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Cinema

Crítica | VisionQuest – 1X01 e 02: Sem Amarras e Theseus

Existencialismo e autodescoberta. O post Crítica | VisionQuest – 1X01 e 02: Sem Amarras e Theseus apareceu primeiro em Plano Crítico.

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  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

VisionQuest começa de maneira interessante, talvez até mais do que eu esperava de mais uma continuação televisiva da Marvel, principalmente por compreender que seu protagonista não precisa necessariamente voltar a ser o Visão que conhecemos. Os dois primeiros episódios apostam em uma mistura de ficção científica existencial, comédia de inteligências artificiais e thriller de perseguição, utilizando a crise de identidade do personagem como ponto de partida para uma jornada de reconstrução emocional. Nem tudo funciona, especialmente quando o roteiro exagera nas explicações ou abandona suas discussões mais interessantes para abraçar conveniências de ação, mas é um início competente e com personalidade.

A premissa retoma o Visão Branco após os acontecimentos de WandaVision, agora vivendo anonimamente em Edimburgo e trabalhando em um pub escocês. Mesmo possuindo as memórias de sua versão anterior, ele não consegue estabelecer uma conexão emocional com elas, enxergando parte da própria história como algo quase artificial. O mais interessante dramaticamente falando está justamente nessa contradição.

O grande achado formal da série é a representação de seu espaço mental, uma espécie de mansão habitada pelas versões humanizadas de J.A.R.V.I.S., F.R.I.D.A.Y., E.D.I.T.H. e outras inteligências artificiais associadas ao legado tecnológico de Tony Stark. Existe um humor bastante particular nessa dinâmica, quase como uma sitcom de robôs com problemas existenciais (lembrando a pegada de WandaVision). Gosto da maneira como a direção diferencia esse ambiente interno do mundo exterior, com uma organização de espaços mais teatral, diálogos de convivência e uma arquitetura que traduz a fragmentação da consciência do protagonista. É uma solução visual simples, mas bastante funcional para materializar um conflito que poderia ficar restrito a monólogos e explicações.

Nesse cenário, Ultron é facilmente uma das melhores presenças. James Spader recupera a personalidade irônica, venenosa e arrogante do personagem, agora transformado em uma espécie de conselheiro demoníaco aprisionado na mente de seu próprio descendente tecnológico. O divertido é que Ultron parece compreender certas contradições humanas melhor do que o Visão, mesmo continuando incapaz de abandonar seus impulsos manipuladores. Há uma relação de criador e criatura bastante torta nesse núcleo, com Ultron funcionando simultaneamente como ameaça, consciência incômoda e catalisador do desenvolvimento emocional do protagonista.

O primeiro episódio também estabelece bem a ruptura entre a existência pacata do Visão e a violência que o persegue. O ataque dos mercenários ao pub, culminando na morte de Fiona, é uma escolha que desmonta rapidamente qualquer possibilidade de normalidade. O problema é que a personagem ainda não possui desenvolvimento suficiente para que sua morte encontre todo o impacto pretendido, fora a falta de inventividade da set-piece, ainda mais pensando dentro das possibilidades de um personagem com poderes tão variados.

Já o segundo capítulo é mais interessante, principalmente por estabelecer um paralelo direto entre o protagonista e Thomas Shepherd. O título, evidentemente, recupera o paradoxo do Navio de Teseu, já utilizado em WandaVision, mas agora há uma ampliação temática interessante. A série deixa de discutir apenas se o Visão atual é o mesmo personagem e passa a questionar se essa resposta realmente importa. Talvez a humanidade não esteja na continuidade perfeita de uma consciência, mas na possibilidade de tomar decisões morais independentemente de sua construção original. O problema é que Terry Matalas às vezes parece desconfiar da capacidade do público de perceber essas relações, recorrendo a diálogos bastante didáticos para verbalizar conflitos que já estão evidentes na própria situação dramática.

Na parte da ação, o segundo episódio apresenta uma escala maior com o confronto no sanatório Saint Mabyn. A direção de Christopher J. Byrne trabalha o cerco, as armadilhas e a vulnerabilidade física do Visão, mas não diria que existe alguma grande inventividade coreográfica. A sequência funciona mais pela progressão de obstáculos e pela gravidade das consequências do que propriamente por algum trabalho de técnico memorável.

Paladino, por sua vez, é o elemento mais genérico desse início. Embora a ideia de um título assumido por sucessivas gerações de caçadores de recompensa seja curiosa, o antagonista ainda funciona como uma ferramenta de perseguição, ameaças e armadilhas. Falta personalidade, sobretudo quando colocado ao lado de Ultron, cuja presença domina praticamente qualquer cena. O mistério envolvendo seu contratante também segue bastante protocolar, aproximando a série de alguns vícios conhecidos das produções televisivas da Marvel, com organizações obscuras, mercenários e segredos guardados para revelações futuras.

O sacrifício de J.A.R.V.I.S. no encerramento do segundo episódio é uma boa escolha emocional, ainda que talvez precoce. Existe uma ironia interessante em ver uma inteligência artificial demonstrando uma entrega afetiva que o próprio Visão ainda tenta compreender. É um fechamento que sintetiza melhor as discussões da série do que boa parte dos diálogos filosóficos anteriores, especialmente porque transforma uma ideia abstrata em consequência dramática.

No geral, a dupla de abertura forma uma estreia boa, ainda que não excepcional. A série encontra personalidade no espaço mental do Visão, utiliza muito bem James Spader e estabelece uma discussão promissora sobre memória, identidade, humanidade e pertencimento. Por outro lado, exagera na exposição, apresenta um antagonista pouco interessante e ainda precisa encontrar maior criatividade visual em seus confrontos. Mesmo assim, gosto da direção que a trama está tomando, principalmente por reconhecer que reconstruir o Visão não significa simplesmente recuperar sua personalidade anterior. Depois de tantas produções da Marvel preocupadas em reorganizar personagens para o próximo grande evento, há algo positivo em acompanhar uma história que, ao menos por enquanto, parece mais interessada em descobrir quem seu protagonista deseja ser do que em explicar onde ele estará no próximo filme dos Vingadores.

VisionQuest – 1X01 e 02: Sem Amarras e Theseus (No Strings & Theseus) | EUA, 13 de outubro de 2026
Criação: Terry Matalas
Direção: Christopher J. Byrne
Roteiro: Terry Matalas
Elenco: Paul Bettany, James Spader, Ruaridh Mollica, Todd Stashwick, Lauren Morais, Orla Brady, Diane Morgan, Polly Frame, Henry Lewis, Jonathan Sayer, Emily Hampshire, James D’Arcy, Ben Crompton, T’Nia Miller
Duração: 104 min.

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Fonte: Plano Critico.

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