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Bem-vindos ao Plano Piloto, coluna semanal dedicada a abordar exclusivamente os pilotos de séries de TV.
Número de temporadas: 1
Número de episódios: 140
Período de exibição: 16 de janeiro de 1978 a 28 de julho de 1978
Há continuação ou reboot?: Não.
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Quem acompanhou a carreira de Bráulio Pedroso na TV sabe bem do interesse do dramaturgo por gente que tenta circular numa classe social da qual não faz parte, ou da qual já foi expulsa, mas não quer admitir. Em Beto Rockfeller (1968), que ele escreveu para a TV Tupi, um vendedor de loja de sapatos se apresentava como parente de um magnata americano para entrar nas festas da elite paulistana. Em O Cafona (1971), já na Globo, um novo-rico do ramo dos supermercados cruzava o caminho de um milionário falido que apostava no casamento da filha para resolver as próprias dívidas. Aqui em O Pulo do Gato (1978), dirigida por Jardel Mello, com supervisão de Walter Avancini e com a canção Eu e Meu Gato, de Rita Lee na abertura, volta a esse assunto, mas tomando um outro caminho. Se Beto era o pobre fingindo riqueza, agora quem finge é o rico que está perdendo tudo e precisa sustentar uma aparência de fortuna. O autor foca em relações amorosas complexas, moldando o comportamento das pessoas e, logo neste primeiro capítulo, percebemos que o amor vem sempre misturado ao corpo, à idade e ao dinheiro de cada personagem.
A idade ganha atenção especial e pesa de modo muito desigual sobre homens e mulheres. De um lado, a constante cobrança feminina para manter a forma física, o elogio da vaidade e o peso da velhice; de outro lado (o masculino), também a idade mostra as suas questões e seus espinhos, mas a maneira como a sociedade se organiza em torno desse envelhecimento é um tanto mais floreada e jocosa (embora nunca verdadeiramente positiva), se comparada ao massacre que sofre a mulher mais velha. No texto de Pedroso, isso é organizado de maneira um tanto distinta, porque Bilu (Mara Rúbia) tem apoio de alguém para o empoderamento pessoal nessa nova fase, enquanto Bubby Mariano (Jorge Dória) tem em Caxuxo (Milton Gonçalves) um amigo leal, mas fatalista, muito mais preocupado em colocar os pés do pseudo-ricaço no chão do que em mimá-lo. A escolha de Mara Rúbia para o papel traz uma leitura interessante ao núcleo, já que a atriz foi uma das vedetes do teatro de revista nos anos 1940 e 1950, gênero em que a beleza do corpo feminino era a atração principal. Vê-la interpretar uma mulher que precisa se reinventar depois da juventude dá à personagem um comentário que vem da própria trajetória da intérprete.
Caxuxo chama atenção justamente por se recusar a bajular o amigo, até porque Bubby passou a vida inteira sendo mimado e, agora que a pobreza bate à porta, tem que mandar falsificar quadros para vender o original e tentar manter uma pose social intocável. A importância das máscaras sociais, o peso do status e a total diferença de como vivem as classes são as principais linhas de abordagem do texto. O antropólogo Roberto DaMatta, em Carnavais, Malandros e Heróis, estudou o famoso “Você sabe com quem está falando?” como a frase com que o brasileiro reafirma sua posição social justamente quando ela parece ameaçada, e Bubby vive na dependência dessa pergunta, porque todo o respeito que recebe exige que ninguém descubra o quanto a resposta mudou. O interessante é que Pedroso trata essa farsa com humor, mas não poupa o ridículo de um homem que gasta o pouco que lhe resta para continuar parecendo aquilo que não é mais.
Tantas aparências a sustentar ajudam a entender o caminho que Pedroso dá ao restante do elenco. Do amor para a idade, o corpo, a mente, a maturidade e o dinheiro, o enredo encaminha os personagens para o famoso “jeitinho brasileiro”, alguns recorrendo a quem pode emprestar e outros tentando, de um jeito pouco elogiável, conseguir uma grana para mudar de vida, para pagar dívidas, o aluguel de um apartamento ou o financiamento de uma revista. Lá pelos quinze minutos, já sabemos que o título condiz perfeitamente com a atmosfera pensada pelo autor: os personagens possuem necessidades práticas que não conseguem resolver e, por isso mesmo, precisam optar por uma atitude de esperteza ou facilidade que mudará tudo; o nosso proverbial “pulo do gato”. Em O Que faz o Brasil, Brasil?, DaMatta descreve o jeitinho como a maneira brasileira de encontrar uma saída entre o que a lei proíbe e o que a pessoa precisa, algo que essa estreia mostra aplicando um filtro social crítico, uma vez que essa saída é julgada de forma diferente conforme quem a utiliza (se pobre, é um vigarista; se rico, é apenas um colarinho branco esperto). Aqui, para o desespero de todos, fica estabelecido que “o mundo é dos mais espertos“. A questão que fica é: “até onde vai essa esperteza?“.
O Pulo do Gato (Brasil, 16 de janeiro de 1978 )
Criação: Bráulio Pedroso
Direção: Jardel Mello
Roteiro: Bráulio Pedroso
Elenco: Jorge Dória, Sandra Bréa, Mário Gomes, Ittala Nandi, Milton Gonçalves, Camila Amado, Marly Aguiar, Kadu Moliterno, Felipe Carone, Neuza Amaral, Mara Rúbia, Francisco Dantas, Lady Francisco, Pedro Paulo Rangel, Monah Delacy, Ivan Mesquita, Rui Resende, Julciléa Telles, Carlos Kroeber, Márcia Rodrigues, João Carlos Barroso, Shulamith Yaari, Tonico Pereira, Nelson Cavaquinho, Suely Franco
Duração: 53 min.
Bráulio PedrosoCamila AmadoCarlos KroeberFelipe CaroneFrancisco DantasIttala NandiIvan MesquitaJardel MelloJoão Carlos BarrosoJorge DóriaJulciléa TellesKadu MoliternoLady FranciscoMara RúbiaMárcia RodriguesMário GomesMarly AguiarMilton GonçalvesMonah DelacyNelson CavaquinhoNeuza AmaralNovelas BrasileirasPedro Paulo RangelRita LeeRui ResendeSandra BréaShulamith YaariSuely FrancoTonico PereiraWalter Avancini
Fonte: Plano Critico.
