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Verity é um daqueles suspenses que parecem acreditar que uma casa grande e algumas reviravoltas absurdas bastam para sustentar quase duas horas de intriga. Na teoria, até bastariam. Existe algo inerentemente divertido nessa premissa de melodrama gótico contemporâneo, com uma escritora fantasma entrando na mansão de uma autora famosa e descobrindo que talvez exista um monstro naquela família. O problema é que o filme nunca encontra a sujeira, a malícia ou a inteligência necessárias para transformar essa bobagem em prazer culpado de alto nível. Fica no meio do caminho de algo muito ridículo para ser levado a sério e comportado demais para virar uma boa tranqueira.
A trama coloca Lowen Ashleigh (Dakota Johnson) como uma escritora em crise, vivendo o luto da mãe e sem grande reconhecimento literário, até ser contratada para terminar a série de livros de Verity Crawford (Anne Hathaway), autora best-seller que ficou catatônica após um acidente de carro. Lowen se muda para a casa de Verity, junto de seu marido Jeremy (Josh Hartnett), em um ambiente marcado pela morte recente da filha do casal. A partir daí, Lowen encontra uma autobiografia inacabada em que Verity narra sua obsessão pelo marido, o ressentimento pelos filhos e, eventualmente, a possibilidade de ter provocado a morte da própria filha. É material de folhetim dos mais apelativos.
Michael Showalter dirige Verity como se estivesse tentando equilibrar suspense erótico, drama de trauma, thriller psicológico e novelão de aeroportos com acabamento premium. Só que esse equilíbrio nunca acontece. A casa no lago, que deveria funcionar quase como organismo de culpa e paranoia, vira mais um cenário bonito para olhares desconfiados e entradas silenciosas em cômodos. Falta tensão espacial e uma construção visual do suspense que não venha só de palavras. O filme tem corredores, escritório, quarto, lago, escadas, cama, manuscrito e corpo imóvel, mas raramente transforma esses elementos em encenações realmente participantes do mistério.
O suspense também depende demais de uma lógica preguiçosa de “será que eu vi mesmo?”. Lowen percebe Verity olhando quando ninguém vê, suspeita de movimentos, interpreta sinais e começa a duvidar da própria sanidade. Tudo parece programado demais, como se cada susto ou dúvida estivesse apenas cumprindo tabela até a próxima revelação do manuscrito. A narrativa quer parecer sinuosa, mas boa parte das curvas já vem com placa de aviso.
O próprio manuscrito é um problema. Em tese, ele deveria ser a grande peça de perversidade do filme, mas a maneira como o texto funciona dentro da história é didática demais. Lowen lê, se horroriza, abandona, volta, descobre mais uma informação terrível e reage exatamente como o roteiro precisa que ela reaja, sempre com uso constantes de flashbacks expositivos. O filme usa a escrita de Verity não como objeto literário ou psicológico, mas como uma torneira de revelações.
Isso enfraquece inclusive a figura de Verity. Anne Hathaway entende melhor do que o filme o tipo de obra em que está. Sua presença tem algo de camp, de diva monstruosa aprisionada no próprio mito, e dá para sentir que ela poderia levar Verity para um território muito mais divertido, mais venenoso, mais assumidamente absurdo. Mas o filme não entrega material suficiente. Verity passa boa parte da narrativa em uma ausência fantasmática bem chata, e quando finalmente a trama permite que sua versão dos fatos apareça, tudo já está tão preso à mecânica da virada final que a personagem é desperdiçada.
O ato final escancara como Verity confunde reviravoltas com complexidade. Vemos uma série de twists mal colocados, corridos e histéricos que não foram bem construídos, tampouco que causam algum senso de impacto dramático. É novelão da pior qualidade mesmo. E também falta estilo. Para um suspense tão dependente de atmosfera, desejo e manipulação, Verity é visualmente correto demais. Há polimento, há casa bonita, há luz fria, há composição elegante, mas pouca personalidade. O filme parece querer evocar Rebecca, Misery, suspense erótico dos anos 1990, etc, mas raramente encontra uma imagem própria. Falta uma câmera mais maliciosa, mais interessada nos corpos, nos espaços e nos objetos como fontes de perigo.
No fim, Verity é ruim não apenas por ser apelativo e novelesco, mas também por ser genérico e polido demais dentro da limitação visual de Showalter. A história, mesmo em seus exageros e melodramas, oferece algum nível de sordidez ou de base para um trabalho de suspense. Mas o filme serve tudo em pequenas porções higienizadas, embaladas como thriller prestigioso de livraria. Há uma ou outra boa ideia, e Anne Hathaway claramente entende o potencial mais venenoso da brincadeira, mas o filme termina como uma adaptação comportada de uma trama já limitada que só funcionaria se tivesse coragem de ser muito mais desequilibrada, vulgar e perigosa.
Verity – EUA, 2026
Direção: Michael Showalter
Roteiro: Nick Antosca (baseado no livro homônimo, de Colleen Hoover)
Elenco: Anne Hathaway, Dakota Johnson, Josh Hartnett, Ismael Cruz Córdova, Brady Wagner, Irina Dvorovenko
Duração: 117 min.
Anne HathawayBrady WagnerColleen HooverDakota JohnsonIrina DvorovenkoIsmael Cruz CordovaJosh HartnettMichael ShowalterNick Antosca
Fonte: Plano Critico.
