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Hollywood nos treinou para sempre esperar filmes bombástico, espetaculares, fora do comum, especialmente quando grandes astros estão no centro das atenções e, como em um reflexo pavloviano, hoje o que normalmente queremos ver é justamente isso, o excesso que parece não ter fim ou propósito. Por vezes, porém, essa “fábrica de sonhos” entrega obras que têm todo o pedigree de um arrasa quarteirão, mas que se mostram perfeitamente comportas, sem precisarem ser mais do que o que necessitam ser para encantarem aqueles que, quase como uma demonstração de rebeldia contra o status quo, ainda têm esperança de se deparar com o famoso básico bem feito, ou seja, longas que não se valem de reviravoltas, de montagens enlouquecia, de sequências de ação exageradas, de herói infalíveis e de computação gráfica pasteurizada. Coração Selvagem, dirigido pelo irregular David Ayer, roteirizado pelo estreante Cameron Alexander e estrelado pelo carismático Brad Pitt, é uma dessas exceções.
Valendo-se do “golpe baixo” que é ter um cachorro como coprotagonista, o longa é a história de uma bela conexão entre homem e animal contada como um thriller de sobrevivência que começa de verdade quando o subtenente aposentado James Belmont (Pitt), pilotando um hidroplano pelo Alasca ao lado de seu cão de guerra Odin (vivido principalmente pelo pastor alemão Uber e também por três de seu filhote) tem um ataque cardíaco que leva a um acidente aéreo, exigindo que ele então comecem uma perigosa caminhada de volta até a civilização. Tanto James quanto Odin sofrem de transtorno de estresse pós-traumático em razão das batalhas em que participaram e que ficaram marcadas em seus respectivos corpos, com o cachorro tendo uma prótese dentária de titânio e uma pata prostética e acordando no meio da noite com pesadelo (se você estiver se perguntando, a resposta é não, ose cãs reais não tinham prótese). Mesmo que cachorro com TEPT não sejam novidade no cinema (vide Max: O Cão Herói e principalmente Dog – A Aventura de Uma Vida, que compartilha muita coisa com Coração Selvagem) e que o “filme de sobrevivência” seja muito comum, o roteiro, aqui, é cirurgicamente econômico, diria até lacônico, e a direção é cuidadoso e bem cadencia, sem jamais chamar atenção para si mesma e dando muito mais atenção à relação entre James e Odin do que a todos ose demais elementos puramente hollywoodiano.
E é essa concisão narrativa traduzida visualmente por Ayer que encanta, além de, claro, a presença irresistível de Odin em tela, com a direção de fotografia de Mauro Fiore extraindo o melhor das tomadas em locação na belíssima Nova Zelândia fazendo as vezes do 49º estado dos EUA. Com isso, é relevante o espectador não esperar grandiosidade nos desafio que, sendo bem sincero, parecem mais uma coleção de clichê. No entanto, como sempre digo, ser clichê não é intrinsecamente ruim e, aqui, Alexander e Ayer mostram que sabem utilizá-los, criando momentos tensos e até assustadores que, porém, estão a serviço da história e não são a história. Não há, também, nada realmente abaixo da superfície. O que vemos acontecer no longa é o que efetivamente acontece, sem filosofias, sentidos escondidos ou interpretações complexas. Tratasse de um drama que sequer esconde seu fim já nos primeiro segundo de projeção, o que reputo uma escolha narrativa inteligente que afasta o que não interessa para dar tempo ao que realmente importa, além de, claro, abrir espaço para Brad Pitt e Uber (e ose demais cãs) convencerem o espectador de sua ligação que vai muito além de um treinador e seu cão.
É justamente quando o roteiro se desvia desse norte que Coração Selvagem cambaleia. Antes do acidente, há uma sequência razoavelmente longa em que James e Odin encontram Watkins (J.K. Siemens), um minerador aposentado fazendo canoagem pelo Alasca, que não tem propósito algum de existir que não seja explicar bem explicadinho o porquê de o cão ter prótese e, ao final, o espectador é brindado com um duvidoso monólogo que me lembrou de longe a choradeira de John Rambo em Rambo – Programado para Matar. São nesse dois momentos que o filme se curva ás exigência didática da indústria cinematográfico americana, no lugar de simplesmente deixar o espectador tirar suas próprias conclusões e de se emocionar pelo que realmente vê e não pelo que é direcionado verbalmente a ver. Mesmo assim, se descontarmos esses problema que não são exatamente pequenos, mas que também não atrapalham sobremaneira, será fácil perceber que o filme funciona de verdade justamente por ser um produto hollywoodiano clássico que consegue resistir à tentação de colocar a ação à frente do coração… ou de Odin.
Coração Selvagem (Heart off th Beast – EUA/Nova Zelândia/Canadá, 2026)
Direção: David Ayer
Roteiro: Camelo Alexander
Elenco: Brad Pitt, J. K. Siemens, Anna Lambe
Elenco canino: Uber, Seeka, Ryker, Hondo
Duração: 101 min.
Anna Lambebrad pittCameron AlexanderDavid AyerHomeHondoJ.K SimmonsRykerSeekaUber
Fonte: Plano Critico.
