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Cinema

Crítica | Sobrevivência (2026)

Suspense de outro mundo. O post Crítica | Sobrevivência (2026) apareceu primeiro em Plano Crítico.

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Com Matt Murdock como o papel mais memorável da carreira — ficando atrás apenas do marido de luto em Garota Exemplar —, quando se fala de Ben Affleck, sabemos que as boas referências vêm de sua atuação como roteirista e diretor do que como ator, convenhamos. Gênio Indomável, Argo e Atração Perigosa são apenas alguns nomes de destaques em sua filmografia. Desde o primeiro momento, Sobrevivência se mostra especial ao parecer protocolar e, ao mesmo tempo, refinado. Embora Affleck não assuma a inspiração, seu mais novo trabalho remete bastante ao clássico japonês Céu e Inferno, de Akira Kurosawa. Como se não bastasse a semelhança, o longa também lembra a Luta de Classes, filme comandado por Spike Lee para a Apple TV. O curioso é que estamos diante daquela velha trama clássica que costuma ser revisitada na tentativa de surpreender o público desconhecido: se Lee adaptou a trama baseada no livro King’s Ransom, de Ed McBain, para o universo da música, Sobrevivência a imagina no meio político.

O problema começa a partir do momento em que o roteiro escrito por Affleck, Connor McIntyre e Billy Ray tenta superar o original com inserções de subtramas que não conseguem dar conta da própria expectativa. Ou seja, há ideias demais se sobrepondo sem encontrar um espaço para desenvolvê-las. Peguemos, por exemplo, o segredo de Abigail (Kerry Washington), que, quando apresentado, gera a impressão de que a personagem teria um arco próprio, com espaço para ser trabalhado; contudo, o arco nada serve à história, apontando para outra questão: os roteiristas não sabem o que fazer com a história e, principalmente, o que estão contando. À medida que o texto demonstra uma qualidade no desenvolvimento dos diálogos, buscando provar maturidade, há um tom burocrático que deixa o filme contido, bem longe da autoimportância consciente que se veste.

Chega a soar cômico como Affleck conduz o filme de uma maneira exagerada, tratando Animals como algo acima da média, um suspense elevado, um dos longas mais absurdos que dirigiu. Esse senso fica perceptível na cena em que seu personagem, um candidato à prefeitura, recebe a ligação do sequestrador do seu filho. Na tentativa de criar tensão para o momento, Affleck emula uma espécie de plano sequência que alterna com movimentos panorâmicos de câmera e planos fechados numa edição corrida. Mas percebe-se que, de todos os atributos, é incapaz de atingir o nível de urgência pretendido para a situação, o que, por consequência, dificulta a empatia da audiência e também a construção do suspense em si. A sacada de reunir tantas ideias acontecendo ao mesmo tempo tinha como objetivo ser um suspense que revela novas camadas aos poucos, um desencadeamento de situações no qual tudo precisa ser bem pensado, mas nada gera impacto.

Na teoria, é como se Affleck e os co-roteiristas tivessem pensado em como fazer de Sobrevivência uma versão diferente, mas sem assumir que se trata de uma versão. Contudo, é necessário reconhecer que, apesar de todos os esforços, o filme é apático, vazio na sua intenção de ser um suspense imprevisível, o qual cresce com uma suposta quebra de expectativas num de ação e reação. Na prática, o longa é difícil de ser digerido graças à sua ausência de suspense, talento em não gerar tensão, decisões incoerentes — a exemplo de todas as vezes que o candidato consegue enrolar o sequestrador — e personagens que não impactam. À sua maneira, Affleck imagina ter dirigido um filme que se beneficia de uma crescente, num ritmo frenético, enquanto se prepara para um desfecho heróico digno de um clássico de ação. Mas percebe-se que, até chegar ao suposto ápice, muita coisa deixou de fazer sentido, principalmente por um filme que utiliza um sequestro como motor e ainda assim não consegue gerar comoção.

O que tranquiliza é que não restam alternativas com temática semelhante, até mesmo aquele genérico de ação sobre sequestro, sendo mais eficiente em entreter do que um longa que busca gerar reflexões sobre questões sociais e políticas estadunidenses em um roteiro que nem sequer constrói os personagens. A verdade é que Sobrevivência é mais uma daquelas produções que, de tempos em tempos, surgem como uma ideia original, mas é apenas uma outra tentativa de adaptação de um grande clássico.

Sobrevivência (Animals – EUA, 2026)
Direção: Ben Affleck
Roteiro: Ben Affleck, Connor McIntyre, Billy Ray
Elenco: Ben Affleck, Kerry Washington, Gillian Anderson, Steven Yeun, Adriana Paz, Luis Gerardo Méndez, Christopher Woodley, Jacob Estrada, Ray Fisher
Duração: 106 min

Adriana PazBen AffleckBilly RayChristopher WoodleyConnor McIntyreGillian AndersonHomeJacob EstradaKerry WashingtonLuis Gerardo MéndezRay FisherSteven Yeun

Fonte: Plano Critico.

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