Pular para o conteúdo
DóLAR R$ 5,00 ▲ 0,41% EURO R$ 5,60 ▲ 0,44% BITCOIN R$ 417.770 ▲ 0,96% TERçA-FEIRA, 13/10/2026 14:37
Notícias

Histórias de vida e tradição a bordo do Círio Fluvial

Entre os desafios da navegação e as histórias dos passageiros, comandante revela os bastidores de uma tradição nas águas de Belém O post Histórias de vida e tradição a bordo do Círio Fluvial apareceu primeiro em Mídia NINJA.

Por  Catarina Morais – Cobertura Colaborativa Círio de Nazaré 2026

Antes de uma embarcação seguir pelas águas de Belém para acompanhar o Círio Fluvial de Nazaré, há uma série de preparativos que nem sempre são percebidos pelos passageiros. Da organização dos espaços às condições da maré, cada detalhe precisa ser considerado. Um erro no posicionamento do navio, por exemplo, pode provocar um encalhe e comprometer a participação na romaria.

Quem explica é o comandante Pompeu, que acumula 22 anos de experiência na navegação e participa do Círio Fluvial há aproximadamente uma década. Sua trajetória começou como marinheiro e, nos últimos cinco anos, ele passou a exercer a função de comandante, assumindo a responsabilidade pela condução da embarcação e pela segurança das pessoas a bordo.

Durante o Círio Fluvial de 2026, realizado no sábado (10), Pompeu esteve à frente da embarcação Rondônia, uma das que acompanharam a imagem peregrina de Nossa Senhora de Nazaré pela Baía do Guajará. Em meio à movimentação de barcos e devotos, seu trabalho revela uma dimensão da celebração que acontece longe dos olhares de quem acompanha a procissão: os bastidores de uma tradição que também depende da experiência dos trabalhadores da navegação.

Antes de a fé tomar as águas, há trabalho a fazer

A preparação para o Círio Fluvial começa antes do embarque dos passageiros. Segundo Pompeu, o processo envolve a pintura da embarcação, a ornamentação, a organização dos espaços e a atuação conjunta de diferentes equipes.

“A gente começa a organização preparando a pintura, a parte estética da embarcação toda, já aguardando também a outra equipe que vem com a ornamentação”, explica.

Enquanto parte da equipe cuida da estrutura e da decoração, outros profissionais organizam os ambientes destinados aos passageiros e às atividades religiosas. É um trabalho que exige planejamento, coordenação e atenção aos detalhes.

Há, porém, um fator que não depende apenas da organização humana: o comportamento das águas. Na região amazônica, onde os rios fazem parte da rotina de deslocamento e da vida de milhares de pessoas, conhecer as condições de navegação é indispensável. Durante o Círio Fluvial, esse conhecimento ganha ainda mais importância diante da concentração de embarcações e passageiros.

Pompeu explica que a tripulação precisa considerar o nível da maré e posicionar o navio adequadamente para evitar problemas no momento da saída. “Se, de repente, por algum momento de esquecimento, você não põe a embarcação numa posição correta, você pode perder a romaria”, alerta.

O cuidado envolve toda a equipe. Marinheiros e profissionais de apoio precisam trabalhar de forma coordenada para que a embarcação esteja pronta no horário previsto. Por trás da procissão que mobiliza milhares de devotos, existe, portanto, uma rotina de trabalho que começa antes de os barcos ocuparem a Baía do Guajará.

Foto: Catarina Morais

A responsabilidade de conduzir vidas

Com mais de duas décadas dedicadas à navegação, Pompeu conhece as responsabilidades de estar no comando de uma embarcação. Durante o Círio Fluvial, elas se somam ao significado pessoal que a celebração tem para ele. Devoto de Nossa Senhora de Nazaré, o comandante afirma que participar da romaria é uma experiência que envolve dedicação profissional e gratidão.

“A gente faz todos os preparativos, tudo para realmente dar o melhor, o melhor que a gente pode dar, o nosso esforço, o nosso sacrifício”, conta.

Entre as lembranças acumuladas ao longo de aproximadamente dez anos de participação, uma permanece especialmente marcante: o momento em que o navio responsável pelo transporte da imagem peregrina passou muito próximo da embarcação que ele conduzia.

Pompeu recorda a emoção dos passageiros, muitos deles chorando diante da proximidade com a imagem de Nossa Senhora de Nazaré. Para ele, que acompanhava tudo do comando, a cena também se tornou inesquecível.

É nessa combinação entre responsabilidade e devoção que o comandante encontra parte do significado de seu trabalho. Enquanto precisa manter a atenção à navegação, também presencia histórias e manifestações de fé que se renovam a cada edição do Círio.

Uma embarcação, muitas histórias

Em 2026, o Círio Fluvial reuniu centenas de embarcações no percurso entre Icoaraci e o centro de Belém. Segundo informações preliminares atribuídas à Marinha do Brasil durante a cobertura, 216 embarcações participaram da romaria.

Na embarcação comandada por Pompeu, centenas de passageiros acompanhavam a celebração. Entre eles, estavam pessoas que haviam viajado de outros estados e países, famílias que mantêm a tradição há décadas e devotos que viviam aquela experiência pela primeira vez.

Uma dessas histórias é a de Cidália Lobo, de 68 anos, que participava da romaria acompanhada da mãe, Helena Lobo, de 97 anos. A presença das duas representa a continuidade de uma tradição familiar, mas, para Cidália, a participação também tinha um significado particular.

Em 2023, ela recebeu o diagnóstico de câncer de estômago. Segundo conta, recebeu a notícia com desespero. Após passar por uma cirurgia para a retirada do órgão, enfrentou um período difícil e encontrou na fé uma forma de lidar com a experiência. Durante a entrevista, ao recordar o que viveu, Cidália não conseguiu conter a emoção. “Hoje eu tô chorando, mas de felicidade”, disse.

Para ela, estar novamente no Círio era também uma oportunidade de agradecer pela vida e pela recuperação após o tratamento. “Eu tenho que agradecer. E agradecerei o resto da minha vida.”

A poucos passos dali, outra passageira carregava uma história marcada pela distância e pelo pertencimento. Aos 59 anos, Ana Lúcia Santos Paz vive em Roma, na Itália, há 35 anos. Mesmo depois de construir sua vida em outro país, continua retornando ao Pará para participar do Círio de Nazaré.

Desde a infância, quando cantava no coro da igreja de sua comunidade, a devoção faz parte de sua trajetória. Hoje, atravessar o Atlântico para participar da celebração também significa reencontrar as próprias origens.

“Eu atravesso o oceano para ver Nossa Senhora de Nazaré, para estar presente no Círio de Nazaré, para estar aqui no Pará, junto com o meu povo paraense”, afirma.

Para Léo Morais, que saiu de Fortaleza, no Ceará, a viagem também representou a realização de um sonho. Antes de chegar a Belém, precisou enfrentar o medo de andar de avião pela primeira vez. Já no Círio Fluvial, viveu outra experiência inédita: navegar em uma embarcação de grande porte. O receio inicial deu lugar à alegria de participar de uma celebração que desejava conhecer havia muito tempo. A viagem também foi um presente de aniversário.

Entre os passageiros, as histórias são diferentes, mas revelam o significado que a procissão assume na vida de quem decide participar dela.

Foto: Catarina Morais

Quem conduz também faz parte da tradição

Para quem acompanha o Círio Fluvial como passageiro, a travessia pode representar a realização de um sonho, a continuidade de uma tradição familiar ou um momento de agradecimento.

Para quem trabalha na navegação, a experiência também é feita de planejamento, responsabilidade e decisões que precisam ser tomadas antes e durante o percurso.

Ao longo de aproximadamente dez anos participando da romaria, Pompeu acompanhou histórias de diferentes pessoas e viveu seus próprios momentos de emoção. Mas é o trabalho realizado pela tripulação, muitas vezes longe da atenção dos passageiros, que permite que essas experiências aconteçam.

A preparação da embarcação, o acompanhamento das condições da maré, a organização dos espaços e a condução segura dos devotos fazem parte de uma operação coletiva que também sustenta a tradição do Círio Fluvial.

Nas águas de Belém, enquanto histórias de vida e devoção se encontram a bordo, trabalhadores como o comandante Pompeu seguem atentos ao percurso. Afinal, para que a procissão aconteça, não basta apenas chegar ao rio. É preciso conhecer suas águas e saber conduzir quem escolheu fazer parte dessa travessia.

Fonte: Mídia Ninja.

Compartilhe esta matéria:
Portal Inhaí

Portal Inhaí

Confira as notícias e colunas publicadas por Portal Inhaí no Portal Inhaí.