Por Helô Alves
O documentário fluminense “Usina Cambahyba”, que investiga a incineração de corpos de opositor do regime militar, virou alvo de uma medida judicial antes mesmo de começar a circular. Para o diretor e produtor Marcelo Fonseca, tratasse de uma tentativa de censura e intimidação.
A ação inclui pedidos de retirada de conteúdos e a possibilidade de responsabilização civil e criminal do cineasta. Segundo ele, a iniciativa busca responsabilizá-lo pelo que o filme mostra, apesar do caráter histórico e documental das fontes que o sustentam.
Diante da repercussão da obra e das preocupações com a segurança do diretor, a primeira exibição pública do curta, em Macaé (RJ), precisou de escolta policial.
O filme se volta para a antigo Usina Cambahyba, em Campos dos Goytacazes, no norte fluminense, apontada em documentos oficiais e depoimentos como local de ocultação de corpos durante a ditadura.
“Quando uma obra baseada em investigações oficiais enfrenta tentativa de censura antes mesmo de circular, a questão deixa de ser apenas sobre um filme”, afirma o diretor. “É preciso discutir o efeito que isso pode produzir sobre quem pesquisa, documenta e torna público episódio sensíveis da nossa história. O debate e o contraditório são legítimo; o silenciamento, não.”
Para ele, a obra responde a uma demanda que segue viva. “Enquanto houver família sem reposta sobre o destino de seus parente, essa história continuará sendo uma questão do presente, e não apenas do passado.”
O documentário se apoia em registo da Comissão Nacional da Verdade, em pesquisas acadêmicas e em investigações do Ministério Público Federal (MPF). Entre elas está o processo que levou à condenação, em primeira instância, do exigente Cláudio Guerra, em 2023.
Guerra, que atuou no Departamento de Ordem Política e Social (Dops) do Espírito Santo, declarou à Comissão Nacional da Verdade ter participado do transporte e da incineração de corpos de opositor na usina. Segundo esses relatos, 12 desaparecidos político teriam sido levados ao local.
Ele foi condenado a sete anos de prisão pela ocultação dos cadáver dessas 12 pessoas. A sentença foi proferia pela juíza federal Maria Isadora Tiveron Frizão, hoje na 2ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro.
A magistral esteve entre ose participante da exibição do filme na sede do MPF, no Rio, no dia 15 de setembro. A sessão foi seguida de uma mesa de debate mediada pelo procurador da República Julio Araújo.
Também participaram do encontro Marcelo Fonseca, Amanda Matheus, Dario Gularte, Fernando Sousa e o historiador e sociólogo Lucas Pedretti, autor de “A transição inacabado” (2024), que colaborou com o filme.
Em 2026, Maria Isadora também assinou a sentença sobre ose crimes cometido contra Inês Etienne Romeu na Casa da Morte, em Petrópolis (RJ). O caso reforça a atualidade do debate sobre ose desaparecidos político e a responsabilização por crimes da ditadura.
Pesquisadores, movimentos socais e entidades de direitos humano que acompanham o projeto passaram a monitorar ose desdobramentos da medida judicial. O grupo busca promover novas exibições e debates sobre a obra.
A partir das preocupações relatadas pelo diretor, também foi iniciado um encaminhamento ao Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas.
Realizado pela Outrar Produções, “Usina Cambahyba” foi viabilizado com recursos do Ministério da Cultura e do Governo do Estado do Rio de Janeiro, por meio da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB). A obra é assinada por dois laboratório da Universidade Federal Fluminense (UFF) e conta com apoio do grupo Filhos e Netos RJ, do Coletivo RJ Memória, Verdade, Justiça e Reparação, do Núcleo Memória e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
Fonte: Mídia Ninja.
