria vida depois de perder tudo aquilo que definia sua identidade. Assim como nos quadrinhos, o diretor direciona essa ideia para uma reflexão. Seu “novo dia” não nasce porque o passado desapareceu, e sim porque o protagonista finalmente entende que não pode continuar tentando recuperar quem era antes de suas perdas.

Essa humanidade latente também encontra eco na direção das sequências de ação, com Cretton evitando transformar cada confronto em um espetáculo de destruição em escala global e privilegiando uma fisicalidade que aproxima o público do corpo do personagem. As lutas são mais próximas, mais improvisadas e exploram a agilidade do Homem-Aranha como extensão de sua personalidade. Sem transformar cada quadro em uma reprodução literal das páginas, Cretton utiliza cores mais vibrantes, enquadramentos que valorizam a verticalidade da cidade e uma direção que alterna constantemente o cotidiano de Peter Parker com a fantasia do aracnídeo.

“Homem-Aranha: Um Novo Dia” não é uma história sobre recomeços, mas sobre sublimação e um excelente ponto de entrada para a franquia. Depois de atravessar universos, enfrentar ameaças impossíveis e sacrificar tudo o que conhecia, Peter finalmente encontra equilíbrio. É justamente nessa reconciliação que Destin Daniel Cretton entrega uma das melhores leituras do personagem. Mesmo com alguns tropeços na montagem, o resultado é o melhor filme desta encarnação do Homem-Aranha.



Por Midia Ninja

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