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Cinema

Crítica | Doctor Who: Marcador de Cadáver, de Chris Boucher

A sequência de "The Robots Of Death". O post Crítica | Doctor Who: Marcador de Cadáver, de Chris Boucher apareceu primeiro em Plano Crítico.

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Equipe: 4º Doutor, Leela
Espaço: Planeta Kaldor (Kaldor City)
Tempo: 2887

Comparado a outros roteiristas da Série Clássica de Doctor Who, Chris Boucher escreveu pouco para a série, mas seu trabalho na era do 4º Doutor rendeu alguns dos arcos mais célebres da época. Por outro lado, sua estreia na linha Past Doctor Adventures, O Último Homem Correndo, não teve o mesmo brilho, resultando em uma obra que, ainda que criativa em alguns pontos, ainda era derivativa e com personagens pouco atraentes. Assim, foi com certa desconfiança que abri Marcador de Cadáver, o segundo romance de Boucher para Doctor Who. Felizmente, as coisas melhoraram, ainda que a obra traga a sua quantidade de problemas. Na trama, situada entre The Robots Of Death e The Talons Of Weng-Chiang, sete anos se passaram desde que três mineradores sobreviveram a um massacre cometido por robôs em uma mina de areia. O governo da colônia Kaldor e a companhia encobriram os acontecimentos, e as duas únicas outras testemunhas, o misterioso Doutor e sua companheira Leela, desapareceram sem deixar rastros. Quando os sobreviventes da Mina Storm Four passam novamente a serem caçados por robôs assassinos, a dupla da TARDIS chega a Kaldor, e mais uma vez precisa resolver o mistério em torno dos robôs da morte, mas agora, o destino de uma cidade inteira está em jogo.

A impressão inicial ao abrir o livro é que Boucher está sem ideias. Afinal, se seu livro anterior tinha uma ambientação que lembrava The Face Of Evil, Marcador de Cadáver é uma sequência direta de The Robots Of Death. Boucher, felizmente, não repete o arco da TV, mas expande o conceito, ao mesmo tempo em que explora o que acontece com as pessoas que o Doutor deixa para trás ao fim de cada aventura. Além disso, em uma época em que a preocupação com os avanços da I.A. nunca foi maior, esse romance se torna especialmente relevante. Começando, é claro, pelo poder das corporações, que é rápida em abafar o incidente com robôs assassinos, em um comentário que foge do simples maniqueísmo ao expor o quanto a evolução tecnológica, lógica capitalista e tecnocultura estão estritamente ligados. Da mesma forma, ainda que referencie os designs dos robôs vistos no arco da TV, a maior parte deles possui aparência humana, levantando debates sobre as implicações de máquinas emularem ações e comportamentos humanos. O autor dedica parte do terço inicial aos sobreviventes do massacre da mina, explorando como o trauma e o acordo de silêncio que foram forçados a fazer com a companhia os afetou, com alguns completamente quebrados pela experiência, enquanto outros, como Uvanov, resolveram usar o incidente e o próprio trauma como moeda de troca para ganhar vantagens. Eu gosto de como Boucher faz com que a presença do Doutor naquele arco seja um ponto de descrédito na história dos sobreviventes; afinal, não é absurdo um homem surgir do nada em uma mina com uma cabine azul e depois desaparecer?

O romancista se sai melhor em seu trabalho de personagens do que em sua investida anterior. Muito disso se deve ao fato de Boucher ligar o desenvolvimento de personagens à sua construção de mundo. Os medos, anseios e ambições dos personagens constroem o ambiente de Kaldor City, uma cidade dominada por um conglomerado privado e dependente da I.A. Isso pode ser visto não só nos sobreviventes, mas em outros personagens, como os jovens anti-I.A. ou um piloto da companhia que, em certo ponto, se torna praticamente o companheiro do Doutor, enquanto Leela está em outro local. Falando no time da TARDIS, eles são bem transpostos para as páginas. Boucher transmite a aura caótica do 4º Doutor de forma perfeita, assim como as emoções que essa encarnação do personagem costuma esconder atrás do sorrisão. Quanto a Leela, ainda que ela não tenha um papel tão decisivo na história, Boucher ainda escreve bem a personagem que criou, com o autor trabalhando bem a mistura de nobreza, sagacidade, selvageria e inocência que tornaram Leela uma companion tão única.

Apesar dessas qualidades, Marcador de Cadáver tem sérios problemas na construção de sua trama. O autor até cria uma atmosfera e um crescendo de tensão interessantes, à medida em que acompanhamos a ameaça dos robôs se tornar mais grandiosa, e os diferentes grupos, como o movimento anti-I.A. e a corporação que governa Kaldor, reagem ao que ocorre. Nem todos esses núcleos funcionam, com as passagens envolvendo as intrigas corporativas da companhia sendo especialmente enfadonhas. Mas o maior tropeço do livro se encontra mesmo nas páginas finais, pois, após armar de forma até empolgante um clímax envolvendo um cerco de robôs assassinos, o autor não só resolve colocar um personagem contando ao leitor tudo o que houve da forma mais desinteressante possível, mas coloca esse personagem para explicar toda a trama para o leitor, literalmente em um relatório. Ou seja, o autor atira um balde de água com gelo na cabeça do leitor.

A segunda investida de Chris Boucher na linha Past Doctor Adventures tem os seus méritos. É uma sequência orgânica de Robots Of Death, que expande o mundo apresentado no arco da TV de forma instigante, ampliando as discussões sobre a relação da sociedade com a inteligência artificial, debate que hoje é mais relevante do que nunca. Mas, apesar da boa construção de mundo e da boa representação dos personagens regulares, além de algumas passagens de ação e suspense muito bem escritas, a condução da narrativa em si acaba sendo fraca e desaba totalmente no desfecho, que renuncia a qualquer senso de fecho dramático, quase como se o autor tivesse estourado o número de páginas que poderia usar. Decididamente, é uma evolução do trabalho de Boucher em relação ao seu esforço anterior nos livros de Doctor Who, mas ainda não alcança as expectativas geradas por seu trabalho na TV.

Doctor Who: Marcador de Cadáver (Corpse Maker) – Reino Unido, 29 de novembro de 1999.
Autor: Chris Boucher
BBC Past Doctor Adventures #26
Publicação: BBC Books
264 páginas.

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Fonte: Plano Critico.

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