Por Thiago Lima
Hoje, 16 de outubro, é um dia muito especial: o Dia Mundial da Alimentação. E nós, brasileiros, temos muito do que nos orgulhar.
É muito raro um país deixar sua marca na História Mundial. E nós conseguimos isso no século XXI.
Para entender melhor, vamos voltar à Inglaterra. Foi lá que a Revolução Industrial ganhou força e mudou o mundo. Não é que só existissem máquinas a vapor por lá. Mas foi ali que se consolidou a ideia de combinar fontes de energia, peças e engrenagens para que as máquinas realizassem tarefas repetitivas antes executadas por seres humanos. O resultado foi um salto na produção e na produtividade. O mundo inteiro aprendeu com essa experiência.
Os Estados Unidos, por sua vez, deram uma contribuição decisiva ao desenvolvimento da agroindústria. Não é que só lá existissem tratores, colheitadeiras e outras máquinas agrícolas. Mas foi naquele país que a união dos princípios industriais à produção agrícola mais se desenvolveu, dando origem aos complexos agroindustriais e inspirando o mundo inteiro. O Brasil foi um dos países que seguiram esse caminho e se tornou uma potência agrícola, superando os próprios Estados Unidos em diversos setores.
Mas foi aqui, no Brasil, que demos um passo importante na compreensão de como vencer a fome em um país do Sul Global: não basta distribuir pratos de comida e cestas básicas, que são gestos bonitos de solidariedade, empatia e urgência. É preciso articular um conjunto de políticas que funcionem como peças de uma mesma engrenagem.
Assim como no caso das máquinas, o Brasil entendeu que, para vencer a fome em uma sociedade em desenvolvimento, precisamos fazer diferentes mecanismos trabalharem juntos:
- Reduzir o desemprego, para que mais pessoas tenham acesso a uma fonte estável de renda.
- Aumentar o salário mínimo acima da inflação, ano após ano, para que os trabalhadores ganhem poder de compra.
- Garantir que as aposentadorias também não percam para a inflação, protegendo a renda de quem já trabalhou a vida inteira.
- Proteger as crianças da fome por meio de uma alimentação escolar de qualidade. Afinal, ninguém aprende de estômago vazio. E, quando a escola oferece refeições, também ajuda a aliviar o orçamento das famílias.
- Garantir mercados para a agricultura familiar e camponesa, com compras públicas que paguem um valor justo para quem produz. Com renda garantida, pequenos agricultores podem viver melhor, investir na produção e ampliar a oferta de alimentos, contribuindo para abastecer o mercado e baratear a comida.
- Fazer a economia crescer e gerar prosperidade, para que o desenvolvimento se traduza em melhores condições de vida para a população.
- Garantir proteção social a quem mais precisa, com programas como o Bolsa Família, especialmente enquanto as famílias ainda não encontram um emprego, um serviço autônomo ou deslancham seu lado microempreendedor.
Essa engrenagem ganhou um nome no primeiro governo Lula: Fome Zero.
Sua grande contribuição foi articular políticas de renda, emprego, produção agrícola, alimentação escolar e proteção social em uma estratégia integrada de combate à fome. Uma abordagem que dialoga com compromissos internacionais e ajudou a projetar a segurança alimentar no centro da agenda global de desenvolvimento, incluindo os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU.
Assim como a Inglaterra não foi o único país a desenvolver máquinas, nem os Estados Unidos o único a mecanizar a agricultura, o Brasil não é o único país capaz de combater a fome. A nossa contribuição foi mostrar como diferentes políticas podem funcionar em conjunto, como peças de uma engrenagem bem ajustada.
E a história brasileira também nos ensinou o que acontece quando essa engrenagem é desmontada. Nos governos Temer e Bolsonaro, o desmonte de políticas públicas e a deterioração das condições de vida contribuíram para que o Brasil voltasse ao Mapa da Fome. Claro que a pandemia não ajudou. Mas, se a máquina estivesse bem cuidada, certamente não veríamos o povo na fila do osso.
Com o retorno do governo Lula, em 2023, a estratégia foi retomada e atualizada. Em poucos anos, o país voltou a registrar avanços expressivos na segurança alimentar e, em 2025, saiu novamente do Mapa da Fome, segundo os critérios da ONU. A experiência brasileira mostrou, mais uma vez, que políticas públicas articuladas podem produzir resultados concretos e eficazes no combate à fome: cerca de 30 milhões de pessoas deixaram a insegurança alimentar severa ou moderada na segunda saída do Mapa.
Isso não significa que o problema esteja definitivamente resolvido no Brasil. Significa que sabemos muito mais sobre como enfrentá-lo — e que temos uma experiência concreta para compartilhar com o mundo. Com engenhosidade, venceremos as dificuldades atuais para ampliar o acesso a dietas saudáveis e derrotar a inflação de alimentos.
Neste Dia Mundial da Alimentação, os países têm a oportunidade de refletir sobre o segundo Objetivo de Desenvolvimento Sustentável: ODS 2 — Fome Zero e Agricultura Sustentável.
E nós, brasileiros e brasileiras, temos motivos para nos orgulhar de nossa contribuição. Não porque tenhamos inventado sozinhos cada uma dessas políticas, mas porque mostramos a sofisticação técnica e a vontade Política para empregar nossos suados impostos na construção desta estratégia complexa e que pode fazer um grande bem para a humanidade.
A Revolução Industrial mudou a maneira como o mundo produz. A agroindústria transformou a agricultura. E o Fome Zero ajudou a demonstrar que vencer a fome numa sociedade do Sul Global demanda muito mais do que doar alimentos: exige um conjunto articulado de medidas e políticas públicas. E exige, acima de tudo, Vontade Política.
Essa é a nossa marca na História do século XXI. E que marca boa, hein?
Feliz Dia da Alimentação! E vamos em frente, porque enquanto houver gente com fome, não podemos parar.
Fonte: Mídia Ninja.
