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Não é por acaso que aparecem flores em quase todos os momentos decisivos desta edição de Júlia. Cindy Kerrigan leva rosas até a porta dos Corey, disfarçada de entregadora, para que a família solte a corrente e deixe o bando entrar. Uma pétala de gardênia no tapete de uma casa onde ninguém tinha gardênias coloca Júlia na pista certa. E, mais uma vez, Cindy promete levar flores ao irmão caçula sempre que as antigas morrerem. O mesmo objeto serve ao crime, à investigação e ao afeto, uma constatação de que a violência que interessa aos roteiristas não é vista nem tratada de forma banal, partindo sempre “de dentro” e conseguindo poucas ou nenhuma explicação para o que causam. É justamente por isso que a história causa tanto impacto: triste e permeada por requintes de crueldade, ela se desenvolve a partir de um assalto que não sai como previsto, chamando a atenção, desde as primeiras páginas, pela organização caótica e mal disfarçada do grupo de jovens delinquentes.
Com o massacre da Alameda Rosa, Giancarlo Berardi (em colaboração com Lorenzo Calza) marca a dinâmica de poder entre os meninos e a única garota do bando, porque Cindy corre o maior risco (mostra o rosto na porta e saca a primeira arma) e, assim que os rapazes entram, assiste de lado enquanto Chuck dá as ordens e Boog dispara contra Leonora: um grupo onde a autoridade masculina (seguindo os padrões do machismo extremado, violento, dominador) era medida pela arma e pela força imposta. A arte de Thomas Campi e Roberto Zaghiaperta (completando todo o time que trabalhou em Um Silêncio que Grita) destaca num close a mão engatilhando o revólver e espalha pelos quadros o TUM TUM TUM do rap que toca no rádio, embalando e encobrindo a tragédia. Aos poucos, temos um complemento (curioso que aqui praticamente não exista contraste), já que o cotidiano dos jovens reflete, em alguma medida, o comportamento deles na casa do gerente da Wirth Trade. E a análise fica ainda mais potente quando Webb compara o bando aos jovens de Laranja Mecânica, fazendo uma ressalva importante: a de que eles matam movidos pela ganância e pela vontade de consumir.
Para explicar a brutalidade, os roteiristas intercalam o crime com uma aula de Júlia na universidade, e a alternância entre as duas situações deixa a teoria e a prática explicando uma à outra. Diante de fotos de carros, roupas de grife e astros do basquete, a criminóloga fala em “modelos fáceis de desejar, mas quase inatingíveis”, que acabam virando fonte de frustração e, no limite, de violência, raciocínio muito próximo do que Robert K. Merton descreveu ao estudar a anomia, quando a sociedade promete sucesso a todos e distribui mal os meios legais de alcançá-lo. O tema da aula de Júlia serve de base teórica para discutir a violência e a origem dela no sentido mais prático possível, e o método da protagonista segue a mesma linha (ela até anota no diário que a perícia cuida do “lado quantitativo do crime”, enquanto a ela importa o “qualitativo e psicológico”). Pena que a investigação seja corrida e um tanto solta, com coincidências que resolvem algumas coisas mais rápido do que deveria (a busca nas floriculturas logo chega a Tim, e uma professora reconhece Stan no necrotério bem na hora em que a polícia precisa de nomes), enfraquecendo o lado policial da trama.
SPOILERS!
Os fios dramáticos, contudo, se amarram bem no final e confirmam que, num grupo de histórico social parecido, mas com encaminhamentos psicológicos/comportamentais diferentes, o resultado não poderia ser mais complexo. Stan, filho de um taxista, quer se entregar e é morto pelos próprios comparsas. O corpo de Tim aparece no chão do matadouro. Cindy, que tratava o irmão com carinho, leva uma pancada na cabeça e quase é jogada no rio por Chuck e Boog. E Chuck, encurralado num beco, avisa ao parceiro: “Eu não volto pra cadeia, Boog… por ninguém neste mundo!” antes de matá-lo e, em seguida, se matar. O que Júlia define como um “coquetel de música, droga e sexo para um delírio de onipotência” deságua no pânico de quem está encurralado. A partir de um assalto fora de controle, a narrativa assume caminhos trágicos que se tornam cada vez mais difíceis de contornar, culminando num desfecho melancólico: Júlia leva girassóis a Lucas e promete que sua irmã escreverá para ele. Resta a amarga constatação de que aqueles jovens obcecados pela posse e pelo consumo acabaram reduzindo as pessoas à condição de objetos; e talvez, por isso, fique mais fácil matar. A tragédia se completa, contudo, quando a lógica que eles aplicavam às vítimas passa a valer também entre eles.
No Ritmo no Sangue (Il ritmo nel sangue — Júlia Kendall #29) — Itália, fevereiro de 2001
Roteiro: Giancarlo Berardi (com colaboração de Lorenzo Calza)
Arte: Thomas Campi, Roberto Zaghi
Capa: Marco Soldi
Editora original: Sergio Bonelli Editore
No Brasil: Mythos (abril de 2007)
Tradução: Júlio Schneider
132 páginas
GialloGiallo: QuadrinhosGiancarlo BerardiJúlia Kendall – Série RegularJúlia Kendall: Aventuras de uma CriminólogaJúlio SchneiderLorenzo CalzaMarco SoldiMythos EditoraRoberto ZaghiSergio Bonelli EditoreThomas Campi
Fonte: Plano Critico.
