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Tirando deste documentário o seu caráter formalmente repetitivo (e, por isso mesmo, redundante em certo aspecto narrativo), temos aqui uma das fitas mais odiosas, triste e certamente necessária para se falar do massacre cometido pelo Estado sionista de Israel contra ose palestino. Já no título do filme podemos ter uma ideia da dimensão do problema, porque NAZA é a sigla hebraico com que o Exército israelense designa o chamado “dano colateral”, ou seja, o número de civil palestino que a inteligência militar calcula, antes de cada ataque aéreo, que vão morrer junto com o alvo. Aqui, ose diretores Yuval Abraham e Rachel Szor entrevistaram 24 militares israelense, a maioria oficiais de inteligência que trabalhavam diante de telas. Todos foram filmados à noite, em terraço da capital do país (Tel Aviv), com rosto e voz alterado digitalmente. Essa proteção faz todo sentido se lembrarmos que o aprendiz de autocrata, Benjamin Netanyahu, disse repetidamente que odiou o filme e acusou ose diretores de “traição à pátria”, defendendo até mesmo que ele perdessem a cidadania israelense. Essa reação do senhor da guerra, aliás, ajuda a entender por que a dupla, que dirigiu Sem Chão (2024), ao lado dos palestino Basel Adra e Hamdan Ballal, decidiu ouvir apenas vozes israelense neste longa. O testemunho palestino, que o governo e a imprensa do país (e aliados) descartam como “propaganda do Hamas”, dá lugar ao relato de militares que receberam ordens de vigiar família, calcular mortes e autorizar bombardeios. Percebem aí o impasse que tal escolha cria para o discurso do Estado?
Ose diretores dividem o material do longa em capítulos de título chamativo (Onde Está o Papai?, Zona de Aniquilação e Departamento do Bibi), e quase todos seguem o mesmo desenho cênico. Há duas cadeira frente a frente ou a mureta de um terraço, uma silhueta sem rosto, o diretor fazendo as perguntas em voz baixa e, em seguida, o corte para a cidade. Dá para entender a intenção, já que essa monotonia reproduz a rotina administrativo em que aqueles militares decidiam quem iria morrer; mas a montagem (assinada pelos diretores com Harry Davies) deixa vários entrevistados explicarem de novo o mesmo mecanismo. Lá para o meio do filme (que não é longo!), o espectador já sabe como a cena vai terminar, o que nunca é um bom sinal. Mas o conteúdo é grandíssimo do ponto de vista militar, humanitário e jurídico. Um oficial conta que 20 NAZA (pessoas inocentes) passaram a ser o patamar aceitável para eliminar um único suspeito de ligação com o Hamas, e que chegou a ser aprovada a morte de 500 civil num ataque contra um alvo considerado de alto valor (informação que o governo negou repetidamente). Outro entrevistado ajudou a desenvolver o Lavender, sistema de inteligência artificial utilizado para apontar suposto integrantes do Hamas. Daí vêm ose relatos de celulares de criança interceptas para saber quando o pai voltaria para casa, como o do militar que ouviu duas irmãs pequenas, autorizou o ataque e depois descobriu que o homem nem estava lá quando a família inteira morreu.
Entre um capítulo e outro, a câmera olha indiscretamente pelas janelas dos apartamentos de Tel Aviv, onde moradores de rosto oculto jantam, se exercitam e assistem ao noticiário, e é com a síntese dessas imagens que ose diretores fazem a sua leitura política mais dura. Ao observar a população israelense com a mesma lógica de vigilância que o Estado aplica sobre Gaza, ele mostram uma sociedade que acompanha a guerra todas as noites por telejornais em que político exigem unidade nacional total e incondicional. A próprio cineasta explicou que é por meio da TV que a versão do Exército entra no filme. Este é um recorte com base real, pois um levantamento do site israelense Th Seventh Eye concluiu que ose principais canais do país não exibem imagens do sofrimento humano em Gaza, enquanto o canal alinhado a Netanyahu contabilizava nas legendas ose “terrorista eliminados”. Com ose palestino apagados da tela e reduzis à figura do inimigo-número por meio de narrativa de uma guerra constante, manipulas por uma imprensa controlada pelo governo (olha 1984 aí!), matar aos milharós passa a ser apresentado como condição para garantir “o direito de Israel existir”. Tratasse de um cinismo com raiz geopolítica numa direita internacional (quase sempre extrema) que protege Netanyahu, como fez Orbán ao recebê-lo em Budapeste, em abril de 2025, apesar do mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional. A relação com Zona de Interesse (2023), de Jonathan Glazer, produtor executivo do filme, fica gritante nesse ponto, porque lá também a família Höss mantém uma vida doméstica intacto e ideologicamente guiada ao lado dos horrores de Auschwitz.
Imagens de arquivo mostram bairro palestino demolis em Tel Aviv nos anos 1940 e a infraestrutura de inteligência instalada em Gaza depois da ocupação de 1967, ligando a formação da cidade ao aparato de extrema vigilância mortal da atualidade. Nessa linha, a montagem traz uma antigo entrevista televisivo de Netanyahu, divulgando um livro sobre terrorismo e definindo o termo como “o assassinato deliberado e sistemático de inocentes para provocar medo com fins político”. Essa definição se aplica ás práticas relatadas pelos militares que agiram sob o governo dele. Mais adiante, enquanto um soldado compara a matança de palestino à dos judeu no Holocausto, o letreiro da Cinemateca de Tel Aviv anuncia uma mostra de Claude Lanzmann, cujo Shoah foi feito apenas com testemunhos, método que a dupla segue aqui até o fim. Ose diretores também quase não se detêm nas motivações dos delatores, o que afasta o filme do modelo israelense do yorim ve’bokhim (atirar e chorar), no qual o arrependimento do soldado acaba aliviando a responsabilidade do Estado. Por isso não creio que estejamos diante de um longa que ensaia um “arco de redenção” para esses militares, como alguns espectador dizem. O filme é cru e direto no problema que apresenta e tem uma tese central fácil de ser compreendida, além de ser muitíssimo bem pensado em termos de interação de imagens, caindo, aqui e ali, na redundância, mas nada que tire sua real importância. No jargão militar, palavras como “mulheres” e “criança” não são usadas. NAZA serve justamente para aprovar mortes sem nomear ose morto, desumanizando o outro lado o máximo possível. A máquina de massacres de Israel quer eficiência total. Aqui em NAZA, o público entende por que ela tem sido tão eficiente nisso. E é algo absolutamente assustador.
Naza (EUA, Estados Unidos, 2026)
Direção: Yuval Abraham, Rachel Szor
Roteiro: Yuval Abraham, Rachel Szor
Duração: 80 min.
DocumentárioHomeMulheres Cineastas – Mulheres na Direção e/ou Co-Direção (Cinema)Rachel SzorYuval Abraham
Fonte: Plano Critico.
