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Entre fé e resistência, Círio Fluvial reúne diferentes expressões de devoção Em Belém

Uma das 14 procissões oficiais do Círio de Nazaré, reúne milhares de devotos e expressa encontros, ancestralidades e tensões na vivência da fé O post Entre fé e resistência, Círio Fluvial reúne diferentes expressões de devoção em Belém apareceu primeiro em Mídia NINJA.

Por Daryl Hannah – Cobertura Colaborativa Círio de Nazaré 2026

As águas da Baía do Guajará foram tomadas por embarcações, cores e manifestações de fé durante o Círio Fluvial, em Belém, no Pará. Milhares de devotos acompanharam a imagem peregrina de Nossa Senhora de Nazaré, padroeira da Amazônia, em uma das 14 procissões oficiais do Círio de Nazaré 2026. A romaria percorreu mais de 18 quilômetros, reunindo balsas, barcos, lanchas e motos aquáticas em uma celebração marcada por promessas, agradecimentos e devoção popular.

Para além das promessas e da devoção a Nossa Senhora de Nazaré, o Círio Fluvial também revela a diversidade de expressões religiosas que atravessam a cultura amazônica, marcada por encontros e relações de sincretismo entre diferentes tradições de fé. Entre essas manifestações está a participação da cantora paraense Alba Mariah, que há quatro anos acompanha a procissão em um barco dedicado ao sagrado feminino, em homenagem às mulheres que marcam sua trajetória. A iniciativa, que nasceu de uma promessa, também é dedicada ao combate à intolerância religiosa e ao respeito a todos os credos e às manifestações de fé à Rainha da Amazônia. Sua presença nas águas da Baía do Guajará também reafirma a ancestralidade e a resistência diante da intolerância contra expressões culturais e religiosas de matriz africana.

Foto: Alba Mariah

“O Círio Fluvial é a água da mãe, a água do ventre, a água do acolhimento, a água que nos abraça, a água que nos alimenta. Então, o meu barco quer agradecer ao sagrado feminino que nos criou, que nos educou, que nos apresentou o mundo para que eu chegasse aonde estou”, explica Alba Mariah. A artista conta que há quatro anos dedica sua embarcação às mulheres que a guiaram física e espiritualmente. Para ela, a presença no Círio também representa um ato de resistência: “A nossa intenção é essa também, sobressair, sublinhar, gritar que estamos aqui e que a gente continua resistindo e que a gente vai continuar existindo”, afirma a artista.

A fé que ocupa as águas

Para quem acompanha a procissão, a devoção também se manifesta por meio de memórias, vínculos afetivos e experiências pessoais. No barco de Alba Mariah, a homenagem ao sagrado feminino ganha novos sentidos a partir das histórias de quem participa da celebração. A figura de Maria de Nazaré, associada à maternidade e ao acolhimento na experiência dessas participantes, também desperta reflexões sobre ancestralidade, identidade e pertencimento.

Para a produtora de eventos Ana Julia, que acompanhou a procissão no barco de Alba Mariah, a celebração representa um momento de conexão com a própria identidade e com o sagrado feminino. “O Círio é um momento de conexão com a nossa fé, com a nossa ancestralidade, com a nossa feminilidade, porque Maria é mãe, Maria é mulher, Maria foi esposa. Em todas as crenças, todas as fés, de alguma forma Maria se faz presente”, afirma. Para ela, participar da romaria é também uma oportunidade de “se reconectar com ela e com quem a gente é, com quem a gente gosta de ser”.

Entre água, territórios e diferentes formas de fé

A diversidade presente no Círio Fluvial ultrapassa as manifestações de devoção e se expressa nos diferentes posicionamentos políticos, nas identidades e nas formas de compreender o sagrado. Nas águas da Baía do Guajará, essas experiências compartilham o mesmo espaço, mas nem sempre encontram o mesmo reconhecimento. Para o geógrafo e pesquisador Marcos Lima, que acompanhou a procissão, essa pluralidade evidencia tanto as possibilidades de convivência quanto as contradições que atravessam a celebração.

“O Círio Fluvial para mim é um encontro de territorialidades plurais, onde vimos pessoas esperançosas com suas bandeiras, fazendo seus pedidos a Nossa Senhora de Nazaré. Então percebemos que existe uma pluriversidade em vários aspectos comungando entre si as suas contradições”, observa Marcos. Segundo o pesquisador, essas diferenças se tornam ainda mais evidentes quando as saudações de paz e comunhão encontram resistência, no cortejo fluvial, a outras tradições não católicas.

“O sincretismo existe e isso precisa ser reconhecido. Na cosmologia afro, Nossa Senhora de Nazaré tem as suas simbologias próprias, se referindo a Oxum, mãe das águas, assim como na Umbanda ela simboliza a cabocla Mariana. Daí nasceram algumas intolerâncias religiosas frente às manifestações desse território que é o Círio de Nazaré”, ressalta.

Para Marcos, reconhecer essa pluralidade também significa questionar os limites da convivência religiosa em uma celebração que mobiliza diferentes coletivos sociais. Ele afirma que “coexistem narrativas contraditórias, mas também complementares nessa vivência religiosa, onde a resistência sempre existiu frente às práticas religiosas dominantes. O que me leva a crer que nesse Círio cabem muitos outros círios”.

Entre a esperança e a resistência

Em meio às diferentes expressões de fé e às contradições que atravessam o Círio Fluvial, a esperança também ganha um sentido de resistência diante dos desafios sociais e políticos. Para a produtora de eventos Ana Julia, a celebração representa uma oportunidade de renovar a fé e reafirmar a força de grupos historicamente marginalizados.

“Nesse momento atual que estamos vivendo, nesse momento social e político, a mensagem é de esperança, porque nada está perdido, que a gente pode sim continuar crescendo, continuar evoluindo. As mulheres, as pessoas trans, os homossexuais, os pretos, as minorias não podem desistir das lutas. Por isso o Círio vem com a proposta de renovar a nossa fé, de lembrar que somos capazes”, afirma.

A esperança também atravessa a fala de Alba Mariah, que encontra na simbologia das águas uma expressão de resistência diante das adversidades.

“Estamos vivendo agora uma maré um pouco revolta, mas as águas estão sempre com a gente. Não é um trabalho fácil, é um trabalho de resistência diária. Eu espero que a gente possa se unir cada vez mais para que possamos ser resistência daqueles que nos oprimem, que possamos vencer os obstáculos e sair vitoriosos de tudo isso”, declara a artista.

Fonte: Mídia Ninja.

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