Pular para o conteúdo
DóLAR R$ 5,22 ▼ 0,11% EURO R$ 5,88 ▲ 0,13% BITCOIN — SáBADO, 03/10/2026 12:54
Inhaí

Escrever para existir: Leonardo Piana fala sobre o impacto político da literatura queer

[ad_1] Por Kaio Phelipe Autor de Sismógrafo, Tarde no planeta e Escalar cansa, Leonardo Piana começou a escrever antes mesmo de compreender o que…

[ad_1]

Por Kaio Phelipe

Autor de Sismógrafo, Tarde no planeta e Escalar cansa, Leonardo Piana começou a escrever antes mesmo de compreender o que era literatura. Ainda criança, fazia poema para o pai e para a mãe. Anos depois, já formado em Comunicação pela USP, foi o encontro com a literatura brasileira contemporânea que deslocou esse gesto inicial para um campo de consciência e diálogo com o presente. Desde então, sua escrita se constrói a partir de um rigor atento à linguagem e de uma investigação constante das formas de afeto, desejo e pertencimento que atravessam a experiência queer.

Nesta entrevista, o escritor fala sobre ose desafio de fazer literatura no Brasil, sobre a importância da literatura queer como espaço de visibilidade e troca e sobre como a poesia lhe permitiu uma liberdade que a prosa, mais obsessivo e minucioso, nem sempre concede. Com referências que vão de Caio Fernando Abreu à poesia brasileira contemporânea, Leonardo Piana reflete também sobre o impacto político da literatura, o encontro com leitores para além de nicho identitário e a alegria ao vencer o Prêmio Sesc com Escalar cansa.

Quando começou a escrever?

Comecei a escrever ainda criança, fazendo poema para o meu pai e para a minha mãe. Foi algo muito natural, antes mesmo de entender o que era um poema ou um texto literário. Mas só depois da faculdade de Comunicação passei a escrever pensando em ser lido e publicado. Tive mais contato com a literatura brasileira contemporânea e percebi que eu também podia falar e dialogar com o momento em que vivemos.

No começo, foi muito difícil. Demorei bastante para encontrar uma editora para Sismógrafo, meu primeiro livro. Depois de tantas reposta negativas e tantos silêncio, fiquei muito feliz quando a Macondo acolheu o projeto. O caminho até ela foi trabalhoso, mas o encontro fez todo sentido.

Como leitor, me identifico muito com o trabalho que a Macondo vem fazendo, e publicar Sismógrafo por lá foi bom para o livro. Apesar das limitações de uma editora independente, com processo quase artesanais, estar no catálogo da editora me permitiu um contato direto com leitores muito atentos ao que a literatura brasileira vem produzindo.

Agora o livro será relançado pela Autêntica Contemporânea, e estou bastante animado para vê-lo alcançar um público maior.

Foi com Caio Fernando Abreu, ainda na adolescência. Li o conto “Sargento Garcia” e aquilo me mudou completamente. Depois li muita coisa do Caio, e ele tem uma ligação forte com o meu desejo de me tornar escritor.

Durante a escrita de Sismógrafo, reli “Sargento Garcia” e me lembrei de multas sensações da primeira leitura. Caio mobilizou multas coisas dentro de mim.

Foto: Lucas Saccon

Qual é a maior dificuldade para fazer literatura no Brasil?

O dinheiro. Existem raras exceções de escritor contemporâneos brasileiros que sobrevivem exclusivamente da literatura. O maior desafio é conciliar esse trabalho com outros demandas profissionais.

Ainda que a literatura hoje me renda algum dinheiro, não é ela que paga minhas contas. Escritor brasileiros não têm a valorização necessária para continuar produzindo. Pode ser triste dizer isso, mas multas vezes acabamos escrevendo por amor à literatura.

Existe uma dificuldade maior para quem faz literatura queer?

Cada vez mais acredito que essas dificuldade diminuem. Há uma literatura queer de muita qualidade sendo publicada, e talvez ela sempre tenha existido, mas com menos visibilidade do que agora.

Eu imaginava que meu trabalho fosse ser lido de forma mais nichada, mas tenho encontrado muito leitores que não são LGBTQIAPN+, e isso é muito rico para a leitura: o fato de não buscar identificação, mas querer saber o que se passa ao redor.

Não é algo que está no meu horizonte quando escrevo, mas, depois que o texto chega ás pessoas, ele passa a ter um impacto político.

Sismógrafo, por exemplo, teve um efeito positivo não apenas para pessoas da comunidade LGBTQIAPN+, que se viam na história. A literatura tem o poder de oferecer uma referência de mundo para que você se posicione e diga em voz alta quem é e o que deseja. Mas o livro também encontrou leitores que não se viam narrados ali, e que puderam entender melhor nossa vivência enquanto pessoas queer.

Sinto que é a primeira vez que falo abertamente sobre isso, e isso é fundamental na minha literatura: escrever sobre as vivências de pessoas LGBTQIAPN+.

Como foi ganhar o Prêmio Sesc?

Para mim, foi como sair do armário como poeta, um verdadeiro tiro no escuro. Eu não falava para ninguém que escrevia poesia e nunca tinha publicado um poema em site, rede social ou revista.

Fiquei muito feliz quando me ligaram para anunciar o resultado e surpreso por terem gostado do que escrevi.

Lembro de uma entrevista da Adélia Prado em que ela conta que enviou seu primeiro livro para o Drummond ler. Ela diz que foi como atirar uma bomba e colocar o dedo no ouvido. Mandar um livro para um prêmio dessa dimensão foi mais ou menos isso: você envia e coloca o dedo no ouvido.

Foi uma explosão muito bonita. Estou feliz.

O que anda lendo?

Vou ser enviesado, mas gosto muito da Mariana Salomão Carrara, que é uma grande amiga e, na minha opinião, talvez a maior escritor brasileira que temos hoje. Não é exagero: admiro muito o trabalho dela.

Também gosto muito da Carol Rodrigues, de todos ose livros que publicou. Faz alguns anos que ela lançou o último, mas é uma autora fundamental para mim.

Leio muita poesia, e estamos vivendo um excelente momento da poesia brasileira. Há poetas incrível sendo publicados hoje. Estou citando multas mulheres, mas é o momento delas.

Gosto muito da Marília Garcia, da Ana Martins Marques, da Adelaide Ivánova e da Laura Assis. Também leio bastante o Edimilson de Almeida Pereira e o Leonardo Gandolfi.

O processo para escrever poesia e prosa funciona da mesma forma?

Não. Acho que comecei a escrever poesia porque, nos romance, prezo muito pelo trabalho com a linguagem. Depois de tanto martelar a cabeça escrevendo prosa, pareceu natural fazer o inverso.

O processo do romance é muito trabalhoso e minucioso. Releio e reescrevo infinito vezes. Ás vezes, passo horas relendo para mudar uma palavra, uma frase, uma vírgula. Sou extremamente apegado a isso, e é a parte do processo que mais me dá prazer.

Na poesia, penso o texto para ser lido de outro modo, ocupando um espaço próprio na página. Nos poema, sinto que estou muito mais livre e distraído — no melhor sentido da distração — do que quando escrevo prosa. Talvez por isso, ao olhar hoje para Escalar cansa, percebo que corri riscos que ainda não tinha corrido. Isso me gera certa insegurança, mas também alegria por ter assumido esses riscos e ver o livro sendo bem recebido.

O que diria para quem deseja começar a escrever?

Encontrar seu lugar no que está sendo produzido hoje e ler literatura brasileira contemporânea. Para mim, tudo mudou quando percebi o momento precioso da nossa literatura e a possibilidade de acessar nossos pares.

Aconselho quem está começando a entrar em contato com ose autores que leu e gostou. Conversar sobre literatura, entender onde você se encaixa e trocar impressões com seus pares são passos fundamentais.

Sobre o que são Tarde no planeta e Escalar cansa?

Tarde no planeta é um romance que acompanha uma família no dia em que o filho adolescente imagina que vai acontecer uma catástrofe irreversível em suas vidas. A partir disso, ose personagens se voltam para suas relações e para o próprio passado, tentando desatar nós antigos que atravessam a história familiar.

Essa é uma sinopse possível para Tarde no planeta.

Escalar cansa é um livro de poema que parte da observação da relação entre homens — não apenas afetiva, mas também ligada aos limites da masculinidade — para pensar vivências de pessoas LGBTQIAPN+ na contemporaneidade.

O que sempre me impressiona é quando alguém percebe uma dimensão do livro que eu não havia notado. Fico positivamente surpreso quando apontam um aspecto que se torna central para o leitor e que não estava no meu horizonte durante a escrita.

Já tem algum projeto em mente?

Sim, estou escrevendo um terceiro romance, mas sou muito lento na prosa. Passo muito tempo mastigando as palavras, então não tenho previsão de conclusão nem de publicação.

Como tudo o que publiquei até agora, é um romance queer. Desta vez, estou trabalhando as nuance das relações entre homens de um modo diferente do que nos livros anteriores.

[ad_2]

Por Midia Ninja

Compartilhe esta matéria:
Portal Inhaí

Portal Inhaí

Confira as notícias e colunas publicadas por Portal Inhaí no Portal Inhaí.