Culturatividade: quando o teatro brasileiro rompe muros, ocupa plateias e salva memórias

Portal Inhaí
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Em um país onde o acesso à cultura ainda é privilégio de poucos, iniciativas que democratizam o encontro entre público e arte não apenas ampliam horizontes, como também reafirmam a potência transformadora do teatro brasileiro. É nesse território fértil que atua o projeto Culturatividade, desenvolvido pela ONG ABCD’S – Ação Brotar pela Cidadania e Diversidade Sexual, que desde 2010 constrói pontes invisíveis entre a cultura e populações em situação de alta vulnerabilidade social.

Sem vínculos financeiros, mas sustentado por um compromisso profundo com a inclusão, o projeto ocupa espaços, amplia visibilidades e garante acesso gratuito a grandes espetáculos musicais, peças de teatro, sessões de cinema e shows. Uma política de presença. Um gesto concreto de cidadania cultural.

No último domingo, essa travessia ganhou contornos históricos com a ida de participantes do Culturatividade ao musical “A Ópera do Malandro”, obra inspirada no clássico de Chico Buarque, apresentada com um elenco de peso que inclui José Loreto, Carol Costa, Totia Meireles, Ernani Moraes, Amaury Lorenzo, Andrezzsa Massef, Valéria Barcellos, entre outros nomes consagrados da cena nacional.

O espetáculo, por si só, já se impõe pela grandiosidade estética e pela atualidade dos temas que atravessam a narrativa. Mas foi em um momento específico que o teatro respirou mais fundo. A atuação de Valéria Barcellos, atriz travesti, transformou o palco em manifesto vivo ao interpretar a canção “Geni”. Sua performance foi mais que interpretação: foi denúncia, metáfora e grito. Ao cantar, Valéria escancarou a realidade de que a transfobia mata. O silêncio que antecedeu os aplausos deu lugar a uma plateia inteira em pé, emocionada, com lágrimas visíveis e uma certeza coletiva no ar: o teatro ainda é um dos espaços mais poderosos de enfrentamento e transformação social.

A emoção também ecoou no público que participou da ação. Isabelly, frequentadora assídua das atividades culturais promovidas pela ONG, relatou a força do momento:

“Já assisti a vários musicais pela ABCD’S, como O Fantasma da Ópera, Anastácia, Clara Nunes e Tim Maia. A Ópera do Malandro foi emocionante do começo ao fim. Quando Valéria entrou em cena, não deu para segurar. Eu estava com duas amigas trans e foi arrebatador. O teatro veio abaixo. A bandeira trans levantada, o grito contra a transfobia… quero mais e mais.”

Para Marcelo Gil, articulador da ONG, o espetáculo também simboliza um momento mais amplo da cultura brasileira:

“Vivemos um tempo de reconhecimento do cinema nacional, com grandes conquistas internacionais. Isso se reflete também no teatro. A Lei Rouanet e o apoio do Ministério da Cultura têm possibilitado grandes produções, musicais que já entram para a história, como Tim Maia, Clara Nunes e outros e agora A

Ópera do Malandro. É uma obra que fala diretamente com o presente, abordando intolerância religiosa e a presença trans como um grito urgente contra a transfobia.”

A experiência foi igualmente marcante para Paloma Lambertyne, que participou da atividade após a Caminhada Trans realizada no mesmo dia:

“Foi diferente, especial. Ver duas mulheres trans brilhando naquele palco foi emocionante. Saí do teatro com o coração cheio.”

Em um Brasil onde o acesso à cultura ainda encontra barreiras estruturais, iniciativas como o Culturatividade mostram que políticas públicas de incentivo, aliadas ao trabalho incansável da sociedade civil, podem redesenhar plateias e narrativas. Assim como grandes musicais permanecem anos em cartaz, criando memória coletiva, é urgente que o teatro brasileiro seja ampliado, valorizado e celebrado como patrimônio vivo.

Se o cinema brasileiro começa a conquistar o mundo, agora é hora de acender ainda mais os refletores sobre nossos palcos. Nossos atores, nossas histórias e nossa diversidade mostram, noite após noite, que o teatro segue exemplar, necessário e profundamente transformador.

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