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A série documental em quatro episódios, intitulada na versão original como Psycho: The Lost Tapes of Ed Gein, dirigida por James Buddy Day e lançada em 2023, oferece um mergulho profundo e perturbador na vida do infame assassino em série e profanador de sepulturas que aterrorizou Plainfield, Wisconsin. A produção da MGM+ Originals, disponível no Prime Video em alguns locais, tem como proposta central explorar as origens sombrias de Ed Gein, o homem cujos crimes reais serviram de inspiração para ícones do cinema de terror como Psicose (Norman Bates), O Massacre da Serra Elétrica (Leatherface) e O Silêncio dos Inocentes (Buffalo Bill). A série se propõe a ir além dos mitos e examinar a psique de um homem que se tornou uma figura lendária do horror. O principal atrativo da produção é a prometida utilização de gravações de áudio inéditas do próprio Ed Gein, as “fitas perdidas” mencionadas no título, embora as fontes apontem que o objetivo maior é recriar a atmosfera de horror que sempre envolveu o caso.
Ora em tom soturno e sério, ora sensacionalista, a narrativa busca traçar a complexa relação de Gein com sua mãe dominadora e como esse vínculo doentio, somado a traumas de infância e visões terríveis, o levou à loucura e aos atos macabros de profanação de corpos e, eventualmente, assassinato. A casa de Gein, descrita como uma exteriorização de sua mente perturbada, também é um ponto de foco, ilustrando o ambiente em que seus crimes ocorreram. A abordagem do diretor James Buddy Day na série busca criar uma experiência que se assemelhe a um filme de terror, utilizando visuais que recriam a atmosfera da época e a natureza horripilante dos crimes. Embora a intenção fosse ser assustadora sem ser exploratória de forma gratuita, a série recebeu algumas críticas por, supostamente, apresentar cenas excessivamente gráficas e por uma narrativa que pode ser confusa devido a saltos temporais.
Além disso, a produção gerou debate ao, na visão de alguns críticos, “humanizar” excessivamente Ed Gein, retratando-o mais como uma vítima de suas circunstâncias do que como o monstro que aterrorizou a comunidade, o que minimizaria a real gravidade de suas ações. Em linhas gerais, é uma minissérie documental que se destaca por revisitar um dos casos de true crime mais famosos da história dos Estados Unidos, que moldou o gênero de terror no cinema. Através de uma investigação detalhada e da tentativa de usar materiais inéditos, a série busca entender a mente por detrás do “Açougueiro de Plainfield”. Apesar das controvérsias em torno de sua abordagem e do ritmo narrativo, a produção permanece como um registro impactante e visualmente imersivo de uma história real que continua a fascinar e perturbar o público. Ed Gein é frequentemente descrito como o “homem comum”, vivendo uma vida aparentemente normal em uma pequena cidade. Essa dualidade entre sua aparência mundana e seus atos horrendos provoca uma atração mórbida por parte do público. O fato de que um indivíduo que poderia ser visto como qualquer outra pessoa pudesse cultivar uma vida tão horrível levanta questões profundas sobre a natureza humana, o que alimenta o fascínio por sua história.
A ideia de que o mal pode residir em lugares inesperados desafia a compreensão do que significa ser humano. O que aprendi, neste processo, ou já sabia, talvez, mas me levou ao processo reflexivo, é como tais temas fascinam a cultura popular a exploração do macabro e do grotesco. Os atos de Gein, tal como sua prática de fazer objetos e roupas a partir de pele humana, estão diretamente alinhados com temas de horror que permeiam filmes, livros e outras formas de mídia. Histórias sobre assassinos em série e suas atrocidades atraem a curiosidade sobre a psique humana e os limites da moralidade. Os detalhes do caso de Gein, por sua natureza extrema e repulsiva, capturam a atenção e incitam discussões sobre o que motiva tais comportamentos, criando um ciclo de atração e voyeurismo.
Ed Gein inspirou várias obras de ficção e personagens icônicos e é uma espécie de arquétipo para a maioria dos antagonistas do subgênero slasher ao longo das décadas seguintes, encontrando desdobramentos na atualidade, como a atual produção do streaming Netflix. Essa influência permeia a cultura popular e ajuda a perpetuar sua lenda. Além de filmes, Gein também aparece em documentários, livros e programas de televisão, transformando-o em uma figura quase mitológica. Essa presença constante nas mídias mantém seu nome vivo nas discussões sobre psicopatia, criminalidade e os limites do horror artístico, mantendo a compulsão dos interessados a explorar mais sobre sua vida e crimes. O caso desse profanador de túmulos levanta questões e debates sobre a saúde mental, a origem do comportamento criminal e a natureza da violência. Estudos sobre como e por que algumas pessoas se tornam assassinas em série capturam a imaginação de psicólogos, criminologistas e do público em geral. O próprio histórico de Gein, incluindo uma infância problemática e sua relação disfuncional com a mãe, provoca discussões sobre fatores que levam ao desenvolvimento de tais traços psicopáticos. Esse cruzamento entre psicologia e criminalidade torna Gein uma figura de estudo intrigante, ao mesmo tempo em que alimenta o interesse popular por figuras como ele e suas histórias sombrias. E é isso que encontramos ao longo dos 204 minutos dessa série em quatro episódios.
Para refletir: a humanização e adoração de figuras como Ed Gein na cultura popular, alimentadas por produções de “true crime”, apresentam riscos significativos ao borrarem as linhas entre a realidade brutal e a ficção de entretenimento. Ao focar excessivamente nas origens psicológicas conturbadas do criminoso ou em detalhes mórbidos de sua vida, como a relação problemática com a mãe, a narrativa pode inadvertidamente gerar empatia ou até fascínio pelo “monstro”, transformando um assassino real em um personagem complexo e, para alguns, digno de “adoração” ou fanatismo. Essa glamourização ofusca a seriedade dos atos violentos e psicóticos, minimizando o terror vivido pelas vítimas e suas famílias, que se tornam notas de rodapé na história do assassino.
Sem querer ser demagogo, mas o principal perigo reside na falta de sensibilidade do público em relação à violência real e na criação de comunidades de fãs que exaltam o criminoso, desumanizando, ironicamente, as vítimas. A exaltação de crimes brutais como o de Ed Gein pode inspirar comportamentos perigosos ou, no mínimo, distorcer a percepção pública sobre a psicopatia, que é, na realidade, um transtorno mental sério marcado pela ausência de empatia e condutas antissociais. Em vez de um ícone pop, Ed Gein foi um indivíduo que cometeu atos atrozes e passou a vida em instituições psiquiátricas. A reflexão crítica deve, portanto, direcionar o foco para o impacto destrutivo da violência e para a importância da empatia, em vez de elevar o perpetrador à condição de celebridade ou vítima das circunstâncias.
Psicose: Os Arquivos Perdidos de Ed Gein (Psycho: the Lost Tapes of Ed Gein| EUA, 2023)
Direção: James Buddy Day
Roteiro: James Buddy Day
Elenco: Ed Gein (arquivos de áudio), Deanna Mae Lloyd (entrevistadora), Henry Zebrowski, Marcus Parks, Ben Kissel, Louis B. Schlesinger, Harold Schechter, Jooyoung Lee
Duração: 204 min. (04 episódios)
Ben KisselDeanna Mae LloydEd GeinHarold SchechterHenry ZebrowskiJames Buddy DayJooyoung LeeLouis B. SchlesingerMarcus ParksOutubro do TerrorOutubro do Terror 2026
Fonte: Plano Critico.
