O senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) teria participado de uma festa em uma lancha no Lago Paranoá, em Brasília, ao lado de lobistas e garotas de programa, em julho de 2020, durante a pandemia de Covid-19. A informação foi revelada pela revista piauí.
Segundo a investigação, o encontro foi organizado pelos empresários Danilo Berndt Trento e Francisco Maximiano, diretor institucional e proprietário da Precisa Medicamentos, respectivamente. Os dois afirmavam representar o laboratório indiano Bharat Biotech, responsável pelo desenvolvimento da vacina Covaxin, e buscavam fechar negócios com o governo do então presidente Jair Bolsonaro.
A reportagem aponta que a festa foi planejada para agradar ao filho mais velho do ex-presidente e facilitar a aproximação dos empresários com integrantes do governo federal.
Empresários levaram prostitutas de São Paulo para Brasília
De acordo com a piauí, os empresários contrataram o agente de viagens Raphael Barão, proprietário da Barão Turismo, para organizar um churrasco a bordo de uma lancha no Lago Paranoá.
Na noite de 16 de julho de 2020, um jatinho executivo Embraer Phenom 300 decolou do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, às 20h49, com destino a Brasília.
A bordo estavam Danilo Trento, Francisco Maximiano, Raphael Barão e três garotas de programa, duas loiras e uma morena. A aeronave pousou na capital federal às 22h12, e o grupo seguiu para o hotel Meliá Brasil 21.
O passeio de lancha ocorreu no dia seguinte, 17 de julho, e teria contado com a presença de Flávio Bolsonaro e Alexandre Santini, então amigo e sócio do senador em uma loja de chocolates.
Segundo a investigação, a festa começou por volta das 10h30 e terminou às 15h. Durante o encontro, Flávio teria descido à cabine da embarcação acompanhado de uma das mulheres.
A revista também relata que Danilo Trento teria presenteado o senador com um relógio Rolex ao final do passeio.
Ex-assessor relata festas semelhantes com Flávio Bolsonaro
A piauí ouviu um ex-assessor parlamentar que afirmou ter frequentado festas em lanchas com garotas de programa, incluindo duas ocasiões em que Flávio Bolsonaro estaria presente.
“Em geral, os barcos ficam parados ao final da barragem, quando não há outros barcos nem sequer fiscalização”, relatou o ex-assessor à revista.
Segundo a publicação, esses encontros costumavam reunir políticos, integrantes do Judiciário e outros convidados. As mulheres passariam por revistas antes de embarcar, enquanto o uso de celulares seria proibido para evitar registros e vazamentos.
Uma participante de eventos semelhantes, que pediu anonimato por temer pela própria segurança, afirmou que havia “uma média de duas a três mulheres por convidado”.
Os depoimentos descrevem a dinâmica de festas semelhantes e não significam que todas essas circunstâncias tenham sido verificadas especificamente no encontro de julho de 2020.
Festa ocorreu em meio ao avanço das mortes por Covid-19
O encontro aconteceu em um dos períodos mais críticos da pandemia no Brasil, quando o país ainda não dispunha de vacinas contra a Covid-19.
Na noite de 16 de julho de 2020, véspera da festa, o consórcio de veículos de imprensa responsável pelo levantamento de vítimas da doença registrou 1.299 mortes em apenas 24 horas.
Naquele momento, o Brasil acumulava 76.822 mortes provocadas pelo coronavírus.
Enquanto autoridades estaduais e municipais adotavam medidas para reduzir a circulação de pessoas, os empresários buscavam oportunidades comerciais relacionadas ao desenvolvimento e à produção de vacinas.
Flávio teria facilitado encontro de empresário com presidente do BNDES
A investigação também aponta que, cerca de três meses depois da festa, Flávio Bolsonaro teria facilitado um encontro entre Francisco Maximiano e Gustavo Montezano, então presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
A reunião teria como objetivo discutir possibilidades de financiamento para um empreendimento de Maximiano no setor de telecomunicações.
Na época em que a aproximação foi noticiada, Flávio Bolsonaro afirmou que não mantinha relações comerciais ou financeiras com o empresário.
Precisa Medicamentos foi investigada na CPI da Covid
A Precisa Medicamentos atuou como intermediária nas negociações para o fornecimento de 20 milhões de doses da vacina indiana Covaxin ao Ministério da Saúde.
O contrato, assinado em fevereiro de 2021, previa o pagamento de aproximadamente R$ 1,6 bilhão. A negociação acabou sendo cancelada após suspeitas de irregularidades e se tornou um dos principais assuntos investigados pela CPI da Covid.
Danilo Trento, Francisco Maximiano e Raphael Barão também foram investigados pela comissão sob suspeita de lavagem de dinheiro, acusações que negaram.
Durante os trabalhos da CPI, Flávio Bolsonaro chegou a defender publicamente a atuação da Precisa Medicamentos e elogiou Emanuela Medrades, representante da empresa.
“Cabe aqui um parabéns também público”, afirmou o senador durante uma sessão da comissão, ao comentar os esforços da empresa para negociar a vacina indiana.
Revista cruzou documentos e ouviu testemunhas
Para reconstruir os acontecimentos de 17 de julho de 2020, a revista piauí ouviu uma pessoa que afirmou ter estado na embarcação, sob condição de anonimato.
A investigação também utilizou documentos provenientes de quebras de sigilo encaminhados às CPIs da Pandemia, do INSS e do Crime Organizado.
Os jornalistas entrevistaram ainda dois pilotos, um ex-deputado, três assessores parlamentares e uma garota de programa que participou de encontros semelhantes, mas não da festa investigada.
A reportagem foi assinada pelos jornalistas João Batista Jr., Ana Clara Costa e Breno Pires.
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