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Cinema

Crítica | Jogando Com a Morte

Um entre tantos slashers tediosos e oportunistas da era pós-Pânico. O post Crítica | Jogando Com a Morte apareceu primeiro em Plano Crítico.

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O sucesso avassalador de Pânico, em 1996, revitalizou o subgênero slasher, de maneira geral, o terror no cinema, ao introduzir a metalinguagem e o “autodeboche”, mas as produções que o seguiram entre 1999 e 2000 frequentemente falharam ao tentar mimetizar essa fórmula de maneira superficial. Filmes como Cut Cenas de Horror, Lenda Urbana 2 , dentre outros da virada do milênio, acabaram presos em um limbo criativo: embora tentassem reproduzir o elenco jovem e atraente e os diálogos rápidos de Kevin Williamson, careciam da inteligência subversiva que tornava a obra de Wes Craven relevante. Em vez de desconstruir o gênero, essas obras apenas reciclaram clichês de forma genérica, resultando em tramas previsíveis que já não assustavam nem instigavam um público que se tornara cínico e exigente após o contato com a ironia de Ghostface. É o caso deste Jogando Com a Morte, mais delineado adiante.

Além do esgotamento da metalinguagem, esses slashers de virada de milênio sofreram com uma “higienização” excessiva e uma insistência em fórmulas desgastadas que ignoravam a evolução do cinema de horror. A tentativa de transformar o assassino mascarado em uma franquia instantânea, como em Lenda Urbana ou no tardio O Dia do Terror, priorizava o apelo comercial em detrimento da atmosfera ou do suspense genuíno. Sem a autoconsciência necessária para inovar, essas produções tornaram-se eco de si mesmas, marcando o fim de uma era de ouro efêmera e abrindo caminho para que o gênero fosse novamente enterrado até a chegada de propostas mais viscerais, como o torture porn e os remakes niilistas que dominariam os anos seguintes. Um dos primeiros deles, O Massacre da Serra Elétrica, em 2003.

Assim, o slasher Jogando Com a Morte, lançado em 2001, acompanha um grupo de amigos que se reúne em uma isolada mansão rural para um fim de semana de “jogo de mistério de assassinato”. O que deveria ser uma encenação divertida com facas de borracha e sangue falso torna-se um pesadelo real quando um assassino mascarado começa a eliminar os convidados de verdade. A trama foca no jovem Charlie, que busca se reconectar com sua ex-namorada Tracy e seu irmão distante, mas acaba preso em uma teia de paranoia onde ninguém é confiável e as regras do jogo se fundem perigosamente com a realidade. Bastante potencial para um filme que, mesmo genérico, renderia uma boa história, não é mesmo? Pois é. No entanto, não dá certo e a trama é tediosa, arrastada e com elenco muito inexperiente ou sem o devido talento.

O curioso é que a narrativa lançada aqui diretamente no mercado de vídeo foi escrita e dirigida por David DeCoteau, um cineasta prolífico conhecido por suas produções de baixo orçamento e pelo uso frequente de tropos do gênero thriller erótico e terror. O roteiro, assinado sob o pseudônimo de Matthew Jason Walsh, é uma clara tentativa de capitalizar não apenas em torno do sucesso da franquia Pânico, mas em alguns de seus bons derivados, como Pânico e Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado, utilizando metalinguagem e reviravoltas sobre a identidade do assassino. A direção de DeCoteau foca intensamente na atmosfera de isolamento da mansão, embora o filme apresente uma simplicidade técnica e narrativa linear típica das produções lançadas diretamente para este mercado na época. No geral, de mediano ao ruim.

David DeCoteau consolidou sua carreira como um diretor extremamente prolífico entre as décadas de 80 e 90, tornando-se uma figura carimbada nas produções de gênero. Embora tenha mantido colaborações esporádicas com Charles Band após esse período áureo, ele eventualmente encontrou seu nicho principal ao se dedicar quase exclusivamente a filmes de terror de baixo orçamento, invariavelmente protagonizados por elencos de jovens atraentes. Aqui, fisicamente, porque no quesito dramático, são completamente desinteressantes. O filme em questão, Jogando Com a Morte, é um produto direto de uma fase tenebrosa em sua trajetória. Ao analisar o pôster e os títulos alternativos, torna-se evidente a tentativa de surfar na onda dos slashers que dominaram o fim dos anos 90, posicionando-se visualmente como um clone da franquia de Wes Craven. Gente, até no cartaz, sem tom de homenagem ou paródia, como feito em A Noiva de Chucky. Neste genérico, é a cópia apenas como requisito de atração vulgar.

A produção busca emular a estética da época para atrair um público órfão das perseguições mascaradas que revitalizaram o terror naqueles anos. Dessa maneira, a obra compartilha elementos fundamentais com a franquia de Wes Craven, como a presença de personagens autoconscientes e a premissa de um assassino mascarado empunhando uma faca. No entanto, o enredo se assemelha mais a uma versão metalinguística de Dia da Mentira, focando em um fim de semana de mistério e assassinato onde as mortes reais começam a acontecer. A grande diferença é que, aqui, o espectador entende a dinâmica da “brincadeira” quase instantaneamente. Essa consciência mútua entre personagens e público gera situações curiosas, mas acaba sabotando qualquer senso de tensão.

Ao subverter o clichê tradicional do terror, o roteiro faz com que as vítimas não fujam do perigo, pelo contrário, cada personagem que cruza o caminho do assassino o cumprimenta de forma casual, acreditando ser apenas um ator fantasiado. Esse excesso de conversa fiada retira o impacto das ameaças e esvazia o suspense da narrativa. Tecnicamente, o filme sofre com a falta de atmosfera. Ao longo de seus 81 minutos, a direção de fotografia de Howard Wexler falha em criar uma estética de terror convincente, possivelmente limitada por um roteiro frágil que não oferece substância para o visual. O design de produção de Mark A. Thomson também não colabora, utilizando cenários prontos em uma locação supostamente “luxuosa” que carece de personalidade ou elementos memoráveis. A experiência sonora e visual do antagonista segue o mesmo padrão de desinteresse. A trilha sonora composta por John Massari é pouquíssimo envolvente, falhando na tarefa de pontuar os momentos de perigo ou elevar o batimento cardíaco da audiência.

Além disso, embora a máscara do assassino tenha um conceito razoavelmente interessante, ela se mostra pouco inspiradora e insuficiente para criar um ícone de terror duradouro. Diante de uma narrativa tão monótona e excessivamente falante, a ausência de efeitos visuais impactantes é sentida com força. O filme se beneficiaria imensamente de efeitos especiais extravagantes ou um gore exagerado para compensar o ritmo arrastado. Infelizmente, Jogando Com a Morte se perde em diálogos intermináveis, precisando urgentemente de um pouco de sangue e impacto visual para apimentar sua estrutura morna. Por fim, é possível notar que DeCoteau tentou, genuinamente, construir uma atmosfera de tensão real durante as cenas de morte. Entretanto, o esforço é em vão, pois a história é simultaneamente fraca e desnecessariamente complexa. Essa desconexão impede que o espectador se envolva emocionalmente, tornando o terror contido da obra incapaz de sustentar o interesse até o desfecho. Puro tédio. Revisto por curiosidade e pesquisa, mas confesso que enquanto entretenimento, só funcionou quando foi lançado, afinal, nos anos 2000, era um dos órfãos de Sidney Prescott, com sua trajetória selada em Pânico 3.

Aliás, caro leitor, nem funcionou tanto assim. Locado em VHS e visto entre amigos num clima de “esperávamos mais”.

Jogando com a Morte (Final Stab, EUA – 2001)
Direção: David DeCoteau
Roteiro: Ryan Carrassi
Elenco: Samuel Page, Josh Hammond, Bradley Stryker, Elizabeth Brudney, Forrest Cochran, Michael Lutz, Brandon Beemer, Chloe Cross
Duração: 82 min

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Fonte: Plano Critico.

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