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- Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas de todos os episódios da série e, aqui, de todo nosso material do universo Avatar.
Avatar: Sete Refúgios começa bem. Ainda não diria que é um retorno excelente ao universo criado em A Lenda de Aang e expandido em A Lenda de Korra, mas existe algo bastante promissor nesses três primeiros episódios, principalmente na maneira como a série entende que não basta repetir a fórmula anterior com outro protagonista. O mundo mudou, a imagem do Avatar mudou e até a lógica espiritual daquele universo parece atravessada por uma espécie de trauma histórico. Depois de Korra, a nova animação parte da ideia de que, e se o Avatar, tradicionalmente visto como ponte, equilíbrio e esperança, passasse a ser lembrado como ameaça?
Apesar de acreditar que isso possa alimentar o ódio infundado com a excelente personagem que Korra é e sua ótima série, tenho convicção que uma reviravolta nos espera revelando que na verdade ela salvou a todos. De qualquer forma, a inversão de percepção do Avatar é uma decisão conceitual intrigante. Em Ellora, uma das cidades-refúgio erguidas após o cataclismo, o Avatar não é celebrado, mas temido. O festival que marca essa rejeição já estabelece uma boa diferença em relação às séries anteriores. Aang era um mito ausente que precisava retornar. Korra era uma figura pública demais em um mundo moderno demais. Pavi, por sua vez, nasce em um mundo que parece desejar que o Avatar continue morto. Isso dá à jornada uma tensão imediata, porque a descoberta de seus poderes não é apenas revelação de identidade, mas quase uma sentença de perseguição.
O primeiro episódio funciona melhor quando acompanha Pavi em uma escala pequena. Antes de ser “a nova Avatar”, ela é uma garota tentando proteger um besouro, sobrevivendo nas bordas de Ellora e se movimentando por uma cidade que parece grande demais para ela. Gosto dessa entrada porque recoloca a franquia em uma chave muito simples de empatia. Pavi não começa como escolhida grandiosa, mas como alguém que se importa com criaturas pequenas. É um gesto fácil de sublinhar, claro, mas eficiente.
Visualmente, Ellora é o maior acerto desses episódios. A cidade tem uma arquitetura que mistura monumentalidade, refúgio e precariedade, como se fosse ao mesmo tempo fortaleza, ruína sobrevivente e organismo urbano ainda tentando se sustentar. Há algo interessante na ideia dos Sete Refúgios como últimos pilares de civilização, não mais divididos pelas velhas nações elementais, mas por comunidades que parecem ter reorganizado a vida após uma ruptura global. A série ainda precisa aprofundar melhor esse novo mapa político e espiritual, mas a primeira impressão é boa. Ellora tem escala, cor e personalidade, ainda que um lado meu sinta falta da progressão contemporânea que vimos em Korra e no recente filme de Aang.
A animação, porém, é um pouco irregular. Não acho ruim, longe disso, mas também vejo um passo atrás da força coreográfica e do trabalho com set-pieces que fizeram A Lenda de Aang e Korra se destacarem tanto com ação e construção de mundo. Os cenários e planos abertos costumam funcionar melhor do que os personagens em movimento. Há beleza na composição de Ellora, na tempestade, nas multidões e em alguns enquadramentos em momentos específicos, mas certas expressões faciais e transições corporais soam simples demais. Me parece que a ideia é seguir o estilo do flashback do Avatar Wan, talvez em um retorno às raízes desse universo.
A revelação de Nisha é outro bom motor dramático. A ideia de duas Avatares gêmeas poderia soar como fanfic de mitologia, mas, nesses primeiros capítulos, funciona justamente porque a série trata isso como mistério e desconforto, não como simples “upgrade” de poder. Pavi e Nisha têm personalidades contrastantes, de uma mais compassiva, intuitiva e conectada ao aspecto espiritual; a outra mais treinada, ansiosa por agir e inclinada ao uso objetivo da dobra. Essa diferença ainda é simples, quase esquemática, mas oferece uma boa base para conflito e aproximação.
Também gosto da maneira como a memória das duas é tratada. A série não entrega tudo de uma vez. Há lampejos, sensações, ecos de uma infância compartilhada e uma canção materna que funciona como rastro emocional. O mistério de suas origens, de como ambas podem carregar o papel de Avatar e de por que foram separadas dá a esses episódios uma boa linha de continuidade. Os personagens coadjuvantes ao redor de tudo isso, como Jae e Karthik, também são promissores, talvez em variações do que vimos com Tenzin.
O que ainda me impede de achar esse início excelente é a quantidade de informação comprimida nesses três episódios. A série precisa apresentar Pavi, Nisha, Jae, Karthik, Ellora, os Sete Refúgios, o cataclismo, a rejeição ao Avatar, a Brigada de Dobra, a queda na espiritualidade, a ameaça vermelha, as memórias fragmentadas e a nova dinâmica do ciclo. Muita coisa funciona, mas algumas passagens soam mais apressadas do que plenamente dramáticas. Há momentos em que a narrativa parece preocupada em estabelecer tabuleiro, não necessariamente em deixar as cenas respirarem, talvez um cacoete da temporada diminuta se comparada com a primeira série.
Também ainda não estou totalmente convencido pela ameaça maior. O tal elemento vermelho, a corrupção espiritual e a figura de um mal possivelmente ligado ao mundo dos espíritos têm potencial, mas, por enquanto, parecem mais promessa do que presença realmente marcante. A franquia já lidou com desequilíbrio espiritual, entidades antigas e forças cósmicas, então Sete Refúgios precisará encontrar uma forma própria para não parecer apenas uma nova variação de Vaatu e fim do mundo.
No saldo, os três primeiros episódios de Avatar: Sete Refúgios formam um bom início. A série entende que precisa respeitar o legado de Avatar, mas também sabe que não pode viver apenas dele. Pavi é uma protagonista carismática, Nisha adiciona uma boa tensão mitológica, Ellora é um cenário visualmente forte, e a ideia de um mundo que odeia o Avatar dá à trama um ponto de partida realmente interessante. Ao mesmo tempo, a animação ainda oscila, a exposição é pesada em alguns momentos e a ameaça principal precisa ganhar mais personalidade.
Mesmo assim, saio desses episódios mais curioso do que desconfiado. Sete Refúgios não começa no mesmo nível emocional de A Lenda de Aang, nem com a confiança estética dos melhores momentos de Korra, mas encontra uma boa porta de entrada para uma nova era. A série parece entender que o Avatar não pode ser apenas uma repetição cíclica de poderes e responsabilidades, com tudo sendo forte o suficiente para deixar a sensação de que ainda há muito ar, terra, fogo, água e trauma para explorar.
Avatar: Sete Refúgios – 1X01 a 03: No Horizonte / Na Tempestade / A Ordem (Avatar: Seven Havens – 1X01 a 03: On the Horizon / Into the Storm / The Order) | EUA, 09 de outubro de 2026
Criação: Bryan Konietzko, Michael Dante DiMartino
Direção: Kenji Ono, Jen Bennett, Jasmine Goggins
Roteiro: Sehaj Sethi, Chad Quandt, M. Willis
Elenco: Saheli Khan, Aishu Devan, Akshay Khanna, Major Curda, Sakina Jaffrey, Darren Barnet, Dianne Doan, Dee Bradley Baker
Duração: 20 min. aprox. (cada)
Aishu DevanAkshay KhannaAnimaçãoAvatar: Sete RefúgiosAvatar: Sete Refúgios – 1ª TemporadaBryan KonietzkoChad QuandtDarren BarnetDee Bradley BakerDianne DoanHomeJasmine GogginsJen BennettKenji OnoM. WillisMajor CurdaMichael Dante DiMartinoSaheli KhanSakina JaffreySehaj SethiUniverso Avatar
Fonte: Plano Critico.
