Fernando Coimbra revisita tragédia do Césio-137 em ‘Emergência Radioativa’

Portal Inhaí
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Por Juliana Gomes

Em um país onde a memória frequentemente se dilui entre silêncios e esquecimentos, revisitar certas histórias é também um gesto de enfrentamento.

É nesse contexto que se insere “Emergência Radioativa”, minissérie da Netflix dirigida por Fernando Coimbra. Com cinco episódios, a produção revisita o acidente com o Césio-137, ocorrido em Goiânia, em 1987, considerado um dos maiores desastres radiológicos do mundo, e reconstrói não apenas os acontecimentos, mas suas reverberações humanas, sociais e políticas.

Conhecido por obras como “O Lobo Atrás da Porta” e “Os Enforcados”, além de produções como “Castelo de Areia” e o documentário “Aqui Deste Lugar”, Coimbra retorna a um tema que o atravessa desde a infância.

Ele tinha 11 anos quando o acidente aconteceu, em um período marcado pelo medo nuclear global após o Desastre de Chernobyl. “Era um momento de muita paranoia. Quando veio o acidente do Césio, foi muito assustador”, relembra. Anos depois, já no audiovisual, o diretor percebeu que ainda havia camadas pouco exploradas nessa história. Para ele, o formato de minissérie foi essencial para dar conta dessa complexidade. “Em duas horas não daria. Essa é uma história que precisa de tempo, de camadas.”

Mas há um eixo que sustenta toda a narrativa: a memória e o apagamento dela.

Segundo Coimbra, o Brasil carrega uma dificuldade histórica em lidar com seus próprios traumas. “A gente prefere não falar. Mas os problemas continuam aí”, afirma. Nesse sentido, a série não se limita ao passado, mas propõe uma leitura direta do presente.

Ao adaptar um evento real, a produção opta por condensar experiências em personagens que representam vivências coletivas. É o caso de Catarina, mãe da menina que se torna símbolo da tragédia, cuja trajetória reúne episódios vividos por diversas vítimas, como o preconceito e a dificuldade de reconstruir a vida. “Ela representa coisas que aconteceram com centenas de pessoas”, explica.

A personagem Celeste, por sua vez, é inspirada em Leide das Neves Ferreira, de seis anos, uma das vítimas mais marcantes do acidente. “Ela virou um símbolo dessa história. O próprio centro de atendimento leva o nome dela”, destaca.

O cuidado com essa representação também se refletiu nos limites éticos da narrativa. Coimbra afirma que algumas situações foram deixadas de fora para evitar leituras distorcidas. A escolha foi pela humanização, e não pela exploração da dor.

Esse compromisso atravessou também o trabalho com o elenco. O processo, segundo ele, foi coletivo, com preparação intensa, pesquisa e troca com pessoas que viveram o episódio. Ao mesmo tempo, houve espaço para o improviso, especialmente nas cenas mais emocionais. “Era sentir e reagir”, resume.

Ao longo da série, o acidente deixa de ser apenas um evento isolado e passa a revelar estruturas mais amplas do país, como desigualdade social, falhas institucionais e dificuldades de comunicação. “Você resgata uma memória para falar diretamente com o presente”, afirma.

Com trajetória que transita entre cinema e televisão, Coimbra não vê diferenças essenciais entre os formatos em termos de linguagem. Para ele, o olhar continua sendo cinematográfico, o que muda é o processo. Ao falar com novos realizadores, o conselho é direto: persistência. “É muito mais não do que sim. Mas não pode desistir.”

Mais do que provocar emoção, o diretor espera que a série gere reflexão. Que o público reconheça ali não apenas um episódio do passado, mas um retrato do Brasil.

Ao final, Coimbra também destacou a importância de iniciativas independentes como a Cine Ninja e a Mídia Ninja, ressaltando o papel desses coletivos na construção de narrativas e na criação de espaços de troca. “Acho fundamental o trabalho que vocês fazem e essa série dialoga muito com o público de vocês”, finaliza.

“Emergência Radioativa” já está disponível na Netflix.



Por Midia Ninja

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