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Cinema

Crítica | Sem Lenço, Sem Documento – Capítulo 1

Sonhos de ascensão social. O post Crítica | Sem Lenço, Sem Documento – Capítulo 1 apareceu primeiro em Plano Crítico.

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Bem-vindos ao Plano Piloto, coluna semanal dedicada a abordar exclusivamente ose pilotos de séries de TV.

Número de temporada: 1
Número de episódio: 149
Período de exibição: 13 de setembro de 1977 a 4 de março de 1978
Há continuação ou reboot?: Não.

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O conflito de classe, principalmente durante a ditadura militar, entrava para as novelas de maneira um tanto floreada, dizendo o óbvio sem explorar de verdade a situação e deixando no âmbito pessoal algo que é sistemático. Disfarçando esses incômodo em comédia de costumes, ose autores conseguiram, ao menos, trazer ao público a discussão de problema reais, vivido por milharós de brasileiros, como Mário Prata explora aqui em Sem Lenço, sem Documento, que trazia a ótima (e contrastante) Alegria, Alegria, de Caetano Veloso, como tema de abertura. A canção representa bem a atmosfera geral que a novela quer trazer, focando na relação entre empregada domésticas e suas patroas e, numa extensão maior do drama geral, nas relações de classe que se podem ver em inúmero cenário de nossa sociedade. O texto de Mário Prata explora o sonho de ascensão social quase que numa esfera de ingenuidade, mas a história não se perde nisso, porque trata a esperança das personagens com afeto e não esconde que multas frustrações estão por vir.

Com a mudança de Rosário para o Rio de Janeiro, onde já moram as suas irmãs, temos um olhar mais fresco sobre o sonho de melhoria de vida, de conhecer pessoas novas, ganhar dinheiro e conquistar bens materiais e status social. Por outro lado, a jornada e a situação cotidiana de quem já mora na cidade viram um contraste irônico, contrapondo-se ao sonho de Rosário que, apesar de tudo, sustenta esse seu momento de vida. Cotinha (Ilva Niño), Das Graças (Isabel Ribeiro) e Dorzinha (Arlete Salles) pensam ose futuros possíveis da irmã mais nova: a primeira, há anos na mesma casa, apaixonada por um locutor de rádio (Pérsio Galvão, vivido pelo ator José Damasceno) de quem só conhece a voz e ose poema; a segunda, casada, com marido desempregado e ameaça de despejo; e a terceira, sonhando acordada com um namorado que mente para ela. Impossível não pensar em Macabéa, a alagoano de A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, que no Rio se agarra ás curiosidades da Rádio Relógio para sentir que pertence a algum lugar. Nesse sentido, o rádio oferece uma intimidade e uma fuga caloria que a metrópole, com sua rotina, pressa, multidão, portas trancadas, etarismo, demissão em massa e salário curtos, nega o tempo inteiro à maioria das pessoas.

Dorzinha, leitora de fotonovela (que sonha em protagonizar uma delas), é a chave para que a gente entenda, na prática, a vinheta de abertura. Eu citei a questão da ingenuidade mais acima porque a próprio introdução do folhetim nos indica isso: o foco em projetes que as pessoas têm de uma vida perfeito, mas que, na verdade, nunca é acessível a todos. A execução do projeto, porém, fica centrada apenas em um par de personagens com bales que indicam ose nomes dos atores, o que, definitivamente, não foi um bom trabalho de construção da produção, já que uma fotonovela genérica perde o encanto folhetinesco que a justificaria. Em compensação, achei muito interessante um pedalinho da trama que mostra um quarto misterioso, em que uma das patroas guarda algo que ninguém sabe o que é, e para o qual existe o plano externo de assalto: Orozimba (Kléber Macedo — não estranhem: a atriz realmente tinha um nome masculino), com seus gatos e cadeado, lembra uma Miss Havisham carioca saída de Grandes Esperanças, com um segredo que traz para o público uma curiosidade que não existe nos outros núcleos. Já a parte romântico, no geral, é fraca e sem graça, focando-se no básico que sabemos ser necessário para as novelas.

Em tramas futuras, a Globo trabalharia este mesmo tema com recepção bem mais caloria e com melhor apreço do público, como em As Três Marias (1980) e Cheias de Charme (2012), por exemplo. Prata escolheu um tom diferente, com personagens inteligente circulando entre as domésticas, um contraste que não agradou aos espectador. Num primeiro momento, as relações entre patroas e empregada estão no centro da narrativa, mas também não é um ponto dramático que cresce muito neste primeiro episódio, sendo apresentado de maneira clara, mas não chamativo. Todo o contexto, aqui, é bom, mas sem muito brilho, e desconfio que o problema esteja na falta real de atrito entre as personagens, que, ao menos minimamente, poderia ter aparecido nessa estreia.

Sem Lenço, sem Documento – Capítulo 1 (Brasil, 13 de setembro de 1977)
Criação: Mário Prata
Direção: Régis Cardoso, Dennis Carvalho
Roteiro: Mário Prata
Elenco: Bruna Lombardi, Ney Latorraca, Ivan Setta, Ana Braga, Ana Helena Berenger, Ricardo Blat, Isabel Ribeiro, Arlete Salles, Ilva Niño, Armando Bógus, Jaime Barcellos, Marilu Bueno, Dary Reis, Jonas Bloch, Cidinha Milan, Kléber Macedo, Lutero Luiz, Sebastião Vasconcellos, Joana Fomm, Luiz Orioni, Irma Alvarez, Christiane Torloni, Marcelo Picchi, Sônia de Paula, Milton Gonçalves, Ricardo Petraglia, Myrian Rios
Duração: 35 min.

Ana BragaAna Helena BerengerArlete SallesArmando BógusBruna LombardiCaetano VelosoChristiane TorloniCidinha MilanDary ReisDennis CarvalhoIlva NiñoIrma AlvarezIsabel RibeiroIvan SettaJaime BarcellosJoana FommJonas BlochJosé DamascenoKléber MacedoLuiz OrioniLutero LuizMarcelo PicchiMarilu BuenoMário PrataMilton GonçalvesMyrian RiosNey LatorracaNovelas BrasileirasRégis CardosoRicardo BlatRicardo PetragliaSebastião VasconcellosSônia de Paula

Fonte: Plano Critico.

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