- Experiências diferentes dentro do mesmo esporte
- Quando o preconceito atinge uma pessoa, mas afeta muitas
- A proteção começa antes do esporte profissional
- Atletas trans e uma lacuna ainda maior
- Quando os clubes transformam posicionamento em ação
- Segurança precisa virar política
- O que fazer quando a discriminação acontece?
- Um esporte seguro é aquele em que ninguém precisa escolher entre competir e ser quem é
Por Anna Ketleen Alves
Para um atleta, segurança não significa apenas estar protegido de lesões ou de violência física. Também significa poder treinar, competir e construir uma carreira sem precisar esconder quem é. No esporte, onde relações de equipe, vestiários, torcidas e exposição pública fazem parte da rotina, criar ambientes seguros para pessoas LGBTQIAPN+ exige mais do que combater episódios isolados de preconceito.
No Brasil, ainda existem lacunas na produção de dados sobre atletas LGBTQIAPN+. Uma pesquisa realizada pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), pelo Observatório da Discriminação Racial no Futebol e pela Nike ouviu 508 profissionais ligados às principais divisões do futebol brasileiro. Entre os homens entrevistados, 1% se declarou homossexual ou bissexual.
Esse número não representa necessariamente a quantidade de atletas LGBTQIAPN+ no futebol brasileiro. O próprio levantamento aponta que o medo de sofrer consequências profissionais pode influenciar a decisão de revelar a orientação sexual.
Entre os episódios de homofobia identificados na pesquisa, 61% estavam relacionados às torcidas: 36% à torcida adversária e 25% à torcida do próprio time. Isso mostra que a segurança do atleta não depende apenas do ambiente interno do clube. Arquibancadas, redes sociais e outros espaços que cercam as competições também fazem parte dessa discussão.
Experiências diferentes dentro do mesmo esporte
Mesmo entre atletas que compartilham a mesma orientação sexual, as experiências podem ser completamente diferentes. O campeão olímpico Douglas Souza chegou ao Cruzeiro, em 2024, receoso com a possibilidade de não ser bem recebido pela torcida. Após receber comentários homofóbicos nas redes sociais, o clube publicou um manifesto pedindo respeito ao jogador. Ao fim da temporada, Douglas afirmou ter se surpreendido positivamente com a recepção e disse ter superado o medo da homofobia no clube.
Já Maique Reis, também do vôlei, fala publicamente sobre sua homossexualidade e sobre a importância da representatividade. Em entrevista à ESPN, afirmou que ainda existe muito preconceito no esporte, mas disse não ter vivenciado episódios de discriminação dentro de quadra desde que se tornou profissional.
As experiências não se contradizem. Elas mostram por que atletas LGBTQIAPN+ não podem ser tratados como um grupo homogêneo. O ambiente, a modalidade, a equipe e a relação com a torcida podem produzir vivências muito diferentes.
Por isso, políticas de inclusão precisam considerar as pessoas que serão afetadas por elas. Clubes e federações devem criar espaços para que atletas possam relatar suas experiências, apontar problemas e participar da construção de soluções.
Quando o preconceito atinge uma pessoa, mas afeta muitas
A LGBTfobia não atinge apenas quem recebe diretamente uma ofensa. Em 2024, durante uma etapa do Circuito Brasileiro de Vôlei de Praia, Anderson Melo foi alvo de ofensas homofóbicas durante uma partida. O episódio também repercutiu entre outros atletas. Vinicius Freitas, que é gay e disputava a mesma competição, falou publicamente sobre o caso e sobre o impacto de ver um amigo sendo atacado.
Uma ofensa dirigida a uma pessoa também pode enviar uma mensagem para toda uma comunidade sobre quem é considerado pertencente àquele espaço. Quando insultos são tolerados, outros atletas podem entender que revelar sua identidade representa um risco para a carreira.
Por isso, pessoas heterossexuais e cisgênero também têm responsabilidade no combate à LGBTfobia. Não reproduzir uma ofensa é apenas o ponto de partida. Interromper um comentário preconceituoso, apoiar quem foi alvo, denunciar e cobrar posicionamentos são formas de agir contra a discriminação.
Essa responsabilidade também precisa chegar às torcidas. Cânticos e manifestações homofóbicas ou transfóbicas podem ser submetidos a mecanismos de responsabilização previstos na Justiça Desportiva e nos regulamentos das competições. O desafio é garantir que essas normas sejam aplicadas de forma consistente, inclusive quando as ofensas partem das arquibancadas ou das redes sociais.
A proteção começa antes do esporte profissional
A construção de ambientes seguros precisa começar nas escolas, nas escolinhas e nas categorias de base. Professores, treinadores e responsáveis têm papel importante para impedir que piadas, apelidos e ameaças sejam tratados como parte natural da formação esportiva.
Quando a LGBTfobia é ignorada na adolescência, muitos jovens podem abandonar a atividade física antes de chegar ao esporte competitivo. Por isso, a prevenção deve incluir educação sobre respeito e diversidade, formação de profissionais e protocolos para lidar com denúncias desde as primeiras etapas da trajetória esportiva.
Atletas trans e uma lacuna ainda maior
As experiências de atletas trans acrescentam outra camada à discussão. Além dos debates sobre categorias e regulamentos, existe a necessidade de garantir que essas pessoas possam permanecer no esporte sem que sua identidade seja constantemente transformada em um obstáculo.
Uma revisão sistemática publicada em 2017 na revista Sports Medicine analisou pesquisas sobre a participação de pessoas trans no esporte e políticas esportivas relacionadas a essa população. O estudo identificou barreiras como a falta de ambientes inclusivos e confortáveis e apontou que as experiências relatadas no esporte competitivo eram predominantemente negativas. Os pesquisadores também destacaram a escassez de estudos quantitativos sobre o tema.
No Brasil, a produção de dados sobre atletas LGBTQIAPN+ também é limitada. Entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, o Ministério do Esporte realizou uma consulta pública sobre os desafios e as demandas da população LGBTQIA+ no esporte e na atividade física. A iniciativa buscou reunir experiências, percepções e propostas para políticas de inclusão, diversidade e combate à discriminação.
A consulta representa uma tentativa recente de reunir informações sobre essa população no esporte. No caso das pessoas trans, a revisão publicada em 2017 já apontava a falta de pesquisas quantitativas sobre sua participação esportiva.
Por isso, criar políticas para essa população também passa por produzir conhecimento sobre ela e ouvir os próprios atletas. No cotidiano, isso inclui respeitar o nome e os pronomes utilizados pela pessoa, proteger sua privacidade e evitar procedimentos que causem constrangimento em cadastros, vestiários, uniformes e competições.
Quando os clubes transformam posicionamento em ação
Algumas instituições esportivas já mostram formas de tornar a inclusão visível. O Vasco da Gama realizou diferentes ações contra a homofobia e a transfobia. Em 2021, o clube lançou uma camisa em apoio à comunidade LGBTQIAPN+ e entrou em campo com o uniforme durante uma partida em São Januário. No ano seguinte, realizou outra ação contra a discriminação, desta vez com participação da torcida. Em 2023, lançou uma nova camisa relacionada à causa e informou que o lucro da iniciativa seria destinado à Casa Nem, organização de acolhimento à população LGBTQIAPN+ no Rio de Janeiro.
No vôlei, o caso de Douglas Souza mostra outra possibilidade: agir quando o atleta é alvo de ataques. O Cruzeiro se posicionou publicamente em defesa do jogador após os comentários homofóbicos recebidos nas redes sociais.
Campanhas e manifestações públicas não resolvem sozinhas a discriminação, mas ajudam a estabelecer uma mensagem institucional. Para que tenham efeito, precisam ser acompanhadas de medidas concretas, como regras claras contra comportamentos discriminatórios, formação de treinadores, dirigentes e funcionários, canais seguros de denúncia, protocolos para lidar com situações de violência, proteção contra retaliações, acompanhamento dos casos até sua conclusão e avaliação periódica do ambiente esportivo. A responsabilidade de criar um ambiente seguro não pode ser transferida para o atleta que já está em uma posição de vulnerabilidade.
Segurança precisa virar política
Um posicionamento público pode ser importante, mas não é suficiente. Para que um atleta realmente saiba que está protegido, clubes, federações e equipes precisam definir quais comportamentos não serão aceitos, quem receberá as denúncias e quais medidas serão tomadas em cada situação.
Essa proteção deve abranger o ambiente interno dos clubes, as arquibancadas e as redes sociais, onde parte significativa dos episódios de homofobia pode ocorrer. Também é preciso preparar quem trabalha no esporte. Treinadores, dirigentes, profissionais de saúde, funcionários e atletas precisam saber reconhecer situações de discriminação e entender como agir diante delas.
O Programa Esporte Seguro, do Comitê Olímpico do Brasil, atua com prevenção, educação e formação da comunidade esportiva. Para atletas LGBTQIAPN+, isso inclui garantir privacidade e respeito à identidade. Ninguém deveria precisar se expor para provar que merece permanecer em uma equipe. Uma política de segurança precisa responder a uma pergunta simples: o que acontece quando algo dá errado? Se o atleta sabe a quem recorrer, como denunciar e quais medidas serão tomadas, a proteção deixa de ser apenas um discurso e passa a fazer parte da estrutura do esporte.
O que fazer quando a discriminação acontece?
Um ambiente seguro também precisa oferecer caminhos para quem sofre uma violação.
O Comitê Olímpico do Brasil mantém o Canal de Ouvidoria e Ética, dentro do Programa Esporte Seguro. O canal funciona 24 horas, permite relatos identificados ou anônimos e é destinado a integrantes do movimento olímpico, participantes de competições, colaboradores, prestadores de serviço e voluntários.
O atendimento pode ser feito pelo telefone 0800 591 5446 ou pelo WhatsApp +55 31 98947-7889.
O Ministério do Esporte também recebe denúncias e reclamações pela plataforma Fala.BR e mantém o Disque Esporte, pelo telefone 0800 942 9100. O Disque 100, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, recebe gratuitamente, 24 horas por dia, denúncias de violações de direitos humanos.
Esses canais não substituem os mecanismos internos de clubes e federações, mas mostram que denunciar uma situação de violência ou discriminação não precisa depender apenas da iniciativa individual do atleta. É importante preservar mensagens, vídeos, súmulas, nomes de testemunhas e outras informações que possam ajudar na apuração.
Um esporte seguro é aquele em que ninguém precisa escolher entre competir e ser quem é
A discussão sobre segurança no esporte costuma estar associada à prevenção de lesões e à violência física. Para atletas LGBTQIAPN+, ela também passa por algo menos visível: poder treinar, competir e construir uma carreira sem precisar esconder quem são.
As diferentes experiências de atletas mostram que não existe uma única realidade dentro da comunidade LGBTQIAPN+. Por isso, também não existe uma solução única. Criar ambientes seguros exige ouvir quem vive essas experiências, preparar instituições e profissionais para agir diante da discriminação e entender que a responsabilidade pelo combate à LGBTfobia também é de quem não pertence à comunidade.
O esporte só pode ser considerado verdadeiramente seguro quando ninguém precisa esconder quem é para continuar fazendo parte dele.
