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Cinema

Crítica | O Dentista (1996)

Nossos medos reais "televisionados" nesse slasher bizarro dos anos 1990. O post Crítica | O Dentista (1996) apareceu primeiro em Plano Crítico.

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Antes de adentrar no filme O Dentista, lançado numa década única, os anos 1990, vou trafegar rapidamente sobre o horror e o fascínio de lidar com uma produção como essa numa dinâmica de entretenimento. O medo de ir ao dentista, frequentemente classificado como odontofobia, termo que até então desconhecia, transcende o desconforto físico e encontra raízes profundas no psiquismo humano. Sob uma perspectiva psicanalítica, a boca é a primeira zona erógena e o centro das pulsões vitais de incorporação e sobrevivência, tornando qualquer intervenção invasiva nessa área uma ameaça simbólica à integridade do “Eu”. A exposição da cavidade oral a instrumentos metálicos e ao controle de um terceiro pode despertar angústias arcaicas de castração e vulnerabilidade, onde o paciente, em uma posição de passividade forçada, projeta no profissional, as figuras de autoridade em sua trajetória ou os traumas não elaborados da infância.

Essa resistência emocional transforma a consulta odontológica em instantes delicados que vão além da técnica clínica, exigindo uma compreensão empática da subjetividade do paciente. O ambiente do consultório, marcado por sons agudos e odores específicos, é puro design de som para a realidade de quem precisa fazer um tratamento odontológico. É um espaço que atua como gatilho para mecanismos de defesa psicológicos que podem levar o envolvido a lidar com o medo que não é apenas uma reação à dor, mas uma manifestação de conflitos internos, algo que na ótica bizarra e escalafobética da realidade vivenciada pelos personagens de O Dentista, se torna um ato de punição ou sofrimento inevitável. Feito esse breve panorama, uma estratégia pessoal para lidar com as imagens revisitadas após duas décadas do primeiro contato com a produção, após uma locação em VHS assistida em grupo com amigos, vamos ao filme em si.

Brian Yuzna é amplamente celebrado pelos entusiastas do gênero por sua maestria em dirigir obras bizarras que equilibram o grotesco com roteiros surpreendentemente bem estruturados. Embora a premissa de O Dentista possa sugerir, à primeira vista, um terror genérico focado apenas no choque visual e no derramamento de sangue gratuito, a produção entrega um valor dramático superior ao esperado. Não é uma obra-prima, mas é curioso e interessante. A trama acompanha o Dr. Alan Feinstone, interpretado por Corbin Bernsen, num desempenho dramático histriônico quando passa de sua “normalidade” para a decadência em torno dos atos violentos que culminam em uma trilha de sangue e horror. Ele é apresentado como um profissional renomado que ostenta uma vida aparentemente perfeita, desde a sua mansão luxuosa ao estabelecimento de uma carreira sólida, até que a descoberta da infidelidade de sua esposa desencadeia um colapso mental irreversível.

O ponto de ruptura ocorre no dia de seu aniversário de casamento, quando Alan flagra a traição de sua mulher com o limpador da piscina, percebendo que a situação já perdurava há tempos. Esse evento serve como o catalisador para que o protagonista mergulhe em uma insanidade absoluta, transformando seu consultório em um cenário de horror. Em vez de lidar racionalmente com a frustração psicótica, o Dr. Feinstone descarrega toda a sua fúria e sadismo nos pacientes, executando uma verdadeira carnificina ao longo de um único dia de trabalho, o que torna o filme uma experiência visceral e perturbadora, delineada por momentos de humor autoconsciente, pois os envolvidos compreendem a premissa daquilo que transformam em narrativa. Assim, o filme segue uma progressão narrativa linear que detalha meticulosamente a queda de um homem no abismo da loucura. Embora a premissa pareça simples, ela se revela extremamente funcional.

O motivo? Provavelmente, o texto dramático assinado por Stuart Gordon, material que conduz o espectador por uma sucessão de eventos perturbadores. Essa estrutura clássica permite que a audiência acompanhe, passo a passo, a desintegração mental do protagonista. À medida que a trama avança, descobrimos que o personagem já carregava consigo uma obsessão profunda pela limpeza, transcendendo o cuidado puramente dental. Essa fixação maníaca pela pureza serviu como o combustível ideal para potencializar sua paranoia. Em sua mente deturpada, ele desejava “limpar” o mundo de toda a deterioração impura e asquerosa que via ao seu redor, enxergando a si mesmo como um agente purificador. O método escolhido para realizar essa limpeza se torna tão específico quanto macabro: ele age através das cavidades orais de seus desafortunados pacientes, um painel de figuras ficcionais de destaca-se a adolescente Sarah (Virginya Keehne), cuja única vontade era remover o aparelho dental, a modelo April Reign (Christa Sauls), que buscava a dentição perfeita para vencer um concurso de beleza, acompanhada por seu agente, curiosamente pelo ótimo Mark Ruffalo, no preâmbulo de sua carreira.

Diante do exposto, O Dentista segue fielmente os ditames da gramática normativa do subgênero slasher: vingança, morte e trilha de corpos, com presença de uma final girl que atrapalha os planos do antagonista, apesar de seu inevitável retorno em 1998, na sequência menos interessante, O Dentista 2. Nesse caminho pavimentado por loucura e violência, convenhamos: nenhum personagem sofre de forma tão intensa quanto Marvin Goldblum (Earl Boen). Na pele de um fiscal da receita federal corrupto, Marvin acaba pagando por seus pecados éticos de maneira brutal, até mesmo por encher a paciência do dentista que se encontra adensado numa zona abissal de violência e morte. O embate entre ele e o dentista resulta em uma cena marcante do filme, transformando o consultório em um cenário de justiça poética distorcida e dor gráfica, consolidando o tom absurdo adotado pelos realizadores.

Curiosamente, ao retomar o assunto em pesquisas após a sessão, oriunda do relançamento da duologia slasher em DVD aqui no Brasil, descobri que há a possibilidade das origens desse horror ficcional possuir raízes em uma realidade igualmente assustadora: a história de Glennon Engleman, um sociopata de St. Louis que morreu em 1999, não sem antes deixar uma biografia macabra para a posteridade. Ele utilizava a profissão de dentista apenas como fachada para esconder sua atuação como mercenário. Em pleno tribunal, não é que ele admitiu ter matado por benefícios financeiros, declarando friamente que seu “dom” era planejar assassinatos, desfazer-se de corpos e matar sem qualquer remorso? Essas conexões reais tornam a jornada de O Dentista tão aterrorizante quanto o que ocorreu fora das telas, mantendo a figura da vida real em pé de igualdade com o personagem ficcional desse clássico cult dos anos 1990 (únicos).

No geral, a narrativa consegue manter a sua proposta do roteiro em tela, haja vista o adequado setor de maquiagem, trilha sonora e direção de fotografia, elementos que trabalham juntos para realçar a sensação de desconforto e a atmosfera macabra. Embora seja um filme exagerado, O Dentista conquistou seu espaço e fez grande sucesso na época das videolocadoras, ainda me lembro, com sua arte de capa completamente constrangedora de tão ruim. Mesmo com uma premissa que afasta os críticos mais elitistas, a produção sobrevive como um clássico da história recente do terror, trama que transforma o medo comum de ir ao dentista em um pesadelo inesquecível. Ademais, rever o filme em DVD permite refletir sobre o mercado de mídia física sobrevivendo ao resgatar títulos de qualidade duvidosa, transformando o que antes era descartável em itens de colecionador movidos pela pura nostalgia. Essa valorização do “filme B” ou do fracasso de bilheteria ignora a crítica técnica para focar na memória afetiva e na posse do objeto tangível. Assim, o fetiche pelo disco transforma o defeito em charme, garantindo sobrevida a obras que o streaming provavelmente deixaria no esquecimento. Mas O Dentista está no streaming, por sinal.

O Dentista (The Dentist, Estados Unidos – 1996)
Direção: Brian Yuzna
Roteiro: Dennis Paoli, Stuart Gordon
Elenco: Corbin Bernsen, Linda Hoffman, Michael Stadvec, Ken Foree, Tony Noakes, Molly Hagan, Patty Toy, Jan Hoag, Earl Boen, Christa Sauls, Mark Ruffalo, Lise Simms, Joanne Baron
Duração: 84 minutos

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Fonte: Plano Critico.

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