(FOLHAPRESS) – Na avaliação de três ex-presidentes do PT, a vitória do presidente Lula no segundo turno da eleição deste ano foi muito maior do que a do partido e até mesmo a de seus aliados na disputa eleitoral. O petista teve apoio da Rede, PSOL, PSB, PV e PDT, além de grupos locais de partidos como o PSD e o MDB.
Por isso, os ex-dirigentes apontam a necessidade de que o PT amplie o diálogo, principalmente com os eleitores que lotaram as ruas durante o mês de outubro. Outros líderes de esquerda que participaram das manifestações destacaram, em discursos, a importância de manter a mobilização popular mesmo após a vitória, inclusive como resposta à força da direita e da extrema direita nos governos estaduais, na Câmara dos Deputados, no Senado e nas Assembleias Legislativas.
Para os antigos dirigentes partidários, a situação exige dos petistas novas respostas para se comunicar com um eleitorado que decidiu votar em Lula não por apoiá-lo, mas por temer a ascensão de uma extrema direita de tendência autocrática, que, na avaliação deles, estaria representada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL), que conseguiu a maioria dos votos no primeiro turno.
Ministro da Educação, das Relações Institucionais e da Justiça nos dois primeiros governos Lula e ex-governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro atribui a vitória do presidente à participação de grupos que estavam à margem da opinião pública, como os idosos e os movimentos estudantis, que deram um impulso final para a virada após a derrota no primeiro turno.
Ele acredita que esses grupos não são obrigatoriamente de esquerda, mas sentiram a necessidade de apoiar Lula diante do que consideravam uma ameaça real.
Genro destaca que o resultado obriga o partido a repensar a comunicação para além dos órgãos oficiais e a buscar uma comunicação horizontal.
“O deputado André Janones jamais conseguiria gerir o ‘Exército do Lula’ de dentro da campanha eleitoral ou do PT”, afirma.
Ele acredita que a comunicação atual precisa ser feita de maneira menos hierárquica, sem o controle do partido.
No Congresso Nacional, Genro afirma que o desafio será isolar a extrema direita, de tendência antidemocrática, e estabelecer um diálogo com a direita democrática.
“Será necessário fazer uma grande frente democrática, com um governo moderado, como sempre foram as gestões do Lula.”
Para o futuro do PT, ele acredita que será importante conseguir atender às demandas dos novos grupos que ganham peso na economia, como os trabalhadores inseridos nas novas formas de trabalho autônomo.
“A mudança já está em curso, só não está orientada”, diz.
Para Genro, a transformação passa por estudantes, mulheres e grupos tradicionalmente segregados. Ele também acredita que o partido tende a ter, após o término do governo Lula, lideranças mais variadas e menos regionalizadas.
“A discussão não é se a nova forma é mais de esquerda ou de direita, é se atende às novas demandas da sociedade”, diz.
Ele aponta como caminhos a possibilidade de permitir maior acesso de todos os cidadãos aos atos do governo e a expansão das ferramentas de participação popular.
Aos 79 anos, Genro considera que a geração à qual pertence já cumpriu sua tarefa.
Genoino defende diálogo direto com a população
Deputado federal por sete mandatos e ex-presidente do PT, José Genoino acredita que o quarto governo de Lula deve atuar em duas frentes: no isolamento da extrema direita e no contato direto com a população.
“Precisamos manter uma comunicação direta com a sociedade, que foi protagonista na vitória no segundo turno”, afirma.
Para ele, o governo precisa ir além da questão administrativa e apresentar metas para o debate com a população.
“O presidente precisa viajar pelo Brasil, dar entrevistas, participar de plenárias e ter uma interlocução direta”, acredita.
Genoino cita como exemplo a presidente do México, Claudia Sheinbaum.
O ex-dirigente petista, preso durante o mensalão, defende o diálogo horizontal.
“Eu virei um militante de base, das ruas. Estou disputando ideias e não cargos ou posição política”, afirma.
Aos 80 anos, ele diz que o partido precisa se oxigenar com novas ideias e novos dirigentes.
“Não adianta fazer novos congressos com os mesmos delegados, precisamos dar espaço para a nova militância. Quero ser um assessor sem salário dos novos movimentos”, diz.
Olívio Dutra destaca importância da democracia
Também ex-governador do Rio Grande do Sul e ex-presidente do PT, Olívio Dutra diz que a ameaça de enfraquecimento da democracia e de fragilização da soberania nacional foi fundamental para a vitória de Lula.
“Ele não é perfeito, mas felizmente representa para o país uma influência muito mais para o bem do que para o mal”, afirma.
Dutra avalia que a pluralidade dos grupos de apoio a Lula fortalece a democracia, o espírito republicano e a convivência civilizada.
“Aprimorar o nosso sistema é criar mais condições para que o povo seja sujeito da política e não só quem tem mandato”, diz.
Ele acredita no poder de interlocução e diálogo de Lula para construir um governo que consiga conversar com diferentes correntes do campo democrático no Congresso.
“Eu sou um jovem de 85 anos, que está aprendendo e ensinando na política com jovens que são mais novos do que eu”, afirma.
Genro, Genoino e Dutra têm em comum, além de terem ocupado a presidência do PT em diferentes momentos, a decisão de não disputar a eleição deste ano. Os três, no entanto, atuaram na campanha como militantes.
Além deles, o senador gaúcho Paulo Paim, 76, também não disputou a eleição deste ano e se aposentou após 40 anos de mandatos consecutivos em Brasília. Assim como os três ex-presidentes do PT, Paim afirmou que pretende continuar sua militância na base partidária.
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Folhapress | 07:00 – 29/10/2026
Fonte: Noticias Minuto.
