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Como sempre destaquei por aqui, um dos subgêneros mais profícuos do cinema, o slasher sempre nos apresenta uma renovação. Esse reajuste para o contexto de produção ganha destaque por alguma obra-prima ou revisitação aos clássicos, como aconteceu recentemente com a nova empreitada de Michael Myers (2018) ou as artimanhas de Ghostface (2022). Nessa pavimentação de caminhos para novas audiências e atendimentos aos nostálgicos surgem tramas muito interessantes e que aproveitam bem a gramática em questão, tal como Feriado Sangrento, mas também temos aqueles que, ao buscarem uma fusão de estilos para transparecer “novo” ou “diferenciado”, acabam por perder o ritmo e naufragar em seu desenvolvimento dramático, como ilustrado em Dezesseis Facadas e outras produções que mesclam de maneira não orgânica viagens no tempo, autoconsciência frágil, dentre outras escolhas questionáveis. Em Conferência Mortal, de 2023, o que temos é o básico. E, em muitas situações, desde nosso vestuário ao que nos alimentamos, passando pelo que consumimos enquanto entretenimento, o basilar é melhor que o excesso, a busca pelo escalafobético.
Ao mesclar o subgênero slasher com um humor ácido que remete ao estilo de The Office, Conferência Mortal consegue estabelecer um frescor genuíno em sua narrativa. Mesmo diante de uma premissa amplamente conhecida e frequentemente saturada pelo excesso de produções similares, a obra dirigida por Patrik Eklund, que também assina o roteiro ao lado de Thomas Moldestad, destaca-se pela sua execução. A trama, baseada no livro homônimo de Mats Strandberg, utiliza o ambiente corporativo para subverter expectativas do gênero. A história acompanha um grupo de colegas de trabalho em um evento de socialização em uma pequena cidade, organizado às vésperas da construção de um polêmico shopping center. O projeto, que ameaça a natureza e a economia da comunidade local, gera tensões internas e dilemas éticos até mesmo entre os funcionários. Assim que chegam ao retiro, os personagens passam por diversas dinâmicas de grupo, desde exercícios físicos aos momentos de atividades de reflexão, sem imaginar que, nos bastidores, um assassino frio e mascarado está pronto para eliminá-los utilizando as mais diversas ferramentas.
Embora a máscara do vilão não brilhe pela criatividade, a trama compensa com uma condução envolvente e uma estética que defino como correta. A atmosfera sombria é construída pela direção de fotografia de Simon Rudholm, que utiliza uma iluminação precisa para estabelecer o tom ideal em cada enquadramento. Complementando a experiência, a trilha sonora de Andreas Tengblad se mostra funcional para o suspense, enquanto o design de produção de Karin Myrenberg Faber cria o cenário perfeito para as sequências de ação e perseguição propostas pelo roteiro. Sendo assim, no geral, ao longo de seus 100 minutos de duração, essa é uma produção se consolida como uma sólida contribuição da Suécia ao estilo “slasher de acampamento”. Trata-se de um filme bem executado que, apesar de não apresentar grandes reviravoltas ou inovações estruturais, entrega exatamente o que promete com competência. É uma opção divertida e sangrenta disponível no catálogo da Netflix, ideal para quem busca uma mistura equilibrada entre o horror e a sátira corporativa, investimento mais interessante que bizarrices forçadas como Corte no Tempo. Como mencionado, às vezes, é melhor manter a receita sem inventar tantos incrementos e, no processo, prejudicar o sabor da narrativa.
É uma narrativa que destila um sarcasmo ácido ao transformar a dinâmica tóxica de um escritório em um banquete sangrento digno dos melhores slashers. Os personagens são a personificação dos clichês corporativos: do chefe autoritário ao estagiário negligenciado, todos usam o caos para lavar roupa suja enquanto um assassino misterioso os caça sistematicamente. No entanto, o verdadeiro horror não reside apenas nas lâminas do antagonista, mas na frieza com que velhas rusgas de corredor se tornam sentenças de morte, provando que o ambiente de trabalho pode ser muito mais letal que qualquer psicopata mascarado. À medida que o sangue mancha o canteiro de obras, a trama revela que a resistência local contra o empreendimento, motivada pela defesa da agricultura familiar, esconde camadas mais sombrias de uma catástrofe ambiental iminente. Uma das funcionárias, ao notar que a obra é um crime ecológico mascarado de progresso, acredita ter decifrado o enigma, mas o slasher contemporâneo dita que as aparências são apenas iscas nesse sangrento jogo de espelhos da sobrevivência.
Pode não ser uma obra-prima, mas entrega o que promete um bom filme desse subgênero.
Conferência Mortal (Konferensen, Suécia – 2023)
Direção: Patrik Eklund
Roteiro: Patrik Eklund, Thomas Moldestad, Mats Strandberg
Elenco: Katia Winter, Adam Lundgren, Eva Melander, Bahar Pars, Amed Bozan, Maria Sid, Christoffer Nordenrot, Claes Hartelius, Cecilia Nilsson, Jimmy Lindström
Duração: 100 minutos
Adam LundgrenAmed BozanBahar ParsCecilia NilssonChristoffer NordenrotClaes HarteliusEva MelanderJimmy LindströmKatia WinterMaria SidMats StrandbergOutubro do TerrorOutubro do Terror 2026Patrik EklundThomas Moldestad
Fonte: Plano Critico.
