Por Lucas Porto – Cobertura Colaborativa Círio de Nazaré 2026
Na banca de Mirani da Silva, as ervas cheirosas que os romeiros levam para o banho passaram pelas mãos de três gerações. Ela aprendeu com os pais, ensina a filha e o filho e teme que esse saber acabe nas bancas onde ninguém mais ensina.
Abre-caminho, catinga-de-mulata, pataqueira e manjericão são as ervas que Mirani da Silva mais vende quando o Círio se aproxima. Segundo ela, é a época das ervas atrativas, as cheirosas, que conhece desde criança por causa do pai e da mãe. “Antes de vir pro Ver-o-Peso, eu plantava as ervas em casa. Quando eu vim pra vender, eu já conhecia tudo”, conta.
A erveira tem 57 anos e chegou à feira aos 7, levada pela mãe junto com duas irmãs e três irmãos. Pelas contas dela, já são 50 anos de banca.
“Eu não sei trabalhar com outra coisa. Eu só sei trabalhar vendendo as ervas”, compartilha.
Foto: Lucas Porto
O banho de quem segue a santa
De acordo com Mirani, no resto do ano, a procura maior é por ervas de descarga, como arruda e quebra-feitiço. No Círio, o pedido muda, porque quem chega à banca está “seguindo a mãezinha, pagando promessa” e quer as ervas para tomar o banho e “conseguir o que vieram buscar”. Ela trata de não prometer demais. “É só uma ajuda. As ervas é uma ajuda”, diz.
Os fregueses, segundo a erveira, preferem levar as plantas para preparar o banho em casa. “Eles querem as ervas pra eles macerarem. Eles querem sentir a energia das ervas.” A estudante Suzana Sampaio é uma dessas freguesas. Ela conta que toma banhos de descarga e atrativos em qualquer época, “seja no momento bom ou no momento ruim”, mas que o Círio tem um peso diferente. “A energia da cidade tá muito alta, é uma energia propícia pra você fazer seus pedidos, fazer seu agradecimento”, afirma. Segundo Suzana, é durante o banho que ela reza, agradece e pede proteção.
Foto: Lucas Porto
De mãe para filha
A mãe de Mirani morreu há nove anos e, na época, a filha pensou em abandonar a banca. “Eu queria viver de outra maneira”, lembra. Segundo a erveira, depois da morte, um freguês antigo da mãe a procurou com um recado espiritual. De acordo com Mirani, a mãe teria contado a ele que a filha pensava em largar a missão e mandado dizer: “A missão quem tem que seguir é você”.
Mirani decidiu ficar, mas chamou os filhos:
“Eu não vou sozinha. Vou trazer minha filha e vou trazer meu filho pra dar força pra mim e eu continuar”, explicou.
A filha é Kellen da Silva, que hoje divide a banca com a mãe e o irmão. “Veio da minha vó, passou pra minha mãe, aí agora passou pra mim e pro meu irmão”, diz. Segundo Kellen, a mãe ensina os dois a fazer os produtos e os banhos e vai repassando os fregueses aos poucos.
Kellen é evangélica e afirma que isso não a afasta da festa. “Eu acredito, eu tenho fé, porque minha filha nasceu no dia do Círio e no domingo ela tá fazendo 17 anos. Então eu faço parte disso”. Para ela, ensinar os romeiros a usar os banhos atrativos é o jeito que a banca tem de participar. “A gente ajuda de alguma forma”.
Suzana frequenta uma casa de Umbanda, se diz católica não praticante e enxerga nessa transmissão um patrimônio. Na avaliação dela, o conhecimento das ervas se difunde pela oralidade, “dentro dos terreiros, dentro dos espaços em que a gente compra as nossas ervas, de avó pra neto, de mãe pra filha”, e precisa continuar circulando “pra que as pessoas conheçam mais sobre a sua ancestralidade, sobre o seu território”.
O risco de acabar com quem ensina
Mirani avalia que o que acontece na banca dela não se repete em boa parte do Ver-o-Peso. Perguntada se os saberes que recebeu dos pais estão sendo valorizados pelos mais novos, ela responde que “estão sendo perdidos”. Kellen diz conhecer lugares em que “os filhos não querem mais seguir a trajetória dos pais”. Já a mãe cobra os colegas da própria geração, que, segundo ela, deixaram de ensinar. “A maioria dos vendedores aqui não passam pros seus filhos. Muitos aqui vão morrer e vão levar com eles”.
Foto: Lucas Porto
Na banca da família, o caminho tem sido outro. Nove anos depois do recado, Mirani continua vendendo as ervas que aprendeu a plantar com os pais, agora com Kellen e o irmão ao lado. Neste Círio, volta a separar abre-caminho, pataqueira e manjericão para quem chega pagando promessa.
Fonte: Mídia Ninja.
