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Todo mundo, sendo religioso ou não, pelo menos já ouviu falar da parábola de Jonas e a Baleia (tecnicamente “grande peixe”, mas é muito mais comum a referência direta à baleia), que ganhou famoso eco na história de Pinóquio, seja no romance original em que o boneco que quer ser menino é engolido por um enorme e fictício “Peixe-Cão”, seja na animação da Disney em que o monstro toma a forma de um cetáceo. Se essas sem dúvida foram as inspirações mediatas de Daniel Kraus para escrever Whalefall em razão das conexões entre pai e filho nelas contidas (Deus e Jonas e Gepeto e Pinóquio), a imediata foi o vídeo viral de 2020 em que um remador em um caiaque é brevemente “engolido” por uma baleia-jubarte, despertando a curiosidade no autor sobre a possibilidade real de isso acontecer para valer, além de algo de alguns breves segundos.
E, munido dessa missão autoimposta, ou seja, a de escrever um romance em que essa situação torne-se cientificamente possível ou pelo menos verossímil, ele partiu para municiar-se de pesquisas e conversas com biólogos marinhos especializados em baleias, que resultaram em uma obra coesa, pulsante e que, de forma muito sagaz, bebe do mito bíblico, da citada fonte literária moderna e, com grande afinco, de bases cientificamente redondas, ou, no mínimo, redondas o suficiente para leigos em cetáceos como eu. No entanto, mais interessante do que “uma história sobre um mergulhador que é engolido por uma baleia”, Whalefall é uma narrativa sobre conexão entre pai e filho, culpa, expiação de pecados e uma jornada de autodescoberta que usa o extravagante contexto marinho para lidar com isso, ou seja, Kraus foge de uma narrativa que parte de uma premissa e faz da premissa seu próprio fim para entregar algo com significado.
Na história, Jay Gardiner, um adolescente de 17 anos que, dois anos antes, saíra de casa para viver com uma família amiga em razão do desgaste profundo de sua relação com seu pai Mitt, parte para mergulhar na costa da Califórnia, mais exatamente na perigosa Praia do Monastério, para recuperar a ossada de seu progenitor, que morrera ali alguns meses antes. As circunstâncias exatas da morte e do estresse entre pai e filho são aspectos relevantes para o desenvolvimento da narrativa, pelo que me restringirei a afirmar que o mergulho de Jay atrás dos restos mortais do pai é uma maneira de ele justificar para si mesmo uma reaproximação com sua mãe e suas duas irmãs mais velhas, que, claro, se metamorfoseia em um veículo para ele compreender exatamente quem ele é e quem seu pai foi.
Tendo sido forçado por Mitt, uma lenda local no que se refere a mergulhos, a aprender tudo sobre o assunto desde tenra idade, o que inclui fatos científicos sobre a vida marinha, Jay é um mergulhador capaz, mas que duvida de si mesmo, algo amplificado pelo seu distanciamento de dois anos desse hobby herdado, e sua decisão de resgatar os ossos do pai também pode ser vista como uma forma de autopunição e até de desafio. E, lógico, a presença de uma cachalote que, por uma sucessão de coincidências, acaba engolindo-o vivo, é a alegoria que faltava para que Jay finalmente mergulhe – com trocadilho – em uma terapia intensiva sobre si, sobre seu pai e sobre esse relacionamento tão problemático.
Intercalando capítulos em contagem regressiva a partir da pressão de um cilindro de mergulho cheio – 3 mil PSI, sigla de “libras por polegada quadrada” – com outros não lineares que contam algumas anedotas da vida de Jay com Mitt, mas todos muito curtos, alguns com meras três ou quatro palavras e raramente mais do que três páginas, a leitura é naturalmente fácil e veloz, difícil de parar, com Daniel Kraus quase escrevendo em tempo real, até porque sua premissa exige espaço confinado extremo, com pouquíssimas possibilidades de variedade. Diria que o autor pesa bastante na mão na forma como ele usa o passado de Jay e Mitt para informar e ilustrar seu claustrofóbico presente nos compartimentos do estômago da baleia (a cachalote tem quatro) ou para lidar com os avanços ou retrocessos nas tentativas de fuga, algo que conta até mesmo, no presente, com inicialmente estranhos diálogos internos entre filho e pai, mas o texto é objetivo, sem firulas, tornando o que poderia ser maçante em algo dinâmico.
Whalefall chama atenção pela premissa inusitada, prende pelo drama pessoal de Jay com seu pai e pelas curiosidades biológicas que Kraus oferece aqui e ali para revestir sua história de verniz científico e até um pouco do que poderia ser chamado de “horror corporal cetáceo”, e garante a leitura até o fim pela estrutura esperta de “consumo rápido” que o autor constrói de imediato. Não é alta literatura, claro, mas esse thriller submarino é suficientemente fascinante para garantir algumas horas de divertimento tenso que é capaz de transportar o leitor para dentro da baleia junto com o agoniado protagonista.
Whalefall – Dentro da Baleia (Whalefall – EUA, 2023)
Autoria: Daniel Kraus
Editora: MTV Books
Data original de publicação: 08 de agosto de 2023
Páginas: 336
Daniel KrausLiteratura AmericanaMTV Books
Fonte: Plano Critico.
