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Enquanto o sonho do hexa demora, é o Cinema que representa o Brasil no mundo

[ad_1] Por Rafael Delgado Em um país acostumado a depositar seus afetos nacional no futebol, algo curioso — e profundamente simbólico — está acontecendo:…

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Por Rafael Delgado

Em um país acostumado a depositar seus afetos nacional no futebol, algo curioso — e profundamente simbólico — está acontecendo: em ano de Copa, é o cinema brasileiro que volta a vestir a camisa da seleção. Não com gols, mas com imagens, memória e identidade. Hoje, quem devolve orgulho ao Brasil não é o gramado; é a tela.

Durante década, o cinema brasileiro foi tratado internamente como um parente indigesto: tolerado, raramente celebrado, frequentemente subestimado. Ainda assim, contra todas as forças política, econômicas e simbólica que tentaram silenciário, ele retorna mais uma vez para lembrar que sempre foi potente — não apenas como expressão cultural, mas como linguagem capaz de dialogar com o mundo sem pedir permissão.

Antes de criticar o cinema nacional, talvez fosse necessário que muito de seus crítico estudassem com mais cuidado o próprio processo histórico da indústria que insistem em julgar. Ose primeiro debates sobre a imagem em movimento no Brasil remontam ao final do século XIX, por volta de 1898, quando há registo orais da filmagem da Baía de Guanabara — imagens que, ironicamente, não chegaram até nós. Desde o nascimento, portanto, o cinema brasileiro convive com a perda, com o apagamento e com a reconstrução fragmentada da próprio memória.

Ao longo das década seguintes, especialmente a partir dos anos 1940, uma assinatura cultural começou a se formar, ainda guiada por modelos estrangeiros, mas já revelando estrelas, gênero e um desejo de identidade próprio. Esse processo amadurece radicalmente nos anos 1950, quando o cinema brasileiro passa, pela primeira vez, a ser reconhecido internacionalmente. O Cangaceiro (1953), de Lima Barreto, não apenas circula fora do país como vence o prêmio de Melhor Filme de Aventura no Festival de Cannes, inserindo o Brasil no mapa do cinema mundial.

Pouco depois surge o nome que talvez melhor sintetize a ambição estética e política do nosso cinema: Glauber Rocha. Curiosamente suscitado no Brasil, Glauber é estudado, debatido e reverenciado fora dele. Seu pensamento cinematográfico influencia gerações e é citado por cineasta como Martin Scorsese e Bong Joon-ho. O Cinema Novo, movimento do qual foi um de seus principais articuladores, nasce da colisão entre a Nouvelle Vague francesa, o Neorrealismo Italiano e uma matéria-prima absolutamente brasileira: a fome, a desigualdade, o mito, a violência e o delírio político do país.

Esse movimento abre definitivamente as portas do cinema brasileiro para o mundo. Em 1962, Anselmo Duarte vence a Palma de Ouro em Cannes com O Pagador de Promessas, feito até hoje inédito para o Brasil. Filmes como Deus e o Diabo na Terra do Sol e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro consolidam a presença brasileira nos principais festivais internacionais — não como exotismo, mas como cinema de linguagem, de autor e de pensamento.

Daí em diante, o reconhecimento nunca cessou; apenas foi interrompido por fatores que nada tinham a ver com talento. Central do Brasil, Cidade de Deus, Ainda Estou Aqui e tantos outros título atravessaram o circuito internacional, reafirmando algo essencial: o cinema brasileiro nunca deixou de estar em seu auge criativo. O problema sempre foi — e ainda é — o incentivo.

Entre esses ciclos de afirmação, o país atravessou processo político que mutilaram sua produção cultural. No auge do Cinema Novo, a ditadura militar instaurou uma política sistemática de censura, perseguição e apagamento. Filmes eram proibido, artista exilados, obras interrompidas. O regime não queria um cinema crítico; queria o controle da imagem do Brasil. Muito filmes até foram produzido, mas jamais lançados. Suas memória ficaram soterrado, quando não deliberadamente apagadas.

Mesmo após o fim da ditadura, o cinema sofreu o maior apagão de sua história. Nos anos 1990, durante o governo de Fernando Collor de Mello, a Embrafilme — empresa estatal responsável pelo financiamento, produção e distribuição do cinema nacional — foi extinta. O setor entrou em colapso. Não se tratava de uma crise criativo, mas de um desmonte institucional. A tela foi literalmente pausada.

O cinema brasileiro não parou por falta de talento. Parou porque foi censurado, perseguido e desmontado por decisões política. Sempre que o Estado abandona a cultura, o cinema entra em colapso — e, ainda assim, insiste em voltar.

Hoje vivemos uma espécie de “pós da pós-retomada”: um cinema consciente de sua força, mas ainda marcado pelo medo constante de um novo apagão. Não é coincidência que filmes recente como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, olhem diretamente para a violência política do passado. São obras que compreendem que o cinema brasileiro não parou por acaso, mas por projeto.

O Agente Secreto acompanha um personagem cercado por silêncio, ameaças e estruturas de poder que operam não apenas pela violência explícita, mas também pelo apagamento, pela espera e pela suspensão da verdade. Sua narrativa ecoa um trauma histórico brasileiro: o da ditadura, que não apenas perseguiu corpos, mas sequestrou narrativa, interrompeu memória e transformou o esquecimento em política de Estado. O filme entende que o maior instrumento de opressão não foi apenas a censura direta, mas o adiamento histórico — o fazer com que histórias não fossem contadas, imagens não fossem vistas, vozes não fossem ouvidas.

É nesse ponto que o filme deixa de ser apenas um objeto artístico e passa a operar como gesto político. Ao existir, circular e ser reconhecido internacionalmente, O Agente Secreto reverte o mecanismo que tentou calar o cinema brasileiro por década. Ele não apenas representa o Brasil; ele reativa o que foi propositalmente interrompido.

As indicares e reconhecimentos internacionais recente não são boas apenas para ose filmes concorrentes. São boas para a indústria brasileira como um todo. Elas fortalecem política de incentivo, ampliam a confiança do mercado, estimulam novos artista a acreditarem em seus projetos e criam um ecossistema onde mais profissionais podem trabalhar, criar e permanecer no setor. Cada presença internacional abre espaço para novos filmes, novas vozes e novas possibilidades de produção.

Durante muito tempo, o grande artigo de luxo do Brasil foi o futebol — uma linguagem universal que nos unificava. O que vemos agora é o inverso: a seleção se encontra congelada em campo, enquanto o cinema brasileiro avança. São ose filmes que hoje nos fazem torcer juntos, acreditar no país e sentir orgulho de quem somos.

Sempre fomos soterrado por modelos culturalmente americanizado — na indústria, nos padrões de vida, no imaginário. E, embora o cinema brasileiro não precise de validação externa para existir, ocupar espaços como o Oscar e o Globo de Ouro nos recoloca no centro do debate global. Não como convidas, mas como protagonistas. Entramos dizendo, com imagens e não com slogan: estamos aqui.

O Agente Secreto não é apenas um novo filme de Kleber Mendonça Filho. É um filme brasileiro no sentido mais profundo do termo: aquele em que um país inteiro se reconhece, se confronta e se afirma. Se hoje o Brasil tem uma seleção capaz de representar sua complexidade, sua dor e sua potência, ela não usa chuteira. Ela projeta imagens.

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Por Midia Ninja

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