Por Guilherme Espir
Há quem diga que o sucesso é uma conjunção de fatores. Principalmente na música, sucesso e fama são conceitos que comumente aparecem em contextos nos quais aparentam ser correlatos, apesar de ser possível construir uma carreira de sucesso sem necessariamente conquistar fama em larga escala.
O sucesso é o cumprimento de metas e objetivos. Fama é o reconhecimento atrelado à visibilidade pública. Apesar de parecer maluquice à primeira vista, uma das bandas mais longevas e criativas da história da música norte-americana possui vasto reconhecimento e influência dentro do meio profissional, porém está longe de ser famosa como seus contemporâneos do No Doubt, Faith No More e Red Hot Chili Peppers, por exemplo.
Falo sobre o Fishbone, um dos grupos com a sonoridade mais inclassificável da música norte-americana. Um grupo que surgiu como uma bomba na cena, conquistando crítica, público e um contrato com uma das maiores e mais tradicionais corporações do business musical (Columbia). E, mesmo assim, toda essa constelação de acontecimentos não se cristalizou em sucesso global.
Com shows marcados em Santiago, no Chile (na Claro Arena), no dia 29 de outubro; em Buenos Aires, na Argentina (na La Trastienda), no dia 30; e em São Paulo (no Fabrique Club), no dia 31, o grupo passará pela América Latina de forma supersônica. No entanto, trará seu linguajar musical único, que explora a música da diáspora com a mesma facilidade com que Macunaíma anda de um estado ao outro.
Aproveitando a passagem do sexteto pelo país no fim do mês, o SOM.VC conseguiu trocar uma ideia com o saxofonista Chris Dowd. Há 47 anos na estrada, a banda continua entregando lendárias apresentações ao vivo, que foram passadas de geração para geração, e, nesse bate-papo, dá para entender o porquê.
SOM.VC – Para começar, queria perguntar sobre a gravação mais recente que vocês fizeram em estúdio (“Stockholm Syndrome”). Tem o George Clinton (na faixa “Last Call In America”), tem vários músicos interessantes tocando nesse disco. É um trabalho que foi lançado após quase 20 anos sem um disco cheio. Queria ouvir o que você tem a dizer sobre isso.
Chris – Bom, acho que a primeira palavra que me vem à cabeça é alívio. Simples assim. Foi um privilégio ter o George no disco. Conheço ele desde que tinha uns 16 anos. Foi quando o conheci pela primeira vez. Eu estava no último ano do ensino médio. Um amigo nosso, que cresceu com os integrantes originais da banda, estava num ponto de ônibus em Los Angeles. Ele chegou dizendo: “Caramba, conheci o filho do George Clinton no ponto de ônibus”. Eles estavam em Los Angeles para fazer alguns shows que ficaram famosos porque foi a primeira vez que Dennis Chambers tocou com George Clinton.
SOM.VC – Ah, então ele devia ter uns 18 anos?
Chris – Sim, era muito jovem. Era no Beverly Theater. Ficamos todos empolgados porque conhecemos o filho dele, Tracey. E, desde então, somos amigos há mais de 40 anos. Ele nos convidou para ir aos shows, e foi assim que conheci George. Na verdade, eu já tinha visto ele tocar uns três ou quatro anos antes.
SOM.VC – Ao vivo nessa época deve ser fantástico.
Chris: Sim. Foi na arena esportiva de Long Beach. Eu costumo dizer que George Clinton não é afetado pelas coisas que afetam os seres humanos comuns. É preciso ter um nível de genialidade, tenacidade, consciência e força de vontade para chegar tão longe. Com certeza. Ele é muito prolífico, produz muita coisa. E continuar sendo tão produtivo… Conheci muitas pessoas que tocaram na banda dele, como o Amp Fiddler, que faleceu em 2023. Ele foi meu melhor amigo.
SOM.VC – Eu conheço. Grande músico.
Chris: Ele e Jeff Buckley provavelmente foram meus dois amigos mais próximos entre os músicos. Havia mais algumas pessoas, claro, mas esses eram os caras com quem eu tinha mais proximidade. Então, convivi com Amp, Eddie Hazel e Billy Bass Nelson.
SOM.VC – Eu estava assistindo ao documentário da banda e, em determinado momento, um integrante do Fishbone fala sobre o Bad Brains. Queria saber se, de alguma forma, ver aquela banda ou entrar em contato com a música deles provocou aquela virada, aquele momento em que vocês tiveram coragem de misturar as próprias influências, como fizeram.
Chris: Acho que, no caso do Fishbone, houve mais de um ou dois momentos decisivos. Se você fosse fazer uma lista dos dez artistas negros mais influentes para o Fishbone, teria que incluir George Clinton. Teria que incluir Sly and the Family Stone e toda aquela música funk dos anos 1970. É algo próprio, entende o que quero dizer? Rick James também.
Ontem eu estava provocando o Angelo (frontman da banda) porque estamos trabalhando num disco agora que vai suceder ao “Stockholm Syndrome”. Eu estava brincando com ele porque, quando éramos garotos e nos conhecemos, ele era tão fã de Rick James que todas as primeiras músicas que compôs, quando começou a virar compositor, soavam como Rick James. A gente dizia: “Cara, essa aí parece tal música” ou “Cara, isso aí é Super Freak”, ou alguma outra coisa. Era engraçado.
Mas, sim, eu diria que aquele disco do Bad Brains realmente abriu nossas cabeças. E não foi só com a gente. Na mesma época, toda a cena punk de Los Angeles estava surgindo, com Circle Jerks, Minutemen, Germs, Fear e várias outras bandas. Nós também estávamos sendo influenciados por aquela cena. Quando começamos, já estávamos tocando com aqueles caras. Era uma loucura tocar com pessoas que você tinha acabado de descobrir ouvindo um disco.
SOM.VC – No outro dia, está tocando com eles.
Chris: Exatamente. E, duas semanas depois, vocês são amigos. Você pensa: “Caramba, agora sou amigo do Keith Morris”. É muito louco. E você descobre que, além de ser extremamente talentoso como compositor, Morris praticamente deu origem a toda a cena punk de Los Angeles. As pessoas não percebem isso, mas ele foi o primeiro vocalista do Black Flag e depois formou o Circle Jerks. Ele ajudou a criar aquele som.
Claro que também seria um erro esquecer bandas como MC5 e outras. Isso está no DNA da música, assim como James Brown. É como dizer: sem James Brown, não existiria Prince.
Isso vale para o Circle Jerks. Sem Keith Morris, não sei como seria a história de outras bandas que vieram depois. Não importa se você está falando de Keith Morris, Henry Rollins, Dave Vanian, do Damned, ou de qualquer outro nome: todo mundo sabia que o Bad Brains era a melhor banda, ponto final. Os melhores, sem discussão.
Para mim, a única outra banda que dá para colocar nesse mesmo patamar de influência é o Clash. E digo isso porque eles foram uma banda que incorporou todas essas influências diferentes.
SOM.VC – Quando você fala isso, penso numa das muitas conquistas do Fishbone. Vocês conseguiram construir uma identidade tão distinta que ela acabou se tornando praticamente um gênero próprio. Não importa o que vocês estejam tocando: o groove e aquela sensação de liberdade são imediatamente reconhecíveis.
Chris: Obrigado. Acho que tivemos a sorte de receber o bastão do Bad Brains, dos Specials e do Prince. Sabe? Existem bandas que podem ter alcançado um sucesso financeiro enorme. Podem ter todo o dinheiro do mundo, mas, para ser sincero, as pessoas ricas não parecem muito felizes. E, voltando à política ou ao mundo em geral, não importa se você compara a situação atual — essa abominação política que está acontecendo agora — com o período dos Rockefeller.
Veja esses homens de negócios, como Elon Musk. Você não consegue ter tantas coisas, tantos filhos, tantas esposas e continuar sendo uma pessoa satisfeita.
Onde quer que o colonialismo tenha deixado sua marca, havia povos indígenas ou nativos daquela terra que perderam tudo. Isso virou a norma, virou a história oficial, mas não é a história real da humanidade. É uma versão, uma interpretação dela. Acho que muitas dessas pessoas que você poderia chamar de agentes da monetização das coisas acabaram assumindo o papel de árbitros da história. Elas passaram a contar a história do jeito que queriam, e não necessariamente da maneira como ela realmente aconteceu.
SOM.VC – E é interessante você mencionar a riqueza, porque o Fishbone é uma banda que, pelo menos em teoria, deveria ter alcançado um sucesso muito maior. Ao mesmo tempo, vocês continuam ativos há muito tempo, atravessaram diferentes períodos da indústria e a música segue relevante.
Chris: As pessoas que respeitam a autenticidade talvez não saibam explicar exatamente o que ela é. Mas existe alguma coisa, num nível celular, num nível da alma, que faz você reconhecer aquilo. Você vê algo e pensa: “Caramba, isso parece algo realmente original”.
SOM.VC – O som do Fishbone já era incrível desde o primeiro EP. Pesquisando sobre a história da banda, achei impressionante descobrir que vocês saíram do ensino médio já com um contrato com uma grande gravadora. A química já estava ali desde o início. Acho que fizeram um trabalho incrível, considerando que eram muito jovens.
Chris: Obrigado por perceber isso. Sabe, tem uma coisa curiosa nessa história. Nós éramos muito jovens, certo? E, mesmo assim, já tínhamos uma postura cautelosa.
Éramos garotos que cresceram em Los Angeles. Você ouve todas aquelas histórias terríveis, conhece outros artistas e escuta o que aconteceu com eles quando assinaram contratos com gravadoras, quando fizeram um ou dois álbuns e passaram por todo tipo de situação.
Você absorve essas experiências e depois se cerca de pessoas do mundo dos negócios, pessoas que têm suas próprias opiniões sobre como as coisas devem funcionar. Essas pessoas podem ser boas ou ruins, em diferentes graus. Mas, no fim das contas, você precisa olhar para a realidade da indústria musical americana.
Fonte: Mídia Ninja.
