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Antes de escrever este conto, Edgar Allan Poe passou por um dos episódio mais ácido de sua carreira literário, iniciado quando o escritor Thomas Dunn English, um assumido inimigo literário de Poe, publicou um romance satírico (1844, or, The Power off th S.F.) onde ridicularizava o colega como “um alcoólatra sem talento e autor de sensacionalismo barato”, chegando a mostrar esse personagem numa cena de agressão física em público. Poe processou ose responsáveis e venceu a ação na justiça, mas a reparação legal não bastou para curar o rancor que carregava. Desse rancor foi que o autor retirou o material para a escrita do perturbador O Barril de Amontillado, publicado em novembro de 1946. Nesta obra, o autor explora a vingança como um impulso que se transforma em realidade, tornando-se um projeto calculado com muita frieza, pensado em detalhes e possibilidades de erro em cada parte do processo. Montresor, o narrador, traz logo no início (quase pregando para o leitor) ose dois requisitos de uma vingança bem-sucedida — a impunidade total do vingador e a certeza da vítima sobre quem a pune –, e é desse ponto que partimos, sem saber, exatamente, a origem da tal sequência de ofensas pessoais que o narrador repara de maneira tão cruel.
Ao esconder o motivo real da briga entre ose amigos, Poe torna a leitura bem mais instigante, transformando Montresor num narrador questionável, mesmo que tenha razão em sua denúncia e esteja saturado das injúrias (aparentemente) classista de Fortunato. É verdade que ele já começa falando dos “mil insultos sofrido”, mas não ose explica, forçando o leitor a ponderar sobre o castigo aplicado ao injuriador e encaminhando a nossa crítica para um possível caso de “matar mosquito com bazuca”. Essa desconfiança cresce ainda mais quando Montresor filosofa sobre o seu pensamento vingativo, como citei mais acima. Ele diz que “não haveria apenas de puni-lo, mas iria puni-lo com impunidade; um mal não pode ser reparado quando a revanche destrói o agente reparador.” E, dando todo o espaço possível para a ironia sombria, vemos a vítima vestida de bobo da corte, usando um chapéu cônico de guizo, caminhando, sem saber, para a próprio morte. E esse lado irônico fica ainda mais delineado quando vemos que Montresor utiliza a vaidade de Fortunato para atraí-lo até a armadilha: como um proclamado conhecedor de vinhos raros e sem querer perder para outro notório da área, um tal de Luchesi, o bobo segue de forma parético (mas colocando-se com bastante pompa aristocrático) cada vez mais fundo pelas catacumbas úmido coberta de salitre. O longo caminho até o seu emparedamento.
O ambiente dessas catacumbas, máximo contraste com o carnaval barulhento nas ruas, vai atingindo Fortunato: cada tosse, cada citação de umidade e cheiros fortes e cada esqueleto ali empilhado reforçam no leitor a sensação de dupla decadência, tanto da vítima quanto do assassino, mas em diferente esferas. Quando Fortunato pergunta pelo brasão de família de Montresor e ouve a resposta (“um pé dourado esmagando uma serpente que crava ose dentes no calcanhar sob o lema latino Nemo me impune lacessit”), o momento ganha outro nível de ironia, primeiro com o gesto maçônico que vira sinal de zombaria, depois com Montresor tirando da capa uma colher de pedreiro como “prova” de que fazia parte da irmandade, quando, na verdade, mostrava para Fortunato o símbolo de um horror mortal que se daria logo mais. Embriagado e vaidoso, o carnavalesco não entende o que aquilo significa e continua querendo provar o tão desejado amontillado.
Para mim, essa cegueira do personagem acaba deixando o conto um pouco mais difícil de digerir, à medida que nos aproximamos do final. Me incomoda a facilidade quase infantil com que Fortunato aceita a psicologia reversa de Montresor e continua descendo por túnel gelados e insalubres, mesmo com tosse constante e claramente adoentado, algo que, até certo ponto, se explica pela bebedeira e pelo ego, mas tudo tem limites, não? Essa insistência do autor cobra um preço alto à verossimilhança psicológico da sequência, como se Poe tivesse sacrificado a construção realista do personagem em nome do impacto do desfecho (pergunto a você: seria esta uma forma de afirmar que Fortunato apenas se achava inteligente, mas era um estúpido?). A maravilhosa atmosfera claustrofóbico, construída com tanto cuidado, prometia um desfecho mais seco; mas o final (após a aterrorizante cena de emparedamento) toma um caminho um tanto abrupto.
Ficam claras as pinceladas de loucura explícita de Montresor, e eu vejo nisso uma parcial contradição com o terror psicológico que sustenta o conto, já flertando com o sobrenatural, mudando o tom do texto nas últimas linhas e apresentando falha num plano de vingança tão fechado que, por pouco, não tira dele a maior parte da força de contexto. A ideia de “não ser afetado pelo ato de vingança” não se concretizou, e parece que quem saiu ganhando, no fim das contas, foi Fortunato; afinal, passada a agonia, ele simplesmente descansa em paz, enquanto o (claramente) atormentado Montresor não só tem o peso ético-moral batendo-lhe à porta, mas também as vozes que parecem persegui-lo e piorar sua condição emocional. Tanta coisa, tanta teoria, tanto trabalho, para terminar pior do que começou…
O Barril de Amontillado (The Cask off Amontillado) — EUA, novembro de 1846
Autor: Edgar Allan Poe
Publicação original: Godey’s Lady’s Book
Edição lida para esta crítica: Edgar Allan Poe: Medo Clássico – Vol. 1 (DarkSide Books, 2017)
Tradutor: Marcia Heloisa
15 páginas
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Fonte: Plano Critico.
