Por Hyader Epaminondas
O Bixiga de “Saudosa Maloca” é uma cidade inteira que desapareceu enquanto ainda permanece sendo lembrada com carinho e, ao recuperar o bairro a partir do universo de Adoniran Barbosa, o filme de Pedro Serrano transforma a especulação imobiliária e a lógica do chamado progresso em uma história sobre expulsão, mostrando como a valorização de determinados territórios pelo capital pode significar justamente a perda desses lugares para aqueles que ajudaram a construí-los, já que a transformação urbana desloca moradores, rompe formas de convivência e modifica a memória de quem viveu naquele espaço.
Esse processo de deslocamento também está ligado à própria formação de São Paulo como uma cidade construída por diferentes fluxos migratórios. A própria imigração italiana e, posteriormente, a japonesa foram estimuladas pelo processo de substituição da mão de obra escravizada nas fazendas de café, dentro de um projeto de reorganização do trabalho que também esteve associado aos ideais de “branqueamento” da população brasileira. Se os italianos ajudaram a transformar bairros como o Bixiga, os japoneses chegaram algumas décadas depois para construir suas próprias comunidades e formas de pertencimento em um país que, para eles, ainda era completamente desconhecido.
É justamente a partir desse terceiro grande fluxo migratório que “Fujie e Mikito”, publicado pela Editora Mino, encontra seu ponto de partida em uma obra de apenas 80 páginas, discutindo dentro da própria narrativa o que acontece com uma pessoa, uma família e uma cultura quando são obrigadas a deixar para trás tudo o que conhecem e atravessar um continente rumo a um lugar onde tudo é desconhecido.
Entre dois mundos: a transformação contínua da experiência imigrante em “Fujie e Mikito”
O espaço se moderniza, mas a pergunta que permanece é: para quem essa modernização é construída? É nesse ponto que entra a relação com “Fujie e Mikito”, porque o quadrinho também parte de uma história de deslocamento, embora em outra escala. Se em “Saudosa Maloca” o capital força determinadas pessoas a deixarem o lugar que construíram, na trajetória dos Fukudas, vindos da geração pós-guerra, existe uma mudança provocada pela necessidade de reconstruir a própria vida devido aos perigos dos desastres naturais no Japão, enquanto tentavam trabalhar por conta própria com agricultura. Em ambos os casos, mudar de lugar significa muito mais do que trocar um endereço: significa entrar em contato com novas relações, perder referências, adaptar costumes e transformar, inevitavelmente, a própria identidade.
A imigração costuma ser lembrada a partir de uma perspectiva romantizada, mas existe também uma contradição nesse processo, porque transformar a imigração em uma narrativa de superação pode fazer com que a dimensão da ruptura desapareça. Deixar uma terra significa abandonar uma língua, costumes, relações e referências que não podem simplesmente ser transportados dentro de uma mala. O imigrante leva consigo uma parte do lugar de onde veio, mas precisa aprender a existir dentro de uma realidade que também começa a se transformar.
É nesse intervalo entre aquilo que se deixa para trás e aquilo que começa a ser construído que “Fujie e Mikito” começa a sua história, com o roteiro de Yuri Andrey, que se insere na própria narrativa como parte desse processo de mudança, expondo a dificuldade de encontrar a tonalidade adequada para uma história como essa e fazendo dessa busca um exercício de sublimação. Ao lado dele, Marcelo Costa desenvolve, através de seus traços, uma espécie de simplicidade tátil do passado para acompanhar a trajetória da família Fukuda através das gerações e acaba ultrapassando o registro da imigração japonesa e passa a observar o próprio processo de formação de uma identidade nipo-brasileira.
A família chega ao Brasil carregando uma cultura que precisa sobreviver em um território completamente diferente, mas essa sobrevivência não acontece pela preservação intacta de uma origem, ela acontece através da adaptação, do encontro e da convivência, colocando a comunidade como base para todo o restante. A escolha da agricultura como atividade central se torna fundamental para o contexto da história, justamente por representar uma prática que exige a adaptação ao território, o trabalho coletivo e a construção de uma relação de pertencimento com o lugar. O Japão permanece presente, mas passa a existir ao lado de costumes brasileiros, novas relações e experiências que não poderiam ter sido vividas no país de origem, e o que nasce desse processo não é exatamente uma cultura substituindo outra, mas uma terceira coisa, construída pouco a pouco entre dois mundos.
A própria estrutura da história reforça essa percepção porque o quadrinho entende que imigração não é um acontecimento encerrado no momento em que alguém desembarca em um novo país, mas sim uma mudança contínua acontecendo dentro da família, atravessando os filhos e os netos, modificando a relação com a língua, com os costumes e até com aquilo que significa pertencer a algum lugar.
Para quem chega, o Brasil é um território estrangeiro que precisa ser compreendido, para quem nasce aqui, o Japão pode se transformar em uma terra simbólica, porém imaginária, que existe principalmente através das histórias contadas pelos seus familiares. A memória passa então a ocupar um espaço curioso, ela preserva uma experiência que já não pode ser reproduzida exatamente como foi vivida, onde cada geração recebe uma história e, ao mesmo tempo, acrescenta alguma coisa a ela.
A trajetória dos Fukudas possui naturalmente elementos de uma narrativa de perseverança, mas o gancho está em compreender que perseverar também significa mudar. Existe uma diferença entre preservar uma identidade e tentar congelá-la no tempo. Algo que está presente muito forte na história é como uma cultura que permanece completamente imóvel acaba se afastando das próprias pessoas que deveria representar, enquanto uma cultura que aceita a transformação consegue continuar existindo justamente porque encontra novas formas de se expressar nessa zona intermediária, nesse lugar em que duas referências deixam de ser opostas e passam a formar uma identidade própria.
A linguagem dos quadrinhos e a transformação contínua da identidade
Essa ideia encontra uma tradução particularmente interessante na junção do texto de Yuri, que consegue preservar a memória e o senso de tradição na mesma proporção em que olha para a transformação e para aquilo que ainda está por vir, e do traço de Marcelo Costa, que traz consigo uma leveza em seus desenhos, uma liberdade nas linhas e uma espontaneidade nas expressões que criam uma relação curiosa com o peso histórico daquilo que está sendo contado. Uma história sobre imigração poderia facilmente assumir uma aparência excessivamente solene, carregada pela importância de registrar uma experiência coletiva, mas a dupla parece compreender que a memória também é feita de imperfeições, pequenos gestos e lembranças que sobrevivem mais pelo afeto do que pela precisão.
Seu traço mais solto aproxima os personagens do leitor e faz com que a trajetória dos Fukudas pareça menos um registro histórico e mais uma história que está sendo contada dentro de uma família, com as linhas parecendo não querer prender completamente os personagens dentro de contornos rígidos, como se a própria identidade deles estivesse sempre em transformação. A arte não transforma o sofrimento em espetáculo e tampouco tenta monumentalizar os personagens, preferindo encontrar beleza naquilo que existe de cotidiano em suas experiências.
Toda história familiar é, de alguma maneira, uma reconstrução. Existem acontecimentos que são lembrados com detalhes, outros que desaparecem e outros que acabam ganhando novos significados conforme são contados novamente. E talvez seja justamente por isso que a relação com São Paulo, mais precisamente com Biritiba Mirim, onde a história se passa, faça tanto sentido. Assim como o Bixiga pode continuar existindo na memória mesmo depois de suas transformações urbanas, a cidade se transforma à medida que seus habitantes mudam, mas também transforma aqueles que a habitam. É nesse movimento de mão dupla entre território e memória que a história fecha com chave de ouro seu argumento: mesmo quando os lugares mudam, aquilo que foi vivido neles pode continuar atravessando gerações.
“Fujie e Mikito” é uma história sobre deslocamento, mas também sobre aquilo que nasce depois dele. Yuri e Marcelo compreendem que partir não significa simplesmente deixar um lugar para trás e que chegar nunca significa simplesmente ocupar um novo espaço. Entre uma coisa e outra existe toda uma transformação, feita de perdas, adaptações, encontros e memórias que passam a ser compartilhadas.
A família Fukuda constrói sua história no Brasil justamente porque aceita, consciente ou inconscientemente, que sua identidade também será transformada por esse país e compreende que pertencer não significa escolher entre dois lugares, mas permitir que ambos continuem existindo.
Fonte: Mídia Ninja.
