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Democratas retomam Câmara e Senado dos EUA e conquistam vitória histórica no Texas

Partido vira ao menos sete cadeiras no Senado. Fernando Brigidi, ex-integrante da equipe de Kamala Harris, analisa a derrota de Trump O post Democratas retomam Câmara e Senado dos EUA e conquistam vitória histórica no Texas apareceu primeiro em Mídia NINJA.

Por Vinicius Francisco

Os democratas retomaram o controle da Câmara dos Representantes e do Senado dos Estados Unidos nas eleições de meio de mandato, realizadas nesta terça-feira (3). O partido venceu disputas em estados onde não elegia senadores há décadas e conquistou a maioria no Congresso, impondo uma derrota a Donald Trump, que terá de enfrentar uma oposição fortalecida nos dois últimos anos de seu mandato.

No Senado, os democratas conquistaram ao menos sete cadeiras que estavam nas mãos dos republicanos, com vitórias no Texas, Kansas, Iowa, Ohio, Maine, Carolina do Norte e Carolina do Sul. No Kansas, Adam Hamilton se tornou o primeiro democrata eleito senador desde 1932. Na Carolina do Sul, Annie Andrews derrotou Darline Graham, candidata apoiada por Trump.

O resultado mais expressivo veio do Texas, um dos principais redutos republicanos do país. James Talarico derrotou Ken Paxton na disputa pelo Senado e se tornou o primeiro democrata eleito para o cargo no estado desde 1988. Na eleição para o governo estadual, Gina Hinojosa venceu Greg Abbott e se tornou a primeira mulher latina a governar o Texas. Os democratas também conquistaram a maioria na Câmara estadual, após mais de duas décadas de domínio republicano.

A vitória ocorreu em meio à insatisfação dos americanos com a economia. Segundo uma pesquisa da Associated Press realizada com eleitores, cerca de oito em cada dez entrevistados disseram enfrentar dificuldades financeiras provocadas pela inflação. O custo de vida, a guerra no Irã e as preocupações com a corrupção no governo estiveram entre os principais temas da disputa.

Mas o que explica uma vitória democrata dessa dimensão, inclusive em estados historicamente republicanos? O resultado representa uma recuperação da confiança no partido ou, sobretudo, uma rejeição ao governo Trump?

Para o brasileiro Fernando Brigidi, que trabalhou nas campanhas de Pete Buttigieg e Joe Biden e foi diretor-adjunto de Relações Institucionais e Engajamento Público no gabinete da então vice-presidente Kamala Harris, na Casa Branca, a resposta passa pelo descontentamento dos eleitores com as promessas não cumpridas pelo presidente.

Em entrevista à Mídia NINJA, Brigidi lembra que as eleições de meio de mandato costumam ser difíceis para o partido que ocupa a Presidência, já que funcionam como uma avaliação dos primeiros dois anos de governo. Desta vez, porém, ele considera que a dimensão da derrota republicana ultrapassou o desgaste eleitoral esperado.

“O eleitorado que votou no presidente Trump em 2024 esperando que ele cumprisse suas promessas de reduzir o custo de vida e não iniciar novas guerras está se sentindo fortemente traído”, afirma Fernando.

Crédito: @fernandobrigidi

Além da frustração com a economia, Brigidi aponta a mobilização dos eleitores democratas diante das medidas adotadas pelo governo contra imigrantes e da percepção de corrupção na Casa Branca. Na avaliação dele, essa combinação ajuda a explicar por que o partido conseguiu avançar mesmo em estados que haviam dado ampla vantagem a Trump na eleição presidencial de 2024.

“Esse foi principalmente um voto de rejeição ao governo Trump, mas as margens altíssimas em estados tradicionalmente republicanos demonstram que existe uma oportunidade para os democratas”, analisa.

A vitória também muda a relação entre a Casa Branca e o Congresso. Com a maioria nas duas Casas a partir de janeiro de 2027, os democratas poderão ampliar as investigações sobre o governo, barrar propostas republicanas e ter maior poder de negociação sobre o orçamento federal.

Questionado sobre o impacto dessa mudança nos próximos dois anos, Fernando Brigidi avalia que Trump perderá a liberdade política que teve durante a primeira metade de seu mandato, quando contava com uma maioria republicana disposta a apoiar suas iniciativas.

“Efetivamente, é o fim do governo Trump como vimos até aqui”, afirma.

Brigidi acredita que o orçamento será um dos principais instrumentos de pressão dos democratas. Sem um acordo com o Congresso, o governo poderá enfrentar dificuldades para financiar suas atividades e aprovar novas medidas.

“A Casa Branca vai ser obrigada a negociar com os democratas em tudo, sob o risco de ficar totalmente paralisada se o orçamento não for aprovado”, diz.

Legenda: Fernando Brigidi durante reunião com a ex-vice-presidente dos Estados Unidos, Kamala Harris

Isso não significa que Trump perderá suas atribuições presidenciais. Ele continuará podendo vetar projetos aprovados pelo Congresso e exercer os poderes do Executivo. A diferença é que os democratas terão mais condições de fiscalizar o governo e negociar mudanças em políticas públicas. Para Brigidi, o partido poderá usar essa posição para pressionar por medidas relacionadas ao custo de vida e à proteção dos direitos civis e migratórios.

O avanço democrata também abre uma discussão sobre a eleição presidencial de 2028. Embora a vitória tenha sido expressiva, Fernando considera precipitado interpretá-la como sinal de apoio permanente ao partido. Ele chama a atenção para os eleitores que ajudaram a eleger Trump em 2024 e, dois anos depois, escolheram candidatos democratas.

“Muitos dos eleitores que votaram em Trump em 2024 agora votaram em candidatos democratas. O que essa vitória revela é que o eleitor está muito atento ao que os seus representantes estão entregando e menos preocupado com rótulos políticos”, afirma.

Para quem participou das campanhas de Biden e Kamala Harris, o principal desafio dos democratas será aproveitar o resultado sem perder de vista os motivos que levaram parte do eleitorado a mudar de posição. Brigidi defende que o partido trate a vitória com cautela e use os próximos dois anos para construir uma proposta política capaz de responder às dificuldades econômicas dos americanos.

“Eu acho importante os democratas entenderem essa vitória como circunstancial e a receberem com humildade para que possam fazer uma reflexão lúcida dos resultados e uma preparação de uma plataforma política forte e inovadora para 2028.”

Entre os temas que considera fundamentais para a próxima eleição presidencial estão a concentração de riqueza e os impactos da inteligência artificial sobre o trabalho, o meio ambiente e a sociedade. Brigidi também acredita que o partido precisa acompanhar as mudanças na maneira como os eleitores consomem informação política, cada vez mais pelas redes sociais e menos pelos veículos tradicionais.

Ele defende que os democratas apresentem uma proposta que vá além da oposição a Trump e consiga dialogar com as preocupações de trabalhadores e pequenos empreendedores. Para Fernando, o partido precisa olhar para as mudanças econômicas e sociais que já estão influenciando o comportamento dos eleitores.

“É importante que os democratas olhem para a frente e apresentem uma visão de futuro otimista”, afirma.

Na avaliação do brasileiro, essa visão precisa levar em conta uma realidade política mundial “cada vez menos dividida entre esquerda e direita e cada vez mais dividida entre os ultrarricos e poderosos de um lado e os trabalhadores e empreendedores do outro”.

Fonte: Mídia Ninja.

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