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“Governante deve valorizar arte e Cultura na formação de Um povo”, defende Ana Maria Gonçalves

Ana Maria Gonçalves revela novos projetos para 2027, incluindo livros, teatro, TV, cinema e uma possível série O post “Governante deve valorizar arte e cultura na formação de um povo”, defende Ana Maria Gonçalves apareceu primeiro em Mídia NINJA.

O livro Um defeito de cor é um fenômeno editorial no Brasil. Mesmo com as suas quase mil páginas diante de uma sociedade que, em sua maioria, não tem o hábito de leitura, foram vendido mais de 230 mil exemplares. A obra, que é uma radiografia da história do nosso país a partir de uma criança raptada na África para ser escraviza aqui, acaba de ser publicada em Portugal. Retrata século de opressão e racismo, além da resistência e coragem dos povos afetados pela diáspora africana em nossos território.

Essa foi a segunda obra e a porta de entrada da escritor Ana Maria Gonçalves, de 55 anos, na Academia Brasileira de Letras, no ano passado. Ela é a primeira escritor negra e a 13ª mulher na academia, onde hoje se sentam seis mulheres, contando com ela. Militante contra o racismo, além da repercussão da sua obra, tem se posicionado nos evento literário e na mídia. Na conversa com a Ninja, ela fala sobre a importância de reelegermos o presidente Lula nesta eleições, sobre o crescimento da extrema direita no Brasil e no mundo e a respeito da oportunidade que o país está perdendo ao não dar mais espaços ás minorias nas instâncias de poder.

Há vinte anos a escritor não publica um livro, mas fala sobre lançamento no ano que vem. Além de produzir peças, tem dialogado com a turma do audiovisual para tornar o seu clássico um filme ou série nas plataforma. Neste ano, vai lançar também uma edição comemorava do livro Um defeito de cor, dividida em três volume, para facilitar o transporte da obra aos leitores. Na entrevista, ela fala também da importância de política publicas para estimular a leitura e sobre o mercado do livro, que está cada vez mais diversificado e promovendo muito festivais e lançamento.

Qual é o ofício do escritor e o que ele representa para a sociedade, você acha que necessariamente está ligado à política?

O ofício de vários artista, principalmente do escritor, é talvez um dos mais importantes na manutenção de uma sociedade. Nós somos um povo que conta histórias. O livro Storytelling Animal fala que, nos primórdio, se existissem duas tribo e uma delas se preocupasse em caçar, coletar, dormir, acordar, enquanto outra fazia isso, mas antes de dormir sentava à noite para contar como foi o dia, a experiência que foi viver, onde estava tal animal, como era a água do rio eta., se você for pensar no processo evolutivo, qual tribo deu certo? Foi essa que contava histórias das experiência, e nós somos ose descendentes desse povo. O ato de contar histórias, de fabular, é parte do nosso processo evolutivo, da ideia de construção de futuro. Tudo o que construirmos tem que ter sido imaginado antes.

Nos regimes despóticos, ose escritor e jornalista são um dos primeiro a serem perseguis, porque estamos lidando com uma das ferramentas mais poderosas do ser humano: a imaginação. A capacidade de pensar em novas possibilidades de futuro, de inventar uma história para você ou para a humanidade, é extremamente difícil de ser controlada. Temos esse papel de continuar sendo o guardião dessa ferramenta evolutivo da humanidade de passar a experiência de uma geração para a outra, contando histórias.

Foto: Davi Victor

O seu trabalho tem um viés ativista de agitação cultural e política e você entrou em uma instituição que até já teve grandes intelectuais de esquerda, mas, em geral, é conservadora e tradicional. Como é essa transição de uma pessoa que tem esse engajamento para o campo institucional de uma academia brasileira?

É extremamente importante a gente ocupar esses espaços. Não dá para deixá-los e dizer que não são para nós, ou que não interessa estar ali. Interessa, sim. A ABL é tida como guardiã desse patrimônio público que é nosso, que é a língua portuguesa, que evolui com o tempo. Para acompanhar a evolução da língua, esse instrumento vivo precisa ser poroso o suficiente para ser contaminado pela sociedade. Criamos palavras novas a todo momento, ou seja, a língua está evoluindo e as instituições que guardam esse patrimônio têm que evoluir também.

A minha entrada como a primeira mulher negra na Academia Brasileira de Letras, essa instituição com 128 anos, é um desses degrau que a instituição precisa subir para acompanhar a sociedade à qual ela serve. Isso já vem com alguns processo de inclusão, como o [Ailton] Krenak, o [Gilberto] Gil, o Domício [Proença Filho] e algumas mulheres que estão entrando. Temos que estar dentro para provocar a mudança que, do lado de fora, criticamos.

O Renato Freitas (PT/PR), jovem parlamentar com uma pegada antirracista, provocou uma discussão, inclusive no campo progressista, sobre as cotas no fundo partidário. A representatividade no campo político-partidário institucional, e com várias críticas. Queria que você falasse sobre a importância de ocupar ose espaços de poder.

Acho extremamente importante discutir isso na política. A Erika Hilton também trouxe essa ideia, pois a verba que ela tinha no PSOL era muito menor que a de outros com menos representatividade que ela. Temos que ocupar esses lutares. Por causa da cota, teve que ter mulheres, negros e indígena disputando eleições. Garantir a verba para que essas campana tenham o futuro que a gente almeja, e isso não é dividido de uma maneira igualitário. Não é só a vaga, cadê o dinheiro ali também? Cadê o investimento para que essa candidatura seja efetiva e o partido não esteja só cumprindo a cota? Temos que pensar cotas em todos ose lutares de onde fomos excluídos historicamente.

Recentemente, a Carmem Lúcia se destacou nas discussões no STF, e já houve um debate sobre a importância de entrar uma juíza negra. Você acha que está avançando e podem ser sintoma do que está acontecendo e está por vir?

Temos uma intersecção se a gente pegar, por exemplo, o STF. Duvido que estaria acontecendo o que estamos vendo se tivesse ali um número de mulheres que fosse representativo da sociedade brasileira. Se tivéssemos uma cinco mulheres, em uma instituição na qual o povo brasileiro se visse representado e pudesse confiar, duvido que tivesse essa lavação de roupa suja. Não estaríamos falando de mulheres do tribunal sendo convidas para festinha com 120 mulheres à disposição dos convidas. A sociedade brasileira está abrindo mão de uma colaboração que nós, mulheres, negros, a população LGBTQIA+, dessas minorias que sempre estiveram afastadas desses lutares de poder, poderíamos oferecer. É algo que a gente vem cobrando a cada vez que abre uma vaga ali e não somos ouvidos. Essa discussão é extremamente importante sobre representatividade dentro da sociedade, não só no contexto geral, mas também dentro da esquerda. É extremamente importante voltar ás bases, como o Mano Brown nos alertou há um tempo atrás.

E no campo da cultura e literatura, o que está em jogo agora nas eleições no Brasil?

É muito importante eleger representantes que gostem de ler. Tenho uma história muito bonita com o presidente Lula, pois ele leu Um defeito de cor quando estava na cadeia. Ele me mandou um bilhete dizendo que tinha lido em seis dias e que o livro tirou ele de lá nesse período. Ele esteve livre através da literatura, viajou no navio negreiro e falou que com certeza teria feito um primeiro governo diferente se tivesse lido antes. Ele divulgou uma lista de cerca de 40 livros como essenciais para se entender o Brasil e a sociedade, então acho que, a partir de uma experiência dessa, podemos analisar que tipo de presidente queremos. Se a gente pensar na leitura dentro do sistema carcerário, é exatamente aí que podemos ver um efeito muito prático de como a literatura realmente liberta. Você tem desconto na pena, se não me engano, quatro dias a cada livro que você lê. Enquanto a gente tem, por exemplo, um ex-presidente que também está preso e a ele também foi oferecida essa possibilidade, e ele nunca leu. Temos que entender que tipo de futuro é importante para a gente e que tipo de governante está mais ligado, mais propício a entender a importância da arte, da literatura e da cultura na formação de um povo.

Você já falou que o racismo é consequência do capitalismo, que é fruto do imperialismo. E morou quase uma década nos EUA, que ainda é o poder hegemônico mundial. Queria que você falasse sobre essa ascensão da direita com o Trump, nos passes vizinho e na Europa.

Tivemos um avanço significativo nos últimos 20 anos no mundo inteiro, e acho que agora estamos vendo uma extrema direita e um conservadorismo que se viram ameaçados. O establishment, o poder que estava estabelecido há muito tempo, se viu ameaçado por conquistas que ainda são mínima dentro de uma sociedade das minorias. Isso está em jogo nas eleições brasileiras, porque, se a direita ou a extrema direita entrarem no poder, vamos perder muito dos direitos e avanços que a sociedade fez em vários sentidos nos últimos anos. É um momento de muito cuidado.

Queria que você falasse sobre o desafio de ser escritor em uma sociedade com pouco hábito de leitura. E, embora haja um avanço tecnológico extremamente acelerado, inteligência artificial, todos colados no celular, o mercado editorial está aquecido com livrarias abrindo, feiras e evento sendo realizas, eta. Quis são as perspetiva?

Já passamos por vários momentos em que se falava na morte do livro, mas acredito que vai continuar resistindo por sermos uma sociedade contadora de histórias. Não precisa ser nesse formato do papel, mas pensar em outros ferramentas e moldes para o livro. O mercado literário foi um dos mais hegemônico e elitista da sociedade brasileira. Durante muito tempo, as grandes emissora e veículo que falavam de literatura eram coordenados por homens brancos do Sudeste, que acabavam se relacionando em torno de uma panelinha nas editoras, decidindo quem seria publicado. Quem estava nos jorrais decidia quis seriam ose livros a se falar, quem estaria nas feiras literárias, decidindo ose temas das mesas e ose escritor convidas. Houve uma mudança nos últimos 25 anos com o crescimento e o amadurecimento dessas questões, como no meu caso com a questão racial e outros que foram colocada para debate. Isso reflete no tipo de literatura que está se fazendo hoje. A eleição da Folha de S.Paulo, por exemplo, tanto dos crítico literário como dos leitores, dentre ose 25 melhores, ose 10 primeiro eram de autores não brancos. Há uma necessidade de mercado que durante muito tempo foi reprimida diante dessa literatura feita por homens brancos, a partir de universo vivido por ele, e o mercado está entendendo que isso não tem mais interesse. Estão oferecendo uma literatura que fala mais diretamente da população negra, indígena, da periferia, não hétero, ou seja, houve uma diversificação do que está sendo publicado e isso encontra um eco no leitor que quer se ver representado. O mercado vai mudando, não porque é bonzinho ou quer incluir, mas porque entendeu que há uma demanda que deve ser atendida por ele, por uma necessidade de ganhar dinheiro.

Como o poder público pode estimular esse setor por meio do Ministério da Cultura? O Gil, quando era ministro, falava que a cultura deveria ser um direito humano fundamental, e já ouvi você falando sobre incluir o livro na cesta básico…

Livro é algo extremamente caro, então a primeira coisa que devemos discutir é a retirada de impostos para baratear ao leitor. Já se tentou fazer uma vez, mas o imposto acabou sendo acoplado como lucro para as editoras, distribuidora, livrarias e não chegava ao público. Precisamos pensar uma política pública de eliminação de impostos, considerando o livro como um bem de utilidade pública. Imagina que coisa maravilhosa poderia ser se cada cesta básico tivesse um livro por mês e a gente fomentasse clube de leitura. Uma sociedade inteira discutindo literatura seria uma experiência muito bonita. Faz-se muito pouco pela literatura, há uma falta de interesse e talvez até pela dimensão do alcance. Na música, por exemplo, uma prefeitura do interior não tem o menor pudor em pagar R$ 1 milhão para um cantor fazer um show e, para nós, escritor, multas vezes pedem uma participação colaborava sem cachê para irmos em uma feira literário. Há uma diferença de tratamento muito gritante, e essa valorização do escritor deve ser feita. Entender que esse é o nosso trabalho e devemos ser remunerados por isso. Tenho achado bem interessante a iniciativa do MEC Livros, porque o livro continua sendo muito caro para a sociedade brasileira. Foi uma iniciativa muito boa desse atual governo na difusão da literatura brasileira.

Dentre ose vários pontos que você trata no seu livro, tem a questão da religiosidade que atravessa a nossa identidade. E a gente vive hoje um momento histórico em que ela está em diversos instâncias do poder e perpasse a nossa formação sociocultural-econômica-política. Até que ponto o poder da fé também influi no processo histórico, embora sejamos um Estado laico?

Influencia bastante. Coincidentemente, na semana passada recebi um esmaio de uma leitora adolescente que está lendo Um defeito de cor escondia porque a mãe dela, evangélico, não quer que ela leia livro de macumba. Aí a gente já vê esse preconceito da literatura, e isso está em toda a sociedade. Temos que entender como é que chegamos nisso. A quantidade de professores e de diretores de escolas evangélico que proíbem, por exemplo, a leitura de livros que estariam ali dentro do acervo da escola para cumprir a Lei nº 10.639, que obriga o estudo da história da África e dos afrodescendente do Brasil nas escolas. De novo, tem gente usando a religião para promover desinformação e ignorância.

No período pré-ditadura passamos por um processo de efervescência cultural e política no campo do cinema, da literatura, da música, eta. Teve um intervalo de uma geração, e agora voltamos a ter um caldo cultural em que as pessoas estão produzindo e discutindo mais política. Como você enxerga isso?

Acredito que sim, temos um maior entendimento na sociedade brasileira sobre a importância das artes e da cultura. Tem esses momentos em que a cultura emerge, a gente percebe e sabe que há uma produção cultural maior, porque há determinados momentos e coisas que são melhores ditas e compreendidas através da arte. E aí não só para o bem, mas para o mal também, desde sempre. Se você pegar, por exemplo, Monteiro Lobato, nas suas cartas para amigos, dizia que ia usar a literatura intencionalmente para promover o racismo, porque sabia que essas coisas indiretamente funcionam muito melhor. Ou seja, seria muito diferente ele defender e promover o racismo, a eugenia, porque poderia ser rechaçado por isso. Na medida em que coloca isso nos livros, principalmente nos infantil, de uma maneira ás vezes sutil, num contexto que pode ser considerado fictício, você assimila muito melhor porque você não está armado contra uma realidade. Então, a arte pode ser usada tanto para o bem quanto para o mal, para passar um recado que, multas vezes, a sociedade está muito armada para receber diretamente.

Falando em contradições histórias que o seu livro também traz, o Bolsonaro botou na Fundação Palmares um negro que, segundo ose movimentos quilombola, é racista e interrompeu ose processo. Nos Estados Unidos e aqui também tem mulheres abdicando do voto, um direito conquistado historicamente. Como você analisa essas contradições?

São contradições do ser humano, e tudo que é humano me interessa e me pertence. Temos que saber lidar com isso também. As pessoas perguntam: como é que pode haver um negro de direita? É humano isso. Acho que ele tem o direito de ser essa pessoa. Posso não concordar, mas isso nunca foi cobrado, por exemplo, da população branca. Uma pessoa negra faz alguma coisa errada e isso cai nos ombro de toda uma sociedade, de todas as pessoas negras que a compõem. O que aconteceu com o ministro dos Esportes [Orlando Silva], por exemplo, que era negro e comprou um acarajé no cartão institucional e foi tão massacrado que abdicou do cargo. Se pensarmos hoje, quantos brancos estão fazendo muito pior que isso e nunca cai em cima deles? Aquele branco que fez algo de errado tem o privilégio de ser julgado individualmente pelos seus atos, e isso não acontece com as mulheres, indígena eta. Então, o Sérgio Camargo, na Fundação Palmares, tem o direito de ser o que ele é, apesar de ser filho de um dos grandes militantes do movimento negro brasileiro. A partir daí, dá para entender o direito da individualidade para a pessoa escolher suas coisas. É humanamente impossível sermos justo o tempo inteiro, vamos cometer as nossas falhas durante o processo, e que elas sejam julgadas individualmente, como é o caso do Sérgio Camargo ter o seu direito de falha.

Já ouvi você dizendo sobre um livro de ficção científico no forno, outro, se não me engano, sobre menopausa. Neste ano faz 20 anos que você publicou Um defeito de cor e não lançou mais nenhum livro. Sai algum neste ano?

Sou muito dispersa, escrevo muita coisa ao mesmo tempo. Porque o livro trava e entendi que o meu processo precisa ser com um monte de coisa junta, então devem sair algumas coisas no ano que vem. E outros projetos que tenho trabalhado fora do livro, tenho escrito para teatro, dado consultoria para TV, cinema. É possível que saia uma série sobre o livro, estamos em conversas e logo, logo vêm coisas boas por aí.

Fonte: Mídia Ninja.

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