Por Anna-Beatriz Aflalo e Amanda Pinheiro – Cobertura Colaborativa Círio de Nazaré 2026
Quem já esteve na corda do Círio sabe que depois das dez da manhã, o sol deixa de ser paisagem e vira peso. Milhares de corpos colados, muitos descalços sobre o asfalto, transformam o calor em mais uma prova da promessa.
Neste domingo (11), essa prova tende a ser mais dura, já que no início da semana, Belém chegou a 37 °C, a maior temperatura para um mês de outubro em mais de 25 anos, segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET). Para as procissões, o meteorologista José Raimundo de Sousa, do INMET, prevê máximas acima da média, umidade entre 80% e 94% e sensação térmica perto de 40 °C.
Uma festa no auge do verão amazônico
O Círio é a maior procissão católica do Brasil, sendo estimadas, pela Diretoria da Festa de Nazaré, por volta de 2,3 milhões de pessoas no domingo, num percurso de 3,6 km que deve durar cerca de seis horas, com saída às 7h. Na véspera, a Trasladação deve reunir 1,9 milhão de pessoas por cerca de cinco horas.
A própria Cruz Vermelha no Pará avisou, ao apresentar o roteiro deste ano, que desidratação e insolação estão entre os atendimentos mais frequentes da quadra nazarena. Uma vez que exposições prolongadas do corpo humano ao calor causam estresse significativo ao metabolismo, tanto de quem participa ativamente quanto de quem assiste, o calor já é, portanto, um problema de saúde pública dentro da festa, já que, comprovadamente, eventos prolongados com caminhadas extensas têm as emergências térmicas como o principal diagnóstico clínico não traumático atendido em serviços de urgência.
A agência climática dos Estados Unidos (NOAA) calcula 98% de chance de um El Niño muito forte entre outubro e dezembro. O INMET explica que o efeito em Belém implicará menos chuva, menos nuvens e mais radiação solar chegando ao chão, o que agrava substancialmente as condições climáticas do natal dos paraenses.
Mas seria um erro culpar só o El Niño, posto que ele é, na verdade, um empurrão sobre um planeta que já está mais quente. Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), os 11 anos entre 2015 e 2025 foram, um a um, os mais quentes em 176 anos de registros.
O calor não é igual em todo o percurso
Uma pesquisa de doutorado sobre o clima urbano de Belém, defendida na USP, mediu ilhas de calor de até 4,5 °C a mais em bairros pouco arborizados, como Campina e Reduto. O pico acontecia entre 18h e 22h, em noites de céu limpo, o que prova que a cidade não esquenta por igual.
A Trasladação sai às 17h30 e atravessa justamente a Campina, à noite, quando o asfalto e as fachadas devolvem o calor acumulado durante o dia. Ou seja, parte do Círio caminha por dentro de uma ilha de calor.
No domingo, o contraste é visível a olho nu, já que as mangueiras das avenidas Presidente Vargas e Nazaré fazem sombra em parte do trecho do percurso de 3,6 km, entre a Catedral Metropolitana de Belém e a Basílica Santuário de Nazaré. Já o Boulevard Castilhos França é formado, em boa parte, por corredores de concreto, pedra e asfalto, expostos ao sol justamente nas horas mais quentes da manhã.
Fotos: Oliver Kornblihtt
Apesar de ser conhecida como Cidade das Mangueiras, e ser uma das principais capitais da Amazônia, Belém é menos verde do que gostamos de admitir. Estimativas recentes apontam cobertura vegetal de cerca de 39% da cidade, e a própria Secretaria Municipal de Meio Ambiente informa que apenas 10 espécies concentram mais de 90% das árvores plantadas na cidade. Pouca diversidade significa mais vulnerabilidade a pragas, quedas e calor.
Cada romaria, uma exposição diferente
O Círio é composto por 14 romarias, e cada uma encara o clima de um jeito. A Romaria Fluvial sai de Icoaraci às 8h e percorre cerca de 18,5 km pela Baía do Guajará. Na água não há sombra, e o reflexo do sol aumenta a radiação sobre quem está nos barcos. A Moto Romaria parte no fim da manhã, perto do pico de calor, com motor e asfalto somando temperatura.
No domingo, a corda concentra o maior esforço físico sob o sol mais forte. Nas semanas seguintes, a Romaria das Crianças e a Romaria da Acessibilidade reúnem pessoas que precisam de cuidado específico com o calor, como crianças pequenas, pessoas idosas e pessoas com deficiência que dependem de cadeiras, órteses ou acompanhantes por horas na rua.
Fotos: Oliver Kornblihtt
É urgente, então, planejar um Círio que seja seguro para todos os romeiros, turistas e trabalhadores das procissões. Pesquisas mostram que passos como planejamento, mitigação e atenção aos serviços de saúde são essenciais no combate ao estresse térmico de romeiros, profissionais e espectadores, com ações que devem permear toda a organização do evento.
Em 2025, uma ação dos Bombeiros contribuiu para alívio do calor com aspersão de água nos promesseiros da corda. Este ano, a Defesa Civil informou que 800 borrifadores serão distribuídos na Trasladação e Círio durante o percurso, buscando aliviar o calor da população, além do maior controle de picos climáticos para possíveis emissões de alertas. Outras ações possíveis são o reforço à hidratação, conscientização sobre o uso de roupas leves durante as horas de procissão e intervalos regulares para os profissionais a serviço das romarias.
Fotos: Oliver Kornblihtt
Quem trabalha sob o sol da festa
O Círio também é local de trabalho e, para muita gente, é um dos dias mais longos do ano. Só no domingo, cerca de 1.300 policiais estarão nas ruas, segundo a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (SEGUP), dentro de uma operação com mais de 5 mil agentes nas 14 romarias. Militares das Forças Armadas também atuam no apoio, mobilizando cerca de 1.900 militares do Exército Brasileiro e mais de 700 fuzileiros da Marinha do Brasil.
A Guarda de Nazaré, considerada a maior guarda católica do mundo, reúne cerca de 2.700 homens voluntários que acompanham a Berlinda e as estações da corda do começo ao fim das procissões, sem poder deixar o posto para buscar sombra.
Atrás da procissão vem outro exército, quase invisível, formado pelos funcionários da limpeza urbana. A empresa concessionária do serviço em Belém prevê 1.480 trabalhadoras e trabalhadores nas duas maiores procissões, 540 na Trasladação e 940 no Círio, para recolher cerca de 1,2 mil toneladas de resíduos em mais de 128 km de vias.
Ambulantes passam horas parados no mesmo ponto, muitos sem barraca, muitos trabalhadores informais, sem pausa garantida. Repórteres, fotógrafos e cinegrafistas, incluindo comunicadores da mídia independente e popular, carregam equipamentos no meio da multidão da madrugada ao meio da tarde. Todos os trabalhadores citados, cada um à sua maneira e necessidade, ficam muitas horas expostos ao calor intenso.
A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que mais de 2,4 bilhões de pessoas trabalham expostas a calor excessivo em algum momento, e associa o calor a quase 19 mil mortes e cerca de 23 milhões de lesões no trabalho por ano. A coleta de resíduos está entre os setores mais expostos.
Com o calor intenso, também sobe a procura por itens que ajudem a aliviar a temperatura. Ambulantes vendedores de sorvetes, bonés e chapéus, sombrinhas e leques já relatam aumento considerável nas vendas deste Círio, nas procissões que já ocorreram durante a semana.
A água que chega por cima e por baixo
O calor é só uma parte das possíveis complicações que relacionam clima e Círio. Uma atmosfera mais quente segura mais vapor d’água. Por isso, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) estima que as chuvas fortes ficam cerca de 7% mais intensas a cada grau de aquecimento.
Belém é uma cidade de baixadas, ou seja, parte importante do território continental da cidade é considerada área alagada ou alagável. Estudos do IBGE apontam que cerca de 40% da área urbana é ocupada por terrenos baixos e alagáveis, e pesquisas da UFPA mostram que, em alguns pontos, só a maré alta já basta para alagar ruas, mesmo sem chuva.
A OMM mostra que o ritmo de aumento do nível do mar praticamente dobrou, com crescimento de 2,1 mm por ano no início dos anos 1990 para 4,1 mm por ano na última década.
“Mas sempre fez calor no Círio”
É verdade. E o povo paraense sabe lidar com calor como poucos, mas estar acostumado não é o mesmo que estar adaptado. Afinal, a proporção mudou: o calor tem ficado cada vez mais pronunciado com o aumento generalizado das temperaturas globais, e vários estudos demonstram que é possível (e provável) que o limite de aquecimento de 1,5 °C estabelecido no Acordo de Paris seja ultrapassado.
Um levantamento da CarbonPlan com o jornal The Washington Post projetou que Belém pode ter 222 dias por ano de calor perigoso à saúde até 2050. No início dos anos 2000, eram registrados cerca de 50 dias como esses no ano.
Nenhuma tradição de fé foi pensada para esse cenário, e mudar a data, o horário ou o sentido do Círio não é nem uma possibilidade. Mas está cada vez mais clara a necessidade de qualificar Belém e adaptar os cenários para um Círio mais seguro.
O que dá para fazer e quem decide o que será feito?
Mapear o calor do percurso. Universidades e o INMET podem medir temperatura e sombra ao longo das romarias. Com esse mapa, a Diretoria da Festa, a Secretaria Municipal de Saúde e a Cruz Vermelha, além de outras instituições como Bombeiros e Defesa Civil, podem planejar melhor a distribuição de postos de atendimento e de água onde o risco à saúde for maior.
Criar um protocolo de calor para grandes eventos. A Prefeitura e a Defesa Civil podem adotar níveis de alerta, com ações automáticas a cada faixa de temperatura, bem como sugerir mais pontos de hidratação em comunicação direta com os romeiros.
Tratar sombra como infraestrutura. É urgente pensar no sombreamento do Boulevard Castilhos França, seja através da arborização ou de recursos temporários que protejam os romeiros e não impactem na visibilidade dos espectadores que assistem à procissão dos edifícios e calçadas.
Bebedouros públicos permanentes no centro. Água gratuita não pode depender só da boa vontade de voluntários. Há a necessidade latente de instalação de pontos de hidratação durante o percurso.
Colocar o clima na salvaguarda do patrimônio. O Círio é patrimônio cultural imaterial do Brasil e da humanidade. Proteger um patrimônio vivo também é proteger os corpos que o mantêm vivo. O plano de salvaguarda, conduzido com o IPHAN, precisa incluir o risco climático na pauta, entendendo os picos do clima como alertas e ameaças à preservação do patrimônio.
A corda só anda porque milhares de mãos fazem força na mesma direção, e a adaptação ao clima funciona do mesmo jeito. O Círio nos lembra que várias outras coisas estão sob ameaça do calor extremo, para além das atividades cotidianas. Se queremos que as próximas gerações continuem acompanhando a Berlinda pelas ruas de Belém, a cidade precisa começar a puxar essa corda agora.
Fonte: Mídia Ninja.
