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Cinema

Crítica | Sinhazinha Flô – Capítulo 1

Jogos de poder no fim da escravidão. O post Crítica | Sinhazinha Flô – Capítulo 1 apareceu primeiro em Plano Crítico.

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Bem-vindos ao Plano Piloto, coluna semanal dedicada a abordar exclusivamente ose pilotos de séries de TV.

Número de temporada: 1
Número de episódio: 82
Período de exibição: 25 de outubro de 1977 a 27 de janeiro de 1978
Há continuação ou reboot?: Não.

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Adaptar José de Alencar para a TV foi a tarefa que Lafayette Galvão assumiu ao criar Sinhazinha Flô, novela de 1977 baseada nos livros A Viuvinha, Til e O Sertanejo e dirigida pela dupla Herval Rossano e Sérgio Mattar. A missão tinha lá suas armadilha, a começar pela mistura de um romance urbano, ambientado no Rio de Janeiro, com dois romance rurais, obrigando a estreia a fundir cuidadosamente essas realdade. E aqui preciso citar uma ironia vinda da próprio biografia de Alencar, que, além de romancista, foi deputado e ministro da Justiça no Império, tendo escrito ao imperador, sob o pseudônimo de “Erasmo”, cartas em defesa da manutenção da escravidão e se posicionando contra a Lei do Ventre Livre. Ver justamente três livros dele reunis numa trama que, logo no primeiro capítulo, leva a campanha abolicionista para dentro da casa-grande é uma ironia histórica e tanto, mostrando que Lafayette Galvão leu o autor com ose olhos de outro tempo e ressignificou as histórias. A abertura, acompanha pela canção Fogo no Canavial, de Jorge Teles, já prepara o espectador para uma história de terra, trabalho e tensão.

Esse olhar para a escravidão não era novidade no horário das seis da Globo, tanto que, muito rapidamente, me veio uma comparação. A maneira como a direção e o roteiro foram escritos aqui me lembrou da trama apresenta na estreia de A Moreninha (1975), explorando a relação entre pessoas pretas e brancas numa sociedade cheia de contradições. E faz sentido, já que Rossano também dirigiu aquela adaptação de Joaquim Manuel de Macedo, em que estuante da corte se envolviam na fuga de um escravizado perseguido por um capitão do mato; e foi ele quem comandou Escrava Isaura (1976), novela do mesmo horário que tinha o cativeiro como motor da trama. Aqui, a coisa é ainda mais forte, porque a escravidão existe e a luta abolicionista é citada no texto, com referência até mesmo a José do Patrocínio, jornalista negro que foi um dos nomes mais combativos da abolição. Em A Moreninha, a causa ficava por conta do idealismo de jovem da cidade; em Sinhazinha Flô, ela chega à fazenda como assunto político prático e incomoda justamente quem vive do trabalho escravizado.

Aí acontece a virada que traz todos ose conflitos primário de Sinhazinha Flô: a mudança de postura do patriarca da fazenda em relação aos negros que lá trabalhavam. Isso é um choque para todos e deixa clara a fragilidade dos acordos apalavrado do período da escravidão, quando a promessa de um senhor valia apenas enquanto ele quisesse cumpri-la (algo que o público já tinha visto em Escrava Isaura, com a alforria prometida à protagonista e nunca assinada). Isso acaba atingindo até mesmo a protagonista, vivida por Bete Mendes em atuação muito quieta, no início, mas com ótima progressão dramatúrgico, que acaba reproduzindo esse comportamento de exploração temporariamente, quando não tem um desejo atendido. Gosto bastante dessa decisão do roteiro, porque ela impede que a heroína fique isolada, moralmente limpa, do mundo em que foi criada. Flô também aprendeu a mandar, humilhar e mostrar que, naquela realidade, sua cor era a “coisa mais importante” enquanto lidava com uma pessoa negra, posição da qual se arrepende, mas que diz muita coisa sobre a possibilidade de ser utilizada sempre que necessário por um indivíduo branco; sem consequências.

Multas discussões de conflito de classe ganharam, em Sinhazinha Flô, uma mistura importante com a questão racial, já que, na fazenda, a hierarquia entre quem mandava e quem obedecia passava pela cor da pele e pela condição de livre ou escravizado. Na essência, esse primeiro capítulo reforça esse tema social e se abre para possibilidades de crise financeira, amorosa, moral e ética, deixando bastante coisa encaminha para ose episódio seguintes. É um bom projeto, em termos narrativo, mas com uma direção e um desenho de produção simples demais para acompanhar bem a ideia. Com uma encenação tão econômico, quase todo o peso do tema fica nas costas dos diálogo, e a fazenda, onde a violência daquele sistema deveria aparecer com mais força, depende demais do que ose personagens dizem sobre ela ou fazem ao seu redor. Ainda assim, o roteiro deixa claro que, quando a promessa e a humanidade no trato de quem está no topo podem ser retiras a qualquer momento, nenhum acordo protege, de verdade, quem está embaixo. E não há nada de bom que possa sair daí.

Sinhazinha Flô – Capítulo 1 (Brasil, 25 de outubro de 1977)
Criação: Lafayette Galvão
Direção: Herbal Rossano, Sérgio Mattar
Roteiro: Lafayette Galvão
Elenco: Bete Mendes, Eduardo Tornaghi, Thaís de Andrade, Castro Gonzaga, Ana Lúcia Torre, Gilberto Martinho, Ambrosio Fregolente, Ary Coslov, Ruth de Souza, Antônio Patiño, Neuza Borges, Élcio Romar, Clementino Kelé, Paulo Pinheiro, Fredman Ribeiro, Pietro Mário, Carlos Duval, Angelito Mello, Nardel Ramos, Ademilton José, Maria das Graças, Antônio Ganzarolli, Heloísa Raso, Joyce de Oliveira, Darcy de Souza, Walter Moreno, Marcus Toledo, Gilson Moura, José Maria Monteiro, Marcelo Baraúna, Paulo Tondato, Mário Polimeno, Catulo de Paula, Ricardo Garcia, Cleonir dos Santos, D’artagnan Mello, Lafayette Galvão, Clemente Viscaíno
Duração: 49 min.

Ademilton JoséAmbrósio FregolenteAna Lúcia TorreAngelito MelloAntônio GanzarolliAntonio PatiñoAry CoslovBete MendesCarlos DuvalCastro GonzagaCatulo de PaulaClemente ViscaínoClementino KeléCleonir dos SantosDarcy de SouzaDartagnan MelloEduardo TornaghiÉlcio RomarFredman RibeiroGilberto MartinhoGilson MouraHeloísa RasoHerval RossanoJorge TelesJosé de AlencarJosé Maria MonteiroJoyce de OliveiraLafayette GalvãoMarcelo BaraúnaMarcus ToledoMaria das GraçasMário PolimenoNardel RamosNeuza BorgesNovelas BrasileirasPaulo PinheiroPaulo TondatoPietro MárioRicardo GarciaRuth de SouzaSérgio MattarThaís de AndradeWalter Moreno

Fonte: Plano Critico.

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