Governo Trump ajudou na fuga de Flávio Bolsonaro, diz imprensa americana
Um grupo de políticos democratas do Congresso dos Estados Unidos questionou, em carta ao Secretário de Estado Marco Rubio, o papel que o governo Trump desempenhou na fuga de Flávio Bolsonaro do Brasil e sobre o processo de emissão de visto para o senador brasileiro e sua família.
A carta, obtida pela repórter da TV Globo Raquel Krahenbuhl, foi enviada ao Departamento de Estado norte-americano na noite de quinta-feira (29).
(CORREÇÃO: na publicação desta reportagem, o g1 errou ao informar que os deputados questionaram o greencard concedido a Flávio Bolsonaro. Na verdade, a carta se referia ao processo de emissão de vistos. A informação foi corrigida às 11h42 desta sexta-feira (30)).
Segundo o site norte-americano Politico, a carta é assinada por um grupo 25 democratas da Câmara dos Deputados, liderado pelas deputadas Sydney Kamlager-Dove e Dina Titus. Entre os signatários, estão membros do Comitê de Relações Exteriores da Câmara —o órgão, inclusive criticou publicamente o asilo a Flávio Bolsonaro.
No documento, os políticos questionaram, entre outras coisas, o seguinte: (leia a íntegra da carta mais abaixo)
- Se o governo Trump ajudou na fuga de Flávio Bolsonaro do Brasil, e se sim, em qual grau;
- Se o governo Trump estaria ciente das investigações criminais às quais Flávio estava submetido no Brasil;
- Sobre o processo de emissão de vistos para a entrada de Flávio e sua família nos EUA;
“A questão central é simples: o Departamento de Estado, a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil ou qualquer outra agência do governo americano ajudou o senador Bolsonaro a viajar para os Estados Unidos ou a entrar no país, apesar da suposta restrição judicial brasileira à sua saída?”, afirmou a carta.
“O povo americano e o Congresso têm um interesse legítimo de fiscalização em compreender se recursos diplomáticos e de imigração dos Estados Unidos foram utilizados para facilitar a viagem de uma figura política estrangeira nessas circunstâncias”, acrescentaram os políticos no documento.
👉 Flávio Bolsonaro recebeu autorização do governo americano para permanecer por 1 ano no país, segundo aponta consulta ao sistema U.S. Customs and Border Protection – CBP (Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos).
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Flávio Bolsonaro e Donald Trump — Foto: Pablo Porciuncula/AFP; Jonathan Ernst/Reuters
Flávio Bolsonaro e Donald Trump — Foto: Pablo Porciuncula/AFP; Jonathan Ernst/Reuters
No documento, os políticos ainda questionam se as autoridades do governo Trump estavam cientes da ordem do Supremo Tribunal Federal (STF) brasileiro proibindo que Flávio saísse do Brasil e que havia determinado que o senador entregasse seus passaportes.
O grupo de democratas também mencionou diversas reportagens da imprensa norte-americana que afirmam que o governo Trump ajudou na fuga de Flávio e que teria pago pelo voo de jatinho particular que o senador e sua família pegaram para chegar aos EUA.
Entre as perguntas dos políticos democratas no documento, está uma explícita sobre o embasamento legal para a emissão dos vistos:
“Qual foi a base legal para a emissão ou aprovação de vistos para o senador Bolsonaro e sua família? Quais categorias de visto e critérios de elegibilidade foram considerados, e o Departamento levou em conta as investigações criminais em andamento envolvendo o senador Bolsonaro ao tomar essa decisão?”, questionou o documento.
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Leia a íntegra da carta:
“Escrevemos para solicitar esclarecimentos imediatos sobre o papel do Departamento de Estado, caso tenha havido algum, na facilitação da saída do senador brasileiro Flávio Bolsonaro do Brasil e de sua entrada nos Estados Unidos, após uma decisão da Suprema Corte brasileira que restringiu suas viagens internacionais.
Segundo uma reportagem publicada pelo The New York Times em 27 de outubro de 2026, o senador Bolsonaro teria deixado o Brasil com destino aos Estados Unidos após perder a eleição presidencial brasileira e descumprir uma ordem judicial que determinava a entrega de seus passaportes. A ordem teria sido emitida no âmbito de uma investigação criminal envolvendo o senador por suposta lavagem de dinheiro e outras irregularidades financeiras relacionadas.
É particularmente preocupante que, segundo relatos, um alto funcionário do Departamento de Estado tenha afirmado que os Estados Unidos concederiam vistos ao senador Bolsonaro e a membros de sua família e permitiriam sua entrada no país. Outras reportagens levantaram dúvidas sobre se autoridades americanas tinham conhecimento dos preparativos para sua saída ou participaram deles.
Esses acontecimentos levantam questões importantes sobre o processo decisório do Departamento, seu conhecimento da ordem judicial brasileira e se algum funcionário do governo americano prestou assistência antes ou depois da emissão dessa ordem.
A questão central é simples: o Departamento de Estado, a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil ou qualquer outra agência do governo americano ajudou o senador Bolsonaro a viajar para os Estados Unidos ou a entrar no país, apesar da suposta restrição judicial brasileira à sua saída? Caso tenha havido esse tipo de assistência, o Congresso precisa entender o que foi fornecido, quem autorizou, quando ocorreu e quais informações estavam disponíveis para as autoridades americanas naquele momento.
Diante disso, solicitamos respostas por escrito às seguintes perguntas:
1. Quando o Departamento de Estado, a Embaixada dos Estados Unidos em Brasília ou qualquer outra missão diplomática americana tomou conhecimento pela primeira vez de que a Suprema Corte brasileira havia ordenado que o senador Bolsonaro entregasse seus passaportes e restringido sua possibilidade de deixar o Brasil?
2. Algum funcionário do governo americano recebeu, examinou ou discutiu uma cópia da decisão judicial antes de o senador Bolsonaro supostamente deixar o Brasil?
3. Antes de autorizar ou facilitar qualquer visto ou preparativo de viagem, o Departamento verificou se o senador Bolsonaro tinha autorização legal para deixar o Brasil?
4. O Departamento tinha conhecimento de que o senador Bolsonaro supostamente não cumpriu o prazo estabelecido pela Justiça para entregar seus passaportes? Em caso afirmativo, quando o Departamento tomou conhecimento desse descumprimento e que medidas, se alguma, foram adotadas em seguida?
5. O Departamento de Estado emitiu, aprovou, acelerou a tramitação, renovou ou de alguma outra forma facilitou a concessão de um visto ao senador Bolsonaro ou a algum membro de sua família durante esse período eleitoral?
6. Segundo relatos, um alto funcionário do Departamento de Estado afirmou que o órgão concederia vistos ao senador Bolsonaro e a sua família e permitiria que entrassem nos Estados Unidos. Quem autorizou essa decisão?
7. Os vistos foram aprovados ou outros procedimentos relacionados à imigração foram realizados antes de o Departamento tomar conhecimento da decisão judicial brasileira? Em caso afirmativo, o Departamento reconsiderou, suspendeu ou reavaliou esses procedimentos após tomar conhecimento da ordem?
8. Algum funcionário do Departamento de Estado, da Embaixada dos Estados Unidos, da Casa Branca ou outro representante do governo americano se comunicou, direta ou indiretamente, com o senador Bolsonaro, seus familiares, advogados, assessores políticos ou intermediários a respeito de sua viagem aos Estados Unidos?
9. Algum funcionário do governo americano ajudou com reservas de voos, documentos de viagem, transporte, acesso a aeroportos, agendamentos consulares, planejamento da entrada no país ou outros preparativos logísticos relacionados à suposta saída ou chegada do senador Bolsonaro?
10. O Departamento coordenou ações com o Departamento de Segurança Interna, a Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos, o Serviço de Cidadania e Imigração dos Estados Unidos ou qualquer outra agência federal em relação à chegada prevista do senador Bolsonaro? Em caso afirmativo, descreva a natureza e o momento dessa coordenação.
11. O Departamento consultou o Departamento de Justiça ou qualquer outra agência federal a respeito das implicações de facilitar a entrada de uma figura política estrangeira que, segundo relatos, deixou seu país em violação a uma ordem judicial?
12. O Departamento de Estado considerou as possíveis consequências diplomáticas para as relações entre os Estados Unidos e o Brasil, incluindo a possibilidade de que a assistência ao senador Bolsonaro fosse interpretada como interferência nos processos judiciais ou nos assuntos políticos internos do Brasil?
13. O Departamento de Estado recebeu alguma solicitação das autoridades brasileiras sobre a localização do senador Bolsonaro, sua situação de viagem ou uma possível entrada nos Estados Unidos? Em caso afirmativo, como o Departamento respondeu?
14. Qual foi a base legal para a emissão ou aprovação de vistos para o senador Bolsonaro e sua família? Quais categorias de visto e critérios de elegibilidade foram considerados, e o Departamento levou em conta as investigações criminais em andamento envolvendo o senador Bolsonaro ao tomar essa decisão?
15. Algum funcionário do governo americano na Argentina ou no Equador coordenou com o senador Bolsonaro o itinerário de sua viagem?
Diante das importantes questões levantadas por essas reportagens, solicitamos uma resposta por escrito às perguntas acima até 13 de novembro de 2026. Solicitamos também que o Departamento disponibilize funcionários competentes para uma reunião informativa com assessores do Congresso dentro desse prazo.
O povo americano e o Congresso têm um interesse legítimo de fiscalização em compreender se recursos diplomáticos e de imigração dos Estados Unidos foram utilizados para facilitar a viagem de uma figura política estrangeira nessas circunstâncias.
A transparência é particularmente importante quando os acontecimentos relatados envolvem um processo judicial estrangeiro, relações bilaterais sensíveis e a aplicação consistente das políticas americanas de imigração e diplomacia.
Aguardamos uma resposta rápida e completa.”
Fonte: G1.
