Por Ana Clara B. Caldas – Cobertura Colaborativa Círio de Nazaré 2026
Todos os anos, milhões de pessoas participam do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, em Belém, em uma das maiores manifestações religiosas do Brasil. Entre as procissões, as homenagens à santa e a ocupação das ruas da capital paraense, existe uma dimensão da celebração que ajuda a compreender a relação histórica entre a festividade e o território amazônico: as águas.
A história tradicional do Círio remonta ao início do século XVIII, quando Plácido José dos Santos teria encontrado uma imagem de Nossa Senhora de Nazaré às margens do igarapé Murutucu, na região onde hoje está o Parque Estadual do Utinga. A narrativa de que a imagem retornava ao local onde havia sido encontrada contribuiu para a construção da devoção que, em 1793, passou a contar com uma procissão oficial.
Ao longo dos séculos, Belém se transformou. Igarapés foram canalizados ou aterrados, a ocupação urbana avançou e a relação cotidiana de parte da população com os cursos d’água mudou. Ainda assim, os rios continuam fundamentais para a identidade da região e para a vida de comunidades que dependem deles para se deslocar, trabalhar, pescar e manter suas tradições.
Essa dimensão ribeirinha do Círio é discutida no artigo “Círio de Nazaré em Belém-PA: dimensão ribeirinha, expansão territorial e importância para o turismo”. Os autores analisam como a celebração se relaciona com o território, a expansão de Belém e a importância da festividade para o turismo. Essa perspectiva ajuda a compreender por que a preservação dos rios e dos modos de vida amazônicos também importa para a continuidade da memória cultural do Círio.
Quando as águas mudam, a vida ribeirinha sente primeiro
Foto: Ana Clara B. Caldas
A relação entre a população amazônica e os rios depende de ciclos naturais que orientam atividades como a pesca, a coleta de frutos, o transporte de pessoas e mercadorias e o calendário de trabalho. Quando esses ciclos se alteram, os impactos ultrapassam a dimensão ambiental e atingem a economia, a alimentação e a organização social das comunidades.
Uma reportagem do Rainforest Journalism Fund de 2022 sobre a produção comunitária de açaí no arquipélago do Bailique, na foz do Amazonas, documentou mudanças percebidas pelos moradores no comportamento das águas. O material relata períodos de cheia fora do habitual, chuvas intensas, alagamentos de áreas de cultivo e alterações no calendário de coleta. Também aborda problemas como erosão e salinização da água, que afetam os territórios e as atividades das comunidades locais.
Essas experiências ajudam a dimensionar o que está em jogo quando se fala em crise climática na Amazônia. As mudanças no clima não se resumem ao aumento da temperatura: podem envolver alterações nos padrões de chuva, períodos de seca mais severos, cheias atípicas e mudanças na dinâmica dos rios. Os efeitos variam conforme a região e precisam ser compreendidos a partir de dados científicos e das experiências de quem vive nesses territórios.
Para as comunidades ribeirinhas, as consequências podem aparecer em tarefas cotidianas: uma viagem de barco que se torna mais difícil, uma área de cultivo alagada antes da hora, a redução da disponibilidade de peixes ou a necessidade de reorganizar a coleta de produtos florestais. Quando essas mudanças se acumulam, também podem comprometer práticas culturais transmitidas entre gerações.
Desmatamento: uma ameaça ao equilíbrio da floresta
A crise climática está relacionada a processos de degradação ambiental que se reforçam mutuamente. O desmatamento libera carbono armazenado na vegetação e reduz a capacidade da floresta de contribuir para a regulação do clima e dos ciclos da água. A combinação entre retirada da vegetação, queimadas e ocupação desordenada também pode fragmentar habitats, degradar solos e pressionar os recursos de que dependem as populações locais.
Os dados consolidados do Projeto de Monitoramento do Desmatamento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (Prodes), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), mostram que a Amazônia Legal perdeu 5.731 km² de floresta no período de agosto de 2024 a julho de 2025. Embora o total represente uma redução de 12,07% em relação ao período anterior, o número evidencia a dimensão da pressão sobre o bioma. O Pará respondeu por 2.064 km², equivalentes a aproximadamente 36% do total registrado na Amazônia Legal (INPE -dados consolidados do Prodes 2025). A redução anual é uma notícia importante, mas não significa que a ameaça tenha desaparecido.
A perda de floresta continua sendo um fator de preocupação para a conservação da biodiversidade e para o equilíbrio climático regional. É importante, contudo, distinguir os processos: os dados de desmatamento, isoladamente, não demonstram que uma alteração específica em um rio ou no calendário de uma procissão tenha sido causada pela crise climática. Eles mostram uma pressão ambiental que precisa ser considerada em conjunto com estudos sobre clima, hidrologia e território.
As pressões sobre a floresta também atingem os ambientes aquáticos. Obras de infraestrutura, barragens, desmatamento e mudanças no uso do solo podem modificar habitats e interferir na circulação de espécies. Uma reportagem do Rainforest Journalism Fund sobre hidrelétricas na Amazônia, por exemplo, aborda a supressão da vegetação, os impactos sobre a fauna e a preocupação com a emissão de gases de efeito estufa por reservatórios. Os efeitos dependem das características de cada empreendimento e precisam ser avaliados caso a caso (Rainforest Journalism Fund – “Novas hidrelétricas na Amazônia ignoram normas e causam estragos ambientais”).
A pesca, por sua vez, é uma fonte de alimento, renda e identidade para inúmeras comunidades amazônicas. Reportagens sobre a redução da atividade pesqueira em áreas afetadas por grandes obras mostram como alterações nos cursos d’água e nos ambientes de reprodução dos peixes podem repercutir diretamente na vida de quem depende deles. Esses casos não devem ser automaticamente atribuídos às mudanças climáticas: eles demonstram que intervenções humanas distintas também podem alterar os ecossistemas e agravar vulnerabilidades locais, com base no Rainforest Journalism Fund – “Na Amazônia, as redes têm cada vez menos peixe”.
Para o Círio de Nazaré, essa discussão tem uma dimensão concreta. A Romaria Fluvial, realizada nas águas da Baía do Guajará e marcada pela participação de embarcações, evidencia a ligação entre a devoção religiosa e o ambiente aquático. A celebração não está isolada das condições do território: depende de rios, margens, comunidades, embarcações e estruturas de apoio.
Isso não significa afirmar que as mudanças climáticas já ameacem diretamente a realização do Círio ou que a Romaria Fluvial esteja prestes a deixar de acontecer. Significa reconhecer que a conservação dos rios e a adaptação às mudanças ambientais são questões relevantes para o futuro das práticas culturais que dependem deles. Acompanhar as condições de navegabilidade, a qualidade da água, a segurança das comunidades e as transformações nos territórios é parte desse cuidado.
Conhecimentos tradicionais também fazem parte da resposta
Foto: Bárbara Freire
Se a crise ambiental impõe desafios, as próprias comunidades amazônicas preservam conhecimentos que podem contribuir para a conservação. A reportagem sobre o açaí certificado do Bailique apresenta a experiência de uma cooperativa comunitária que organiza a produção com base no manejo florestal, na participação dos moradores e na valorização de saberes locais. A iniciativa mostra que a proteção da floresta pode estar associada à geração de renda e à continuidade de práticas tradicionais.
Esses exemplos ajudam a evitar uma visão da Amazônia como um território apenas ameaçado. A região também é lugar de conhecimento, organização comunitária e soluções construídas por quem vive na floresta. Proteger os modos de vida ribeirinhos significa garantir condições para que essas populações continuem exercendo seus saberes, mantendo suas atividades e participando das decisões sobre o futuro de seus territórios.
No caso de Belém, a memória do igarapé Murutucu e a presença da água na história do Círio convidam a ampliar o olhar sobre a festa. A devoção a Nossa Senhora de Nazaré é religiosa, mas também se inscreve em uma paisagem amazônica marcada por rios, igarapés e relações entre comunidades e natureza.
Preservar essa dimensão não é apenas uma questão de proteger o cenário de uma celebração. É reconhecer que o patrimônio cultural está ligado às condições ambientais e sociais que permitem sua continuidade. Em uma Amazônia pressionada pelo desmatamento, pelas mudanças climáticas e por diferentes formas de ocupação do território, cuidar das águas é também cuidar da memória, da identidade e das possibilidades de futuro da região.
Fonte: Mídia Ninja.
