Por Vinicius Francisco
Eleitores enfrentaram longas esperas nos pontos de ônibus e dificuldades para chegar às urnas neste domingo (25), durante o segundo turno das eleições presidenciais. Houve denúncias em São Paulo, Bahia, Paraíba, Sergipe e outros estados, apesar da obrigação de manter o transporte público gratuito e com frequência equivalente à dos dias úteis.
Em Salvador, uma fiscalização do Procon encontrou 544 ônibus parados em garagens, e a Justiça Eleitoral expediu uma ordem de prisão contra o secretário municipal de Mobilidade. Em São Paulo, a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) denunciou que apenas 60% da frota prevista estava circulando. As ocorrências levaram partidos a acionar a Justiça e pedir a ampliação da votação até as 19h para que eleitores prejudicados pela falta de transporte tivessem mais tempo para votar.
Salvador
Um motorista de ônibus denunciou ao ICL Notícias que trabalhadores receberam ordens para manter veículos parados nas garagens durante a votação. Segundo o rodoviário, que preferiu não se identificar, ônibus com adesivos do número 13, associado ao PT, foram impedidos de circular, e os funcionários não tinham autorização para retirar o material.
“Mais de 100 ônibus foram impedidos de circular”, afirmou o trabalhador, que atribuiu a orientação à Prefeitura de Salvador, comandada por Bruno Reis (União Brasil), aliado de Flávio Bolsonaro (PL). A retenção teria atingido garagens dos sistemas Integra e BRT. Ao comentar como se sentiu diante da situação, o motorista respondeu: “Oprimido! É a volta da ditadura, será?”.
As denúncias levaram o Procon da Bahia a fiscalizar cinco garagens de empresas de transporte público em Salvador. Ao longo da operação, realizada neste domingo (25), os fiscais encontraram 544 ônibus parados. Em uma das garagens da OT Trans, 55 veículos estavam em condições de circular, segundo o órgão.
Após uma ação da Federação Brasil da Esperança (PT, PCdoB e PV), o presidente do Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA), desembargador Maurício Kertzman Szporer, determinou o restabelecimento imediato da frota completa, sob multa de R$1 milhão por hora de descumprimento.O tribunal também expediu ordem de prisão em flagrante contra o secretário municipal de Mobilidade, Pablo Souza, que estava em Paris, na França, em viagem oficial.
Bruno Reis reconheceu que 75 ônibus ficaram retidos em uma garagem, mas atribuiu os atrasos à presença de propaganda eleitoral nos veículos. A prefeitura negou ter agido de má-fé e afirmou que o transporte foi normalizado após a liberação dos coletivos.
São Paulo
Na capital paulista, passageiros denunciam demora e falta de ônibus em diferentes regiões. No Jardim Santa Cruz, zona oeste, usuários das linhas 7006-10 e 7006-51 chegaram a esperar mais de duas horas. A campanha de Lula acionou a Justiça Eleitoral alegando que apenas 60% dos ônibus previstos estavam em circulação, apesar de uma decisão judicial que determinava a operação integral da frota dos dias úteis.
A ordem, assinada pelo juiz Tiago Ducatti Machado, prevê multa de R$100 mil ao prefeito Ricardo Nunes (MDB) e ao presidente da SPTrans em caso de descumprimento. Nunes negou a redução e afirmou que havia mais ônibus disponíveis do que a demanda de passageiros. A SPTrans disse ter recebido a determinação na tarde de sábado (24) e alegou dificuldades para reorganizar as escalas dos funcionários.
A campanha petista e parlamentares do PSOL pediram providências judiciais contra autoridades municipais responsáveis pelo transporte.
João Pessoa
Moradores de diferentes bairros da capital paraibana relataram atrasos e ônibus que passaram pelos pontos sem parar para embarcar passageiros. Vídeos gravados no Bairro das Indústrias mostram veículos seguindo viagem enquanto eleitores aguardavam. Houve reclamações semelhantes nos bairros do Grotão, Funcionários e Colinas do Sul.
A Ouvidoria do Ministério Público da Paraíba (MPPB) recebeu cerca de 30 denúncias até a tarde deste domingo, envolvendo o transporte da capital e de outros municípios. A Prefeitura de João Pessoa informou que determinou a apuração dos casos e que as empresas haviam sido orientadas a garantir o serviço gratuito. “Eventuais abusos, se confirmados, serão punidos com rigor”, declarou.
Sergipe
Em Sergipe, eleitores enfrentaram filas e atrasos para viajar de Aracaju a municípios do interior. Após as reclamações, o Tribunal Regional Eleitoral determinou que a Cooperativa de Transporte Alternativo de Passageiros de Sergipe (Coopertalse) restabelecesse o serviço em até uma hora, com frequência equivalente à dos dias úteis e atendimento até as 20h.
Alagoas
Em Alagoas, o Ministério Público Eleitoral fiscalizou a Rodoviária de Maceió após receber denúncias de falta de veículos para cidades do interior, especialmente São Miguel dos Campos, Teotônio Vilela e Penedo. A Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de Alagoas (Arsal) informou que a procura acima do esperado provocou dificuldades e exigiu o remanejamento de veículos entre as linhas.
Durante a fiscalização, passageiros também relataram cobrança de passagens em ônibus que deveriam operar gratuitamente. O Ministério Público orientou os eleitores a registrar as informações dos veículos para formalizar as denúncias.
Outras cidades
No Rio de Janeiro, moradores de Petrópolis e São Gonçalo também denunciaram dificuldades para chegar aos locais de votação. A campanha de Lula encaminhou ainda relatos de problemas em Teresina, no Piauí, na região do Marajó, no Pará, e no transporte de eleitores indígenas em Roraima. A extensão dessas ocorrências ainda depende de esclarecimentos das autoridades locais.
Lula cobra prorrogação da votação
Ao comentar os episódios, Lula criticou prefeitos e empresários que, segundo ele, estariam dificultando o acesso da população às urnas. “Não vamos permitir que haja roubalheira, que haja banditismo, que haja empresário mau caráter e prefeito bandido”, declarou. O presidente também citou a ordem de prisão contra Pablo Souza, secretário de Mobilidade de Salvador. “Ele não vai ser preso porque está em Paris”, afirmou.
Lula lembrou as operações da Polícia Rodoviária Federal (PRF) durante o segundo turno de 2022, quando abordagens em estradas, sobretudo no Nordeste, dificultaram o deslocamento de eleitores. “Não desistam de votar. Esperem e votem, porque a democracia tem que sair vencedora”, pediu.
A campanha petista solicitou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a ampliação do horário de votação nos municípios afetados. O presidente da Corte, ministro Kassio Nunes Marques, reconheceu dificuldades no transporte e pediu informações aos tribunais regionais para analisar os pedidos.
Diante das denúncias, o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a prorrogação da votação até as 19h em todo o país. A decisão, tomada pouco antes do horário original de encerramento, às 17h, ficou sob responsabilidade do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para cumprimento.
Apesar da determinação, surgiram relatos de seções que já haviam encerrado a votação sem receber a orientação a tempo. Ainda não há confirmação oficial sobre quantas foram afetadas ou quantos eleitores deixaram de votar. O transporte coletivo gratuito nos dias de eleição é garantido por decisão do STF, regulamentada pelo TSE.
Fonte: Mídia Ninja.
